CORES DO FIM DO MUNDO

Quase tudo é branco. Mas o branco não é todo igual. Há brancos  brilhantes em volta, e brancos acinzentados, como o céu, carregado de nuvens baixas. Vão caindo flocos de neve e o vento gelado assobia forte nas orelhas, protegidas por um gorro e  ainda pelo carapuço. De onde em onde aparece a segunda cor. Negro escuro de rochas molhadas a espreitar da neve que cobre quase tudo. Finalmente, para quebrar a bicromia da paisagem onde tudo está estático, aparece uma terceira cor, em movimento. São pezinhos descalços que passam à minha frente. Os respectivos donos, alguns a menos de dez metros, nem dão a entender se se apercebem da nossa presença, e são também brancos e pretos, com excepção das patas, claro está. São pinguins!

O nevoeiro começa a levantar e as cores dos edifícios abandonados que se vêm mais adiante começam a aparecer, madeira apodrecida e grandes tanques ferrugentos. Atrás, o mar cinzento-escuro coberto de “carneiros” devido ao vento forte.

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Deception Island. CC0cc1Paulo Santos

Estamos em Deception Island,  junto ao grande continente gelado que é a Antártida. A ilha já foi porto de abrigo  para caçadores de focas, no século 19, mas a quase extinção das mesmas na região levou ao abandono da Ilha. Mais tarde, tornou-se uma estação de recolha e processamento de carcaças de baleias, caçadas ao largo, e os grandes depósitos metálicos serviam para armazenar o óleo. A redução de baleias foi de tal modo que acabaram os lucros e tanto a exploração como as instalações foram abandonadas nos anos 30 do século 20.

Foram também constituídas várias estações científicas, mas quase todas acabaram também por ser abandonadas em 1969, na sequência de uma erupção. Sim, a ilha é um grande vulcão que chega à superfície do mar. Uma explosão antiga desmoronou parte da parede do cone vulcânico, e o que ficou, visto de cima, parece uma grande ferradura. Como os barcos podem entrar, constitui um porto de abrigo natural, afinal a razão da ilha ser utilizada desde o século 19.

Hoje é um lugar fantasmagórico, a lembrar hábitos antigos, quando a necessidade de matérias-primas diversas justificava a quase completa eliminação de espécies que hoje começam a recuperar, mercê da regulamentação imposta pela ONU. Talvez esta situação derive de uma maior consciencialização da opinião pública e de quem governa. A realidade, contudo, é muito mais complexa e enganadora. A história repete-se hoje com outras espécies menos favorecidas pelas empatias públicas.

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Pinguim Pygoscelis papua CC0cc1Paulo Santos 

No dia seguinte desembarcamos finalmente na Península Antártica, a parte mais setentrional do continente gelado. O fim do mundo mais despovoado do planeta.

Dia lindo, sem vento, o sol brilha, aparecem os azuis no céu, no mar, e até nos corvos-marinhos-de-olho-azul (Leucocarbo bransfieldensis). Mas o azul mais bonito que alguma vez vi está na base dos icebergs que nos rodeiam e nos glaciares que os libertam. Dizem as leis da física que a fortíssima compactação do gelo, durante milhares de anos, pelo peso da neve que se vai acumulando por cima, elimina as bolhas de ar que dão a cor branca que costumamos ver. O resultado é uma massa compacta de H2O, sem bolhinhas, e que refracta a luz de uma forma tão bela que até a explicação científica parece poesia.

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Iceberg. CC0cc1Paulo Santos

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