PELA ESTRADA FORA

O que é que tem de comum um polícia espanhol à paisana, um turista israelita, um carro funerário ou um cacho de uvas moscatel? Aparentemente nada. Contudo, fazem parte de pequenas memórias de quando fiz milhares e milhares de quilómetros de boleia, a solo ou não. O melhor é contar algumas delas, mais  ridículas ou curiosas. Noutras páginas já escrevi sobre os três franceses que acompanharam costeletas de porco com vinho do Porto, ou o episódio da escola itinerante de windsurf. Agora é a vez de outros personagens.

Não vou entrar nas razões, certamente muitas, que levaram a uma alteração nesta prática. O facto é que, ao contrário do que hoje sucede, nos anos 70 e 80 do século passado era bastante comum viajar de boleia. Não era para todos, mas eu rapidamente me converti e, com isso, aprendi muito, mas não vem agora ao caso.

Agosto de 1979. A estrada de Mérida até Sevilha é longa, mas fi-la apenas numa viatura. À saída da antiga cidade romana, apanhei boleia um velho 4L. Estava ainda com as costas doridas de ter dormido pela primeira e última vez por debaixo de uma ponte romana, o sítio mais sossegado que encontrei. Ao longo da viagem a conversa foi muito interessante e o condutor fazia muitas perguntas. Ao fim de algum tempo comecei a achar estranha a lógica das mesmas, como que a tentar apanhar-me em contradição, mas eu nada disse. Chegados a Sevilha ele confidenciou, desejando-me continuação de boa viagem: não leve a mal as perguntas, o meu emprego é detectar terroristas da ETA. Era da polícia política, à paisana.

Novembro de 1980. No final da vindima em Cahors, Toulouse, fomos gastar dinheiro a Andorra, comprando artigos fotográficos e outros que eram muito mais caros em Portugal. Aí comprei a minha primeira máquina fotográfica de jeito, uma Canon At-1. No regresso apanhámos boleia de vários carros pois éramos um grupo numeroso. Calhou-me um carro antigo conduzido por um turista aparentemente normal.  Poucos quilómetros depois da fronteira com a França fomos parados por duas motas da polícia que pediram identificação a todos. Em seguida ordenaram que os acompanhássemos até à esquadra, não me lembro de vila, a cerca de uma hora de estrada. Durante a viagem o turista israelita contou um filme imaginativo. Disse que à chegada ao aeroporto de Paris, tinha sido confundido com um agente secreto e interrogado durante horas, tendo inclusive sido examinado aos dentes, martelados um a um, à procura de alguma coisa antes de o soltar. Agora, ao entrar novamente em França, deveria ter soado novamente o mesmo alarme. Ele antecipava novo interrogatório e nós, sem saber no que acreditar, receávamos o que poderia acontecer connosco. Não sei o que se passou lá dentro porque não se interessaram mais pelos portugueses. Tivemos que esperar bastante tempo no carro até ele sair, sorridente, repetindo a história. Comparado com o sucedido, a restante viagem até Toulouse foi aborrecida.

Outubro de 1981.  Foi talvez a boleia mais estranha de todas, mas não ia a bordo nenhum daqueles solenes caixotes de madeira, como é habitual nestas viaturas, pelo que não houve constrangimentos. à saída da cidade da Guarda em direcção à fronteira com Espanha para mais uma aventura internacional, ninguém parava. Quanto o carro funerário parou eu não queria acreditar, mas aceitei imediatamente. Foi uma viagem curiosa, o motorista era bastante falador e boa companhia. Também já tinha estado emigrado e falamos das oportunidades e que havia lá fora bem como dos problemas de desenraizamento das comunidades. Não foram só estes aspectos que ficaram na memória. Olhando pela janela, via um tipo de paisagem que era completamente novo para mim. Na altura, o meu conhecimento do território continental português era limitado, tendo feito apenas algumas viagens no norte, Lisboa e Algarve. Aqui era seca, quase sem verde, totalmente pedregosa, grandes blocos de granito de um lado e do outro da antiga estrada nacional, a principal via rodoviária de ligação a Europa antes de ser construído o itinerário principal  (IP5), mais recentemente convertido em auto-estrada.

