VULTOS NA FLORESTA

São 6 vultos, e atravessam a velha ponte de pedra. Depois param, surpreendidos por nos verem ali e ajoelham-se atrás de um rochedo, as cabeças de fora. Os binóculos estão à mão e espreito. São rostos duros, queimados do sol, barba por fazer e cara de poucos amigos. Trocamos algumas palavras entre nós, fazendo o diagnóstico da situação, e acenamos. Não constituímos qualquer ameaça e não pretendemos que eles o sejam. Alguns segundos depois levantam-se e retomam a marcha pelo caminho de cabras, grandes sacos de serapilheira às costas. O sol já se pôs, só chegarão à aldeia de noite. Tinham vindo por uma encosta da serra, uma corga íngreme que descia da fronteira, a cerca de um quilómetro, e rapidamente desapareceram de vista.

Em 1980 falava-se de contrabandistas que iam buscar tabaco a Espanha, mas nunca me passou pela cabeça dar-se a coincidência de poder observar a cena ao vivo.

Este e muitos outros episódios tiveram lugar na Mata do Cabril, em pleno Parque Nacional, ao longo de alguns anos (1980-1984) em que tive o privilégio de poder acampar, com autorização, numa zona de circulação limitada (o que nunca impediu o pastoreio ou a recolha de plantas e a presença de caçadores e incendiários). Mas vamos ao que interessa. Apresentámos ao director do parque nacional da Peneda-Gerês (PNPG) a proposta seguinte: poderíamos acampