Meia dúzia de mirones observavam um galaró que cantava como se estivesse ligado à corrente. A música ouvia-se bem ainda antes de entrarmos naquele espaço exíguo, mas, uma vez lá dentro, fui atropelado pelo som hiperbólico. A pequena garagem estava atulhada com instrumentos musicais, amplificadores, cartazes, e ainda nós, a parca assistência. O cantor exuberante, estrela regional na década de 70 do século passado, tinha um círculo de fiéis admiradores, e foi um deles que me falou do ensaio. Com a curiosidade despertada, fui com o H conhecer o artista, lá para os lados do bairro do Viso. Ou seria em Ramalde?
O Garcez, mesmo sem audiência, ensaiava a pose arrogante de mãos no cinto, pernas arqueadas, nariz empinado e peito feito. Naquele tempo em que eu não frequentava concertos de rock, e não havia MTV, nem os sucedâneos que hoje estão disponíveis 24 horas por dia, as minhas referências eram sonoras e fotográficas. Por essas razões, foi mesmo novidade para mim. Só mais tarde reconheci o estilo, ao ver o verdadeiro “Alfredo Mercúrio” na televisão, no memorável concerto “A night at the opera”.
O homem não estava satisfeito com o resultado. Parando muitas vezes, dizia: “A batida não está bem!” Ou então: “O som está uma merda!” Usando e abusando do vernáculo tripeiro, moía o juízo aos companheiros, e não havia canção que chegasse ao fim, todas tinham defeitos. Ele também não estava “em dia sim”, e a voz não combinava bem com o trabalho esforçado da banda, uma das muitas com as quais a quezilenta estrela tinha tentado deixar obra que se ouvisse. Vim embora desiludido. Afinal, não tinha sido o concerto de borla que estava nas minhas expectativas. De qualquer modo, o estilo das canções, exacerbado, ácido e áspero, não gozava das minhas preferências musicais.
Várias vezes relatei este episódio aos amigos, de forma abreviada, quando vinha à baila o tema da expansão musical na nossa juventude, com muitas bandas efémeras e com artistas que vingaram até ao presente. Recentemente, li no jornal que este dinossáurio regressou ao país, e que vai lançar música nova. Foi então que resolvi contar a história com mais detalhes.
Lembro-me muitas vezes daquele ensaio, e pergunto-me como é que o “cromo”, espartilhado em calçado de bico aflito e jeans extremamente justas, ostentava voz tão forte e grave. Mistérios.