Uma das cenas mais inebriantes de toda a vida aconteceu quando tive a sensação maravilhosa de voar dentro da água. Foi quando fiz o exame de mar, a etapa final do curso de mergulho com escafandro autónomo. Depois de três meses de treinos em piscina e de abundantes aulas teóricas e práticas, chegara a altura de saber se conseguiríamos usar o que tínhamos aprendido. Estar à vontade debaixo de água, respirar pelo tubo que fornece o ar de que necessitamos, controlar os movimentos do corpo, ajustar a profundidade, comunicar por gestos padronizados, apreciar a aventura e regressar em segurança à superfície, afinal o objectivo do curso.
Em Sesimbra, no dia marcado, um barquito alugado pela organização levou-nos ao ponto predefinido. Fatos enfiados, garrafas presas, reguladores de ar aprontados, máscaras bem ensalivadas, gestos ensaiados, estávamos prontos. Seguindo as indicações, fomos um a um para a água e, à ordem do instrutor, mergulhámos.
De um momento para o outro, cabeça para baixo, fui descendo suavemente em espiral, braços abertos, numa indescritível e completamente inesperada sensação de estar a voar, uma águia a pairar, o fundo a tornar-se mais nítido, meia dúzia de sargos a fugir. A água um pouco turva, o céu nublado a roubar as cores e a pobreza da fauna do fundo não chegaram para diminuir a experiência.
O curso foi importante pois permitiu que eu acedesse, em muitos lugares, a paisagens subaquáticas espectaculares. Foi assim em vários locais do Atlântico, na costa de Portugal Continental, desde Viana ao Algarve, passando pela Berlenga, mas também na Madeira, e em várias ilhas dos Açores. Tive também a oportunidade de mergulhar do outro lado do Atlântico, na Florida, no Mediterrâneo, em Maiorca, mas também no Mar Vermelho, em Israel, e ainda no Pacífico, no Hawaii e na Austrália, na grande Barreira de Coral.


Paulo Santos Em todos estes pontos vivi intensamente a biodiversidade e a configuração do ecossistema, deixando-me levar pela corrente ou passando debaixo de arcos de lava, espreitando em grutas ou vagueando por florestas de algas, percorrendo extensos fundos arenosos ou altas paredes verticais a desaparecer no fundo escuro. Senti desde as geladas águas do norte às temperaturas tropicais. Vi desde os vermes-de-fogo açorianos às estrelas-do-mar-girassol, com 24 braços, no Hawaii e ao peixe-dragão no Golfo de Aqba, todos estes bem venenosos. Desde pequenas rochas emergindo da areia, exibindo apenas duas ou três coloridas esponjas e algumas algas, até à profusão de espécies do recife de coral australiano. Desde tubarões em Miami aos meros nos nossos arquipélagos atlânticos. Desde os grandes mexilhões-leque e às enormes ostras gigantes em Maiorca a nuvens de minúsculos camarões no John Brewer Reef… Ah! Não posso deixar de referir o famoso Humuhumunukunukuapua`a!


Paulo Santos Ficaria aqui a lembrar tantos outros, um sem fim de seres vivos maravilhosos em liberdade. Contudo, merece especial destaque, pelo paralelo com o meu primeiro mergulho no mar, a cena que que presenciei no mergulho nocturno que fiz no Hawaii. Aí vi as jamantas a “voar” numa dança que faziam à luz das lanternas. Rebolando sucessivamente, batendo as grandes barbatanas como se fossem asas, parecia mesmo que estavam a divertir-se.
O mergulho deu-me memórias magníficas, e só tenho pena de ter começado tão tarde.
Manta alfredi. 
Paulo Santos