Os peixes eram tanto deles como eram meus. Eu só queria vê-los, eles queriam pescá-los. De cada vez que vinha à superfície para respirar, os pescadores empoleirados na falésia deixavam cair um conjunto de impropérios. Depois, começaram a atirar-me argumentos mais pesados: pedras de vários tamanhos. Afinal, eu “estava a assustar” os peixes que eles queriam pescar. Pelo menos, foi essa a mensagem que consegui extrair das invectivações que aquelas criaturas, supostamente a passar descontraidamente o tempo, dando banho ao isco, me enviaram de forma tão assertiva, e acompanhada de punhos levantados.
Naquele tempo, sem contar com a descida nem com o regresso à superfície, eu aguentava mais de um minuto sentado no fundo a meia dúzia de metros de profundidade, com o coração a bater devagar, como se estivesse a meditar. Os primeiros mergulhos eram exploratórios, um olho na escala de profundidade e outro no ponteiro dos segundos, a calibrar esforço e respiração. Depois era desfrutar. Ficava a ver os cardumes passar, e um ou outro peixe graúdo a caçar os mais pequenos. E sargos a raspar as algas das rochas, e salmonetes a revolver a areia em busca de pequeninos crustáceos. Os sons que chegavam de barcos distantes e da areia a enrolar com a rebentação das ondas, tudo era calmante.
Era mesmo um sítio bonito, lá para os lados de Lagos, no Algarve. Águas transparentes, fundo de areia com muitas rochas e abundante fauna aquática, o lugar adequado para praticar mergulho em apneia (sem botija de ar), uma actividade que tinha aprendido recentemente.
A contragosto, tive de sair dali, antes que eles desfizessem a falésia. Longe da parede de rocha o fundo era menos interessante, monótono, mas muito mais seguro.
Pescadores e pastores, entre outros, usam o que é de todos e julgam-se proprietários dos recursos naturais que exploram em benefício próprio. Em boa verdade, a situação é distinta da sua percepção. Nem os peixes têm dono, são selvagens e livres, nem a erva do monte o tem, no caso dos terrenos baldios, propriedade do Estado, portanto de todos nós, e onde múltiplos rebanhos engordam.
De tal modo estes senhores se sentem os donos do que não é deles, que pensam ser legítimo barrar o acesso às suas zonas de actividade a outros utilizadores. Estou a pensar nesta memória, passada com amadores, mas também na forte resistência de pescadores profissionais à instalação de geradores eólicos no mar, ou de plataformas para cultura de algas, úteis para todos. O caso de muitos criadores de gado nas nossas serras é também de apontar, pois levam no seu currículo décadas de profunda transformação dos ecossistemas, fazendo ou renovando pastagens em terreno alheio, com uso ilegal do fogo, destruindo os habitats e impedindo continuadamente a sua regeneração. Tudo com custos elevados, no combate às chamas e na perda de bens, nomeadamente nas plantações florestais.
Não se questiona a legitimidade de actividades de exploração dos recursos biológicos como as mencionadas, até porque estão enquadradas nos costumes e nas leis, e os seus produtos têm muita utilidade. O que não é correcto é a apropriação, à margem da legislação e do bom senso, do que é de todos. Só eles não querem ver.