O CHINÊS DÚBIO

Qual é a probabilidade de encontrar num modesto restaurante do outro lado do mundo alguém que conheça a nossa terra?  Intuitivamente, sentimos que é baixa. Uma resposta correcta, segura, será: maior que zero. Para esclarecer a charada, devo dizer que a família, exausta, tinha ido descansar devido à viagem muito longa, somada à caminhada da … Continue reading O CHINÊS DÚBIO

EM SVOLVÆR, RENA CONGELADA

“Isto é rena congelada, pois a fresca não se pode comer, está proibido.” Foi assim que me disseram, talvez a justificar a sensaboria do repasto.  Em maio de 1986, viajei até ao norte da Noruega para frequentar uma pós-graduação em Gestão da Zona Costeira e Recursos Marinhos, paga por uma bolsa de estudo europeia. Foi … Continue reading EM SVOLVÆR, RENA CONGELADA

TORTUGUERO

Aquela bola de grossa e parda pelagem avançava lentamente, pendurada no arame farpado por longas garras. Carregando outra bolinha peluda agarrada ao ventre, não mostrava qualquer receio dos bípedes que observavam de muito perto, falavam alto e metralhavam as máquinas fotográficas com entusiasmo. Eu já tinha visto preguiças no Brasil, mas não a dois metros … Continue reading TORTUGUERO

O TRILHO DO CASUAR

É pouco mas é muito. Sim, parece estranho, mas eu explico. Percorrer mais de dois mil quilómetros na imensidão das estradas australianas é pouco, por razões óbvias e atendendo à adjetivação aplicada. Mas também é muito, quer pela diversidade de paisagens e de seres vivos que se observam com facilidade, quer pelas muitas oportunidades para … Continue reading O TRILHO DO CASUAR

ALVOROÇO EM TERRASSINI

A notícia do assassinato só chegou depois da polícia. Não eram agentes regulares. De uniforme negro, armados de metralhadora e protegidos com capacete e colete militar, tinham aspecto ameaçador. Nada disseram, assumiram posições defensivas e controlaram as entradas e saídas do hotel, causando nos hóspedes alguma inquietação pela inusitada ocupação. As atividades do evento internacional … Continue reading ALVOROÇO EM TERRASSINI

ORSAY

Perguntando hoje aos filhos se recordam a visita a um museu cheio de esculturas em Paris, a resposta é vaga. A verdade é que estivemos num monumental salão povoado por esculturas de vários estilos, tamanhos, materiais, proveniências e impactos. E também para todos os gostos. Aproveitando a semana de férias da Páscoa, entre março e … Continue reading ORSAY

O BANDO DOS QUATRO NO GRANDE SUL

Este texto não se refere a um mal afamado grupo de pistoleiros nem faz eco de turbulências no império amarelo. É mais terra a terra e aborda a última grande aventura familiar com os quatro elementos, a viagem à Antártida. Outras houve depois, mas mais nenhuma com todos. Contrariamente às anteriores, nesta viagem não escolhemos … Continue reading O BANDO DOS QUATRO NO GRANDE SUL

O MUSEU DA MEMÓRIA

Pacientemente, a família desfilou diante dos meus olhos um conjunto de objectos que fui acumulando ao longo de décadas, e que estavam a monte no sótão, fazendo parte daquilo que comecei a denominar, em tom de brincadeira, o “meu museu”. Não sei de quem partiu a ideia do desfile, mas foi o presente especial que … Continue reading O MUSEU DA MEMÓRIA

“BICARMONATO DE PONTÁSSIO”

A paisagem corria rapidamente pela janela do comboio quando a frase surgiu: ali, estão a ver bicarmonato de pontássio. Assim mesmo, não é erro de ortografia. E, perante a expressão inquisitiva dos interlocutores, repetiu:  bicarmonato de pontássio. Lá fora, o Tejo corria também, mais as verdes margens, o casario branco e a ponte metálica de … Continue reading “BICARMONATO DE PONTÁSSIO”

ENSOPADA NO PARQUE

Ensopado de galinha é distinto, e muito, de galinha ensopada. E a prova estava diante dos nossos olhos. O pobre galináceo, totalmente mergulhado na água fria do rio, ensopado, nunca mais daria para um ensopado. As duas jovens, pegando-lhe pelas pontas das asas com as pontas dos dedos, retiraram  o afogado da água, e depositaram-no … Continue reading ENSOPADA NO PARQUE

NI NORUEGA

O barulho cavo e metálico, repetido interminavelmente, era uma tortura. E eu não sabia de onde provinha. Deitado num banco estreito da biblioteca, envolvido no saco-cama, dava voltas e mais voltas sem repousar. O som sem explicação não me deixava  dormir, e, a bem da verdade, a improvisada cama, oscilante e desconfortável,  também não ajudava.  … Continue reading NI NORUEGA

O COMETA DE PARIS

Horas mortas, o céu escuro, todos os passageiros com Morfeu, e, lá fora, a luz brilhante a acompanhar-nos. Ao longo de tantos quilómetros de estrada, virada a oeste, parecia mover-se à mesma velocidade que nós, uma curiosa ilusão comum a todos os objectos distantes. A certa altura, encostei a viatura e fiz uma fotografia ao … Continue reading O COMETA DE PARIS

PERIGO NA CANIÇADA

A viatura saltou numa cova, inclinou-se perigosamente para a direita, e imobilizou-se com duas rodas fora do estreito caminho rural, rodando livres sobre a encosta de declive acentuado que só terminava na água, uns cinquenta metros mais abaixo. Um pouco menos de sorte e teria rebolado tudo para dentro da albufeira, o carro, as pessoas … Continue reading PERIGO NA CANIÇADA

ROCK NA GARAGEM

Meia dúzia de mirones observavam um galaró que cantava como se estivesse ligado à corrente. A música ouvia-se bem ainda antes de entrarmos naquele espaço exíguo, mas, uma vez lá dentro, fui atropelado pelo som hiperbólico. A pequena garagem estava atulhada com instrumentos musicais, amplificadores, cartazes, e ainda nós, a parca assistência. O cantor exuberante, … Continue reading ROCK NA GARAGEM

DIA DE BANHO

A senhoria só deixava usar o chuveiro com o esquentador ligado três vezes por semana. Era um contratempo desagradável, a juntar ao bafio, à cama rangente e ao colchão velho. Por mais conveniente que a localização fosse, no número dois da rua do Almada, a escassos cinco minutos da faculdade, não fiquei naquele quarto mais … Continue reading DIA DE BANHO

FILA PARA A PISTOLA

A longa fila conduzia o pessoal, rapidamente e sem conversas, a um furgão estacionado na sombra, à frente do qual um homem usava repetidamente uma grande pistola. A situação era assustadora, pelas dimensões e pelo formato estranho da “arma”, que era mesmo especial. Apesar do susto, todos passavam pelo homem e, após breve paragem, continuavam … Continue reading FILA PARA A PISTOLA

A CULPA FOI DAS CEBOLAS

De repente, os céus despejaram um aguaceiro frio na desabrigada praia, obrigando os foliões a amontoarem-se como pinguins debaixo do toldo empoleirado em paus e pagaias. De prato quente pousado nos joelhos, protegidos pela toalha, colher numa mão e caneca de esmalte na outra, terminei a refeição. Os pés não cabiam debaixo do abrigo e … Continue reading A CULPA FOI DAS CEBOLAS

CAÍDO NA AUTO-ESTRADA

Ouvimos um barulho forte no tejadilho do Land Rover, e tomei consciência do acidente grave que tinha ocorrido naquele instante. Olhei pelo retrovisor e confirmei a presença de uma massa caída na faixa de rodagem da auto-estrada. Estava noite bem escura, e só era visível à contraluz dos carros que vinham ao longe.  Parei imediatamente, … Continue reading CAÍDO NA AUTO-ESTRADA

VACARIA DAS ANTAS

As duas vacas malhadas viviam na cidade. Moravam paredes meias, se assim se pode afirmar, com uma das zonas chiques do Porto, a antiga praça Velasquez. No final dos anos oitenta e início dos noventa do passado século, a vista do nosso terraço virado a Nordeste era ampla de horizontes e diversificada. Desde a Serra … Continue reading VACARIA DAS ANTAS

O MUNDO PARA OS FILHOS

Levámos as crianças à Eurodisney. Adoraram. Diversão familiar garantida, não foi mais do que um dos muitos passos que demos com ele e ela, para conhecimento do mundo que nos permite a vida. Procurámos sempre, na medida do possível, proporcionar aos filhos as mais variadas experiências, no sentido de completar a educação formal. E fizemo-lo … Continue reading O MUNDO PARA OS FILHOS

BILHETE DE CÃO

"Sim, mas tem de comprar bilhete para o cão.” Foi assim que o caixa me disse, quando perguntei se podíamos levar a Maia*, que estava na trela. Admirado, pois poderia ter ouvido mal, repeti inquisitivo: bilhete de cão!? Tive de comprar também o tal “meio bilhete”, que era válido tanto para crianças como para animais. … Continue reading BILHETE DE CÃO

SÃO SÓ ESTES?

As duas furgonetas blindadas chegaram de repente, e de dentro saltaram os polícias antimotim, tomando posição envolvente de modo intimidatório. Ao ver a faixa de pano e a dúzia de manifestantes que a seguravam, ficaram mais calmos. O graduado dirigiu-se lentamente para nós, acompanhado pelo subalterno que, visivelmente irritado, fazia alguns comentários. Só ouvi o … Continue reading SÃO SÓ ESTES?

TODOS VESTIDOS NO RIO

A família entrou completamente vestida no rio de água cristalina, ficando todos com água pela cintura. Depois de habituados à água fria, rodearam o pedregulho de metro e meio e agacharam-se em torno dele, ficando só com a cabeça de fora. Apalparam o fundo, como se estivessem à procura de alguma coisa, falando baixo entre … Continue reading TODOS VESTIDOS NO RIO

OS PÉS DESCALÇOS

Os pés de quem andou descalço toda a vida são diferentes. Vi deles um número suficientemente elevado para não mais me esquecer. Os dos jovens e das crianças ainda não calcorrearam suficientes caminhos para que se note, são mais ou menos perfeitos, como vieram ao mundo. Já os pés dos velhos contam outra história, e … Continue reading OS PÉS DESCALÇOS

A FACA DO BACALHAU

O homem pegou no queijinho, bateu com ele no balcão e fez um sorriso maroto, acentuando o som, parecia feito por uma pedra. Depois, dirigiu-se para a extremidade da bancada, levantou a faca do bacalhau, passou-lhe um pano e zás, guilhotinou repetidamente o pequeno queijo. Dispôs as resultantes tirinhas amareladas numa fatia de pão escuro, … Continue reading A FACA DO BACALHAU

BANHEIRA DE URSO

A subida pela encosta da serra tinha começado suavemente, na ruela estreita entre casas de pedra e grandes espigueiros quadrangulares de madeira escura. Mais adiante, o caminho cimentado da aldeia deu lugar a um empedrado já muito polido, ladeado por muros antigos e musgosos e coberto por um espectacular dossel arbóreo de padreiros, já amarelados. … Continue reading BANHEIRA DE URSO

MAGIRUS

Seria ilusão derivada do conhecimento dos factos? O horizonte dava a sensação de se curvar ligeiramente, mas não tive a calma suficiente para fazer a verificação, porque o suporte onde eu estava empoleirado oscilava demais para que me sentisse minimamente confortável. Dei uma rápida vista de olhos à paisagem da ria, com planos de água … Continue reading MAGIRUS

AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES

O que amêijoas gordas, figos maduros e grades de cerveja têm em comum? Aparentemente nada, mas, nas minhas memórias têm tudo. São protagonistas de uma semana de aventuras interligadas, para lá do limite razoável. No momento, não levantaram questões éticas mais fortes do que o sentido de pertença ao grupo de jovens, levemente irresponsáveis, e … Continue reading AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES

PENSÃO COM VISTA PARA O MAR

Dormir no chão de pedra nua, com o vento a circular livremente no cubículo, janelas sem molduras, há muito carcomidas pelo mar, um bruaá continuado das ondas a espremer-se nas reentrâncias das rochas em volta, era a melhor definição de desconforto. No entanto, constituiu uma experiência única. Pior dormida só na noite passada debaixo da … Continue reading PENSÃO COM VISTA PARA O MAR

PEDRADAS NA ÁGUA

Os peixes eram tanto deles como eram meus. Eu só queria vê-los, eles queriam pescá-los. De cada vez que vinha à superfície para respirar, os pescadores empoleirados na falésia deixavam cair um conjunto de impropérios. Depois, começaram a atirar-me argumentos mais pesados: pedras de vários tamanhos. Afinal, eu “estava a assustar” os peixes que eles … Continue reading PEDRADAS NA ÁGUA

AGONIA AO PORTÃO

O que há de comum entre dois recintos abandonados, um em Cabo Verde e outro nos arredores de Berlim? São os dois locais do planeta onde me senti verdadeiramente agoniado. Uma sensação de enjoo, instalando-se lentamente, foi crescendo dentro de mim até se tornar insuportável. Disse que já bastava. Não queria ver mais nada, só … Continue reading AGONIA AO PORTÃO

TUTTI ITALIANI MAFIOSI…

Com um sorriso trocista, manhoso até, o empregado de mesa encolheu os ombros enquanto saboreava o espanto nas nossas caras. Tinha acabado de dizer, dentes arreganhados: “Tutti italiani mafiosi…” Isto, depois de apontar com o indicador umas letrinhas impressas nas toalhas de papel onde pousavam os pratos vazios da refeição terminada. Mais coisa menos coisa, … Continue reading TUTTI ITALIANI MAFIOSI…

QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO?

Ali estava eu, no meio de tantos outros, todos sentados a assistir pacificamente à movimentação dos jogadores, numa coreografia que não compreendia. Os vizinhos meteram conversa, queriam saber se eu estava a gostar. Tinham-me topado. Obviamente, pelo menos para eles, eu não fazia parte do estereótipo que abundava em redor. Não me contive, confessei a … Continue reading QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO?

QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS

Na Serra da Leba, na Serra de Valongo, na Serra Amarela e no meio da cidade, quatro Amigos do Homem pregaram-se-me na memória. Tiveram sortes distintas. Melhor dizendo, tiveram sortes de cão, que é uma expressão com sentidos opostos em função do contexto. E aqui também. O primeiro morreu instantaneamente. Nem sei que cor tinha, … Continue reading QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS

PONTO ESCURO EM FUNDO CLARO

Nada se via na neve branca até surgir um ponto escuro ao longe. À medida que se aproximava o ponto ganhou pernas, cabeça e braços, movimentando-se ritmadamente. Depois ficaram nítidos os óculos escuros, os skis, as luvas e os bastões. Só muito de perto pude constatar que era entradote, aparentando 80 ou mais, cara muito … Continue reading PONTO ESCURO EM FUNDO CLARO

HÁKARL & ETC.

“Paulinho onde estás? Vem almoçar!” Entretanto, a Mãe chegou à nossa beira. “O minino já comeu.” Assim respondeu a senhora que partilhara comigo a sua refeição, sentados ambos no coradouro da roupa, um grande canteiro só com hortelã. E o que tinha comido? Pirão duro de farinha grosseira de milho amarelo e carapau assado. Mas … Continue reading HÁKARL & ETC.

DUNA 45

Silêncio. Sol. Sombras ramificadas projectadas no solo, ramos negros recortando o céu muito azul, quase cobalto, em contraste com a imensidão avermelhada que ocupa o horizonte em frente. Dunas. Uma delas, enorme, de curvas suaves, parece mover-se muito lentamente. Pura ilusão. Move-se, sim, mas tão devagar ao longo dos anos que o olhar não conseguiria … Continue reading DUNA 45

TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?

Troar, ribombar, retumbar? Não sei que palavra usar para descrever o som poderoso que nos faz vibrar o peito, qual caixa de ressonância de um instrumento emudecido, sem palavras. Sem falar, pelas emoções no máximo. Perfeitamente compreensível, já que estava na beira de um fenómeno da natureza impressionante. Pelo som, sim, mas também pelas dimensões, … Continue reading TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?

49 METROS ABAIXO DO NÍVEL DO MAR

Libertando-se repetidamente do solo, estalidos metálicos, suaves, quase imperceptíveis. O som vinha de todas as direcções e acentuava-se quando as nuvens se afastavam e deixavam o sol aquecer aquela extensa planície. O piso muito irregular impedia caminhar, era com altos e baixos de lama seca, endurecida por grande quantidade de brilhantes e minúsculos cristais de … Continue reading 49 METROS ABAIXO DO NÍVEL DO MAR

O VCR DE CONTRABANDO

Sem capacete, à boleia de um motociclista benemérito, a viagem de regresso a Saragoça foi penosa. A canela a queimar no escape, o pesado saco de cabedal a doer, pendurado ora num braço ora no outro,  a estrada que nunca mais acabava…  Depois de algumas horas naquela terra que é um grande centro comercial, tinha … Continue reading O VCR DE CONTRABANDO

CAVEIRA DE CRISTAL

Uma caveira esculpida em tamanho real num grande cristal de quartzo, atribuída aos astecas ou aos maias (1), cabeças encolhidas de vítimas de tribos amazónicas, múmias Incas, clépsidras e tantos outros mecanismos para medição do tempo, armas e armaduras, instrumentos musicais e de navegação, autómatos pioneiros, ferramentas, maquinaria diversa e ainda estranhos aparelhos antigos, um … Continue reading CAVEIRA DE CRISTAL

HOTEL AEROPORTO

No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO

SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!

Vemos as copas das árvores passando rapidamente a poucos metros de nós. Ao longe, em frente, a neve cobre o topo dos montes. Subitamente, um som abafado de surpresa escapa-se das bocas, mãos agarram-se instintivamente. Falta-nos o solo! Estava ali mesmo e num segundo fugiu. Está agora mil metros lá para baixo. Estreita fita prateada, … Continue reading SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!

OS LOBINHOS 

Os dois adultos afastaram-se receosos e pudémos aproximar-nos do seu covil, devo confessar que não de modo totalmente confiante. Era um abrigo tosco com 2 lobinhos, bolinhas de pêlo fofo, olhos cinzentos e patas robustas. “Podem pegar neles, se quiserem.“ Quisémos. Ganiam levemente e cheiravam mal, mas mesmo muito mal, a carne em decomposição. Nunca … Continue reading OS LOBINHOS 

JÁ NÃO SE VÊ DISTO

O vendedor percorreu um a um o dicionário de adjectivos, mas só os bons. Primeiro descreveu as qualidades do animal, “admirável” e outros epítetos, depois as do produto, “melhor não encontram”, no mínimo… Chapéu na cabeça, numa mão o microfone, na outra uma varinha, falava do alto de um estrado. A pequena multidão, atraída pelo … Continue reading JÁ NÃO SE VÊ DISTO

NA TENDA

A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual. A ave levantou-se e … Continue reading NA TENDA

NUNCA MAIS!

Cheira mal! Muito mal mesmo, um odor de refinaria, corrosivo, enjoativo... Estamos longe e chega até nós, intenso. Lá ao fundo, duas ou três dezenas de vultos brancos movimentam-se coordenadamente, como num formigueiro. Aproximando-nos até às barreiras, vemos melhor e, afinal, não são bem brancos. Os fatos integrais são alvos, sim, mas estão manchadas de … Continue reading NUNCA MAIS!

AO DESCER O RIO LIMA

Não era uma azenha abandonada. Construção robusta, lages bem encaixadas umas nas outras, aparentava vários séculos de existência. De formato encurvado, interior vazio, atravessada por água entrando por abertura virada a montante e saindo por uma “porta” para jusante, a estrutura mostrava na face das pedras o desgaste e polimento de incontáveis cheias do rio. … Continue reading AO DESCER O RIO LIMA

PEDRA AMARELA

Um azul que nunca tinha visto. Um azul luminoso, à superfície, mas muito carregado, na zona profunda. Em redor, um manto claro, brilhante, quase branco, cobrindo tudo em forte contraste. Uma névoa muito ténue pairando, saindo devagar, como que avisando subtilmente do calor intenso contido no pequeno lago, enganadoramente da cor que é geralmente sinal … Continue reading PEDRA AMARELA

REMA, REMA!

O bicharoco não estava assustado, podia desaparecer quando quisesse. Parecia, isso sim, que se divertia à nossa custa, afundando aqui e emergindo mais além. De máquina fotográfica na mão, eu olhava em volta e pedia ansioso: está ali, rema, rema, Zé! E o Zé, fazendo-me a vontade, remava. Acabei por fazer dois ou três “slides”(1) … Continue reading REMA, REMA!

PICOS DA EUROPA (*)

Finalmente uma visita de estudo a um parque estrangeiro! Ambicionada há muito, conseguiu-se reunir um grupo de associados e amigos da Natureza para uma aventura de quatro dias no parque mais antigo de Espanha. No primeiro dia, saímos do Porto com o tradicional atraso. Bastantes horas depois, estávamos em León. A partir daí, a viagem … Continue reading PICOS DA EUROPA (*)

PULMÃO VERDE

Sentia-me completamente isolado no meio da floresta. Caminhava na sombra das grandes árvores, pouca luz atravessava a espessa camada de folhas. Estava quente, daquele calor húmido típico da região, e a passarada cantava um repertório desconhecido para mim enquanto saltava de ramo em ramo. Solo enlameado, cheiro ácido a matéria orgânica, a marca bem visível … Continue reading PULMÃO VERDE

AS ÁRVORES DA DISCÓRDIA

O sol ainda não tinha nascido já éramos muitos na serra, ao frio do inverno, e estava longe de imaginar todas as consequências do que estava para acontecer. Antes dos motoristas chegarem às máquinas de rasto, os activistas acorrentaram-se a elas de modo a impedir o seu funcionamento. A população da aldeia juntou-se em redor, … Continue reading AS ÁRVORES DA DISCÓRDIA

CORISTAS VELHAS E MONGES CALADOS

No palco, duas bailarinas sexagenárias balançam-se malandramente, tentando acompanhar a música de jazz que a orquestra de quatro séniores ainda mais serôdios tocam nos seus instrumentos, também estes já muito gastos. A sala envelhecida, com veludos vermelhos, colunas forradas a espelhos e painéis pintados a fingir de mármore, mantém-se inalterada desde a primeira metade do … Continue reading CORISTAS VELHAS E MONGES CALADOS

MÚSICA

O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do  Budokan … Continue reading MÚSICA

GOLFINHOS DE POTÊNCIA

O ambiente é abafado, muito barulhento e mal-cheiroso, quase insuportável. O espaço é apertado e tem entranhado o rasto de mil peúgas e dos respectivos donos, transpirados do trabalho duro. Difícil de imaginar como é possível descansar nestas condições, mas este é um pensamento de quem não está habituado a estas lides. Estou a ver-me … Continue reading GOLFINHOS DE POTÊNCIA

FOTOGRAFIA COM PELOS

Olhava  para nós sem  medo, talvez por se encontrar em posição mais elevada, protegida. Parecia estar isolado, não se via a família. Lentamente encurtámos a distância e, muito próximos, fizemos algumas fotografias, mesmo a tempo, antes dos três saltos rápidos por entre as pedras com que desapareceu silenciosamente. Foi já a meio do regresso ao … Continue reading FOTOGRAFIA COM PELOS

AVES

Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta. Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos … Continue reading AVES

NEANDERTAIS

Desde que ouvi falar deles eu dizia muitas vezes: eles andam aí no meio de nós. À medida que fui lendo as descobertas da genética moderna, que revelam a presença de genes dos Neandertais nas populações humanas actuais, fui confirmando o que sentia e afirmava por brincadeira. O dicionário diz: ne·an·der·tal |niãdèrtál| (Neandertal, topónimo [região … Continue reading NEANDERTAIS

PAREDES AO ALTO

Estou na água. Em redor, a paisagem é esmagadora. Em cada margem levantam-se escarpas a pique com mais de 200 metros de altura. O quase silêncio é intenso, transcendental, apenas o marulhar, um suave pio, a respiração compassada. Lá em cima, bem alto no céu, os abutres a voar. Na água esverdeada uma carpa salta … Continue reading PAREDES AO ALTO

VER A ENCICLOPÉDIA

Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção  chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA

COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO

Pouco depois de entrar no país pela fronteira de Vilar Formoso, era hora de almoço. Restaurante de beira de estrada,  escolher mesa, mandar vir prato do dia, costeletas de porco. E para beber? Venha uma garrafa de Porto! Vinha de França à boleia num camião TIR. Terminadas as vindimas de 1981 na zona de Bordéus, … Continue reading COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO

PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS

Já tinha visto muitas cores em outras ocasiões, mas não tantas, tão brilhantes e vivas como aqui. O sol reflecte-se em múltiplas superfícies e os raios de luz cruzam-se em arco-íris imbricados. Estar assim perto desta maravilha da natureza não estava nos meus planos mais realistas, mas tinha finalmente acontecido. A água tépida dá uma … Continue reading PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS

PRIMEIRA TUMBOA

Agosto de 1975. Finalmente vergados, iniciamos a fuga da guerra. Percorremos  mil quilómetros de estradas perigosas, bandidos e barreiras militares múltiplas, até que as circunstâncias nos fizeram chegar a Moçâmedes. A seguir, foram semanas à espera de transporte seguro para sair do país. O barco para Luanda só chegaria em outubro, um pequeno cargueiro que … Continue reading PRIMEIRA TUMBOA

SEGUNDA VINDIMA

Estava dentro da antiga cavalariça. Lá fora, o céu iluminava-se repetidamente com os relâmpagos da maior trovoada que alguma vez tinha presenciado. Regressei ao beliche da cavalariça (nesta já não havia cavalos) para uma noite bem dormida. Estava na aldeia de Castillon-la-Battaille, assim pomposamente chamada em homenagem a uma batalha que, no século 15, pôs … Continue reading SEGUNDA VINDIMA

TRAMPA DE ALTITUDE

A cinco mil metros de altitude muita coisa tem de ser encarada com alguma relativização.  Por esta razão, alguns factos acabam por se tornar cómicos, quando lembrados com suficiente distanciamento. Vem isto a propósito do mau cheiro e da trampa espalhada pelo chão, uma visão pouco agradável,  é verdade, sobretudo porque não há fuga possível … Continue reading TRAMPA DE ALTITUDE

SOZINHO NUMA ILHA

Difícil andar com tanto, tanto vento. Impossível prosseguir sem ajuda das mãos e com as costas bem curvadas,expondo a menor superfície possível. O chão, muito irregular dos buracos e dos tufos de erva, também não ajuda. A vinte metros, bicos coloridos espreitando por entre o verde intenso que cobre o solo. São papagaios-do-mar e olham-me … Continue reading SOZINHO NUMA ILHA