PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS

Já tinha visto muitas cores em outras ocasiões, mas não tantas, tão brilhantes e vivas como aqui. O sol reflecte-se em múltiplas superfícies e os raios de luz cruzam-se em arco-íris imbricados. Estar assim perto desta maravilha da natureza não estava nos meus planos mais realistas, mas tinha finalmente acontecido. A água tépida dá uma sensação de não estarmos fora do nosso ambiente, como de facto estamos, mas integrados nele. Milhares de bolhinhas de ar libertam-se e correm para a superfície enquanto ouço a minha respiração, pausada e sibilante. Palhaços, cirurgiões, papagaios e anjos estão à distância de um braço. Passa um grande balão e depois um enorme napoleão. Todos eles são peixes. Nuvens de pequenos outros que não consigo identificar rodopiam em volta dos corais. A clássica cena do peixe-palhaço a esconder-se nos tentáculos está mesmo à minha frente mas não é só um, são muitos, tantas as anémonas à disposição. Os peixes-papagaio roem os corais com a forte dentadura, cada bicada perfeitamente audível. Os pequenos grãos que daí resultam irão, mais tarde ou mais cedo, acumular-se numa das praias da região. As formas e texturas tão diversas dos corais, uns  esféricos, outros ramificados, outros achatados, uns aveludados, outros cortantes como lâminas, uns maleáveis e outros rígidos, uns com superfície uniforme e outros completamente esburacados, todos diferentes, grandes e pequenos, incontáveis e tão belos. Não há modo que adjectivar que não pareça parolo, tal é o deslumbramento…

A grande Barreira de Coral é um fenómeno natural único que se estende por mais de 3000 quilómetros ao largo  da Costa australiana. Segundo a Unesco, contém o maior conjunto de recifes de coral do mundo, com 400 tipos de coral, abrigando   enorme diversidade de outros organismos como vários milhares de espécies de peixes, de moluscos e de crustáceos.

Contudo, desde a colonização pelos europeus, a pesca nos recifes, a mineração e remoção de corais, a recolha de conchas, a criação de canais de acesso, as instalações e operações militares causaram impactos negativos e degradaram alguns recifes de corais. Como resultado, estes estavam longe do que já tinham sido, ou seja, pristinos, intocados, aquando da formação do Parque Marinho da Grande Barreira de Corais, em 1975. Mas também a remoção de guano de muitas ilhas, a destruição da vegetação e fauna nativas, a introdução de espécies exóticas e a captura de dugongos e tartarugas tiveram efeitos cumulativos. Por isso, quer a criação do Parque  quer a qualificação como Património da Humanidade, em 1981, contribuíram para reduzir a sua a alteração e destruição.

No entanto, a continuidade da pesca ilegal e excessiva, da  poluição que provém das explorações mineiras em terra firme e o branqueamento dos corais, que parece derivar de alterações térmicas e químicas no mar, constituem ameaças para as quais até agora não foram encontradas soluções.

É um facto que nunca mais vou mergulhar na Grande Barreira de Coral, mas as imagens continuam brilhantes na minha memória e espero que, daqui a muitos anos, outros se possam maravilhar como me aconteceu. Significará que, afinal, foi possível encontrar as soluções e colocá-las em prática.

nemos e anemona

Peixe-palhaço na sua anémona. CC0cc1Paulo Santos

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