1976-7?. Uma tarde inteira na berma da estrada nacional, perto do cruzamento para Conímbriga. Na mão um cartão com a palavra “Lisboa” feita de muitos traços de esferográfica.  E não pára ninguém. Depois do pôr do sol, já eu magicava no que teria que fazer, apareceu um tractor. Tinha estado a lavrar um terreno ali ao lado e, obviamente, tinha-me visto. O motorista compadeceu-se com a situação e disse “hoje já não vai a lado nenhum, janta lá em casa, dorme, e amanhã vai ser melhor dia para seguir viagem.” Subi para o patim lateral do tractor e lá fomos para uma casita rural que não distava muito dali. Não sei o que comi mas lembro que soube muito bem, a fome já apertava. Também não me lembro bem do que se falou, mas certamente me perguntaram o que eu fazia, para onde queria ir, se andava muitas vezes de boleia e outras trivialidades. Boa gente que muitas vezes encontramos na nossa vida, e que oferecem sem pedir nada em troca. Depois do café com leite e do pão com manteiga, agradeci, despedi-me e caminhei para a estrada, exactamente para o mesmo local onde tinha estado no dia anterior. O primeiro carro que apareceu parou e levou-me até Lisboa.

1976-7? Estava à saída da Ponte 25 de abril com um cartão na mão a dizer “ALGARVE”. Passaram muitos carros e nada. Algum tempo depois um carro pára a cerca de 50 metros, sai um passageiro, tira a mochila e mostra um cartão com os mesmos dizeres do meu. Esperamos e nada. Passado algum tempo uma cena improvável. Uma velhota de cabelos brancos num Citroen 2 cavalos pára à minha beira e diz: só vou até Palmela, serve? Eu aproveito e digo que sim, mas a senhora diz-me ainda “não se importa de perguntar se aquele também quer ir? Posso levar os dois”. Ele quis. A senhora deveria ter um sexto sentido que lhe disse  sermos boas pessoas, pois ofereceu boleia a dois desconhecidos ao mesmo tempo, dois viajantes mal vestidos que podiam assaltá-la com facilidade. Ou então era muito esperta e levou duas pessoas esperando que uma delas a pudesse defender em caso de problema. A viagem até Palmela foi acompanhada de boa conversa. Acontece que ela era dona de uma herdade, onde parámos a dada altura, tinha que deixar uma mensagem ao pessoal. Quando nos largou para a etapa seguinte, ofereceu-nos uma caixa com uvas moscatel, uma boa refeição enquanto esperávamos por nova boleia. Esta não tardou muito. Um inglês levou-nos aos dois directamente ao Algarve e ainda nos deu pizza ao jantar. Felizmente não falta gente boa neste mundo.

1982. As duas catraias viram-nos na berma da estrada, polegar levantado, numa terra qualquer no meio da França. Pararam e deram-nos boleia, afinal éramos um casal de aspecto simpático. Primeiro foi conversa de circunstância, depois fizeram perguntas indiscretas e acabaram por fazer um convite íntimo que ignorámos, fazendo-nos desentendidos. Desagradadas, imediatamente pararam e abandonaram-nos numa estrada secundária ou terciária, só com campos agrícolas. A minha companheira espumava de raiva: “bem me parecia que eram malucas!” Estávamos em risco de ter que andar muitos quilómetros até um local com trânsito. Começámos a caminhar mas, depois do azar, veio a sorte. O único veículo que passou, parou e levou-nos até Bordéus. Era uma carrinha de transporte de leite, mas que não o levava. O condutor, lavrador muito simpático, ainda nos presenteou com um saco de maçãs e duas garrafas de vinho. Mas tínhamos as mochilas tão carregadas, tão pesadas, que tivemos de despachar  as ofertas. Não foi difícil.

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