VELHA COM GALINHA AO COLO

Sim, velha com galinha ao colo. Parece o título de um quadro antigo, talvez uma pintura flamenga. Mas não é um quadro, está viva ao meu lado. É mesmo uma velha, e bem velha. Enrugada, vestida toda de preto, lenço a cobrir a cabeça e tudo. Sentada muito direita, tem uma gaiola de verga pousada no colo. Dentro está uma galinha. De verdade, e até cheira, mas não muito.

E depois? Onde está a novidade, dir-me-ão. As cenas campestres não são assim tão invulgares, mesmo nos dias de hoje. Sim, é verdade, mas estamos sentados dentro de um avião!

É um voo da Companhia regional de Creta, entre Atenas e Iraklio. Não foi há muito tempo, foi em 1999, um ano antes deste milénio, mas tudo constituiu uma surpresa. De facto, apesar de ser uma carreira aérea, todo o aspecto, movimento e organização eram semelhantes aos de um autocarro suburbano. As paredes e portas dos compartimentos de bagagens estão bem untadas de gordura, e há muito que a cor branca foi substituída por um cinzento amarelado de sebo. Dos assentos é melhor nem falar. Em boa parte das janelas falta a moldura e a pala de tapar a luz.

Essa viagem constituiu uma lição de vida, não só pelos aspectos culturais, mas também pela aprendizagem de um modo de vida muito diferente do nosso. Sendo um país pobre como Portugal, a Grécia tinha costumes e estruturas que não havia cá. Os transportes aéreos de e para as muitas ilhas eram a custo reduzido. Daí o autocarro voador em que tinha chegado a Creta. Tinham também adoptado alguns métodos que eu desconhecia para lidar com os governos sempre de orçamentos débeis. Por exemplo, nessa altura, a maior parte das casas rurais ou suburbanas não tinham telhado de telha mas um terraço com colunas ao alto, deixando ver o ferro do cimento armado. Esteticamente pavoroso. Na verdade, a casa permanecia indefinidamente inacabada para não pagar imposto. Brilhante!

Mas o que me marcou mais foi ver ao vivo os monumentos antigos cujas imagens conhecia dos livros de história. Testemunhos de uma civilização milenar que fazia parte de um imaginário de Juventude, feita a ler também os livros de aventuras do Ulisses e outros que tais.

As ruínas do Palácio de Cnossos foram um misto de admiração e desapontamento. A admiração veio de conseguir ver os pequenos detalhes da arte antiga e as soluções engenhosas da arquitectura antiga. O desapontamento chegou não só pela falta de limpeza mas, sobretudo, pelas dimensões inferiores ao que esperava, formatado pelas ideias preconcebidas da juventude. E as fotografias dos livros eram tão bonitas e diferentes do que aqui se via…

Dias depois, tive exactamente a mesma sensação ao visitar Atenas e o Partenon, afinal menor que o esperado, sujo, fragmentado, colunas tombadas ou amparadas por barras ferrugentas. Os mitos também se desfazem…

Deixe um comentário