O papa-figos assobiava daquele modo que parece troçar de quem procura vê-lo, sem sucesso. Claro que não consegui fotografá-lo, porque estava bem oculto na folhagem que envolvia a ruína da casa rural. Estive naquele local no verão, quando as cigarras atordoam os ouvidos, o sol cresta tudo e há pó no ar. E estive lá na primavera de temperaturas amenas, quando as aves canoras se fazem ouvir melhor e os aromas florais dominam à medida que percorremos o estradão.
No todo ou em parte, percorri aquele caminho várias vezes, a pé, no velho jipe para visitantes e ainda, anos mais tarde, no nosso carro, altura em que parei demoradamente na ruína, apreciando a paisagem e observando a Natureza. Para lá chegar, atravessamos a bonita aldeia de Muxagata e vemos casas imponentes que indiciam um passado mais sorridente. Chegando ao largo da feira, tomamos a direção do sol nascente e vamos espartilhados por entre muros altos até ao final da povoado, zona onde o caminho se livra do aperto e desce suavemente pelo vale. Vêem-se oliveiras, amendoeiras, campinhos, cuidados uns, abandonados outros. É então que passamos pela dita ruína, cujas paredes de xisto e padieiras de granito se erguem entre tufos bastos de flora ruderal. Amontoadas no solo, vemos traves carbonizadas e telhas quebradas do que já foi a cobertura da casa maior, e que dão esconderijo à bicharada menor.
A partir daí o vale encolhe-se, o declive acentua-se e o piso piorava, não sei como estará agora. Após mais um pouco de caminho, cerca de quilómetro e meio pela margem esquerda da ribeira de Piscos, chegamos a uma encruzilhada e, depois de passar a linha de água, sobe-se a encosta direita uma ou duas centenas de passos até à crista. Aí, subitamente, o olhar abarca a vastidão da quinta de Ervamoira1, numa visão que a nossa sociedade associa a progresso e elevada estética.
Um certo dia fiz o caminho de pescadores da ribeira de Piscos, da foz para montante, dias depois de uma grande chuvada. O rio Côa, também ele turvo, recebia a água da ribeira, ainda barrenta. Um pouco mais acima as margens estavam cobertas por uma camada quase seca de sedimentos, mistura de argila e areia muito fina onde os nossos pés se afundavam ligeiramente. Tal como num antigo pergaminho iluminado com figuras estranhas, também a tela terrosa ostentava desenhos inesperados. E, tal como os textos medievais, contava uma história. Esta tinha sido escrita a várias mãos, ou pés, como atestavam as múltiplas assinaturas visíveis. Garça-real, lontra, javali, raposa, garça-branca, borrelhos e alvéolas, todos tinham passado por ali e inscrito a sua marca na folha lisa deixada pela torrente, pegadas tão perfeitas que era fácil identificar os respectivos autores. Até vi uma fiada de pequenos traços desconhecidos, levíssimos, e que me deixaram sem resposta. Segui-os até a um tufo de ervas que ladeava a margem da ribeira e, sorte das sortes, ainda lá estava, bem escondido, o misterioso culpado. Peguei nele com cuidado e vi que era um juvenil de cágado-mediterrânico, tão frágil e pequeno que cabia na palma da minha mão. Libertei-o, depois de lhe fazer o retrato.
Como gosto de fazer quando escrevo estas memórias, regresso ao início do texto e à ruína abandonada. Parece que era chamada de Quinta das Olgas e os seus pergaminhos, se os houvesse, falariam de trigo e azeite, de senhores e camponeses, de tributos e obras, tal como está escrito nos que referem Muxagata, que já foi terra importante.
Não os havendo, não podemos dizer que não há documentos originais do vale descido pela ribeira de Piscos. Neles, as atividades agrícolas estão ausentes e outros temas aparecem em destaque, como a fauna da região e as relações transcendentais, mágicas, que os habitantes tinham com esses animais, admirados, venerados ou fontes de alimento. Tais documentos são escritos muito mais antigos, e o seu suporte não é feito de peles de animais nem de fibras de celulose, materiais perecíveis. As imagens de cavalos, auroques e cervídeos estão gravadas em rochas de xisto, um substrato mais duradouro, e que resistiram ao tempo durante milhares de anos, constituindo relevantes testemunhos dos tempos passados. Esses seres há muito que desapareceram mas outros continuam no vale. Felizmente, temos os “pergaminhos” efémeros da ribeira de Piscos, onde se inscrevem e rapidamente se apagam, a cada tempestade, detalhes das vidas da fauna selvagem que está cada vez mais confinada às poucas áreas ainda não tomadas pela cultura da vinha. Haja quem os saiba ler.

NOTAS
1- Ler também ERVAMOIRA e ainda ESPARGOS SILVESTRES
2- Ouvir novamente o papa-figos (Oriolus oriolus, gravado por Olivier Matgen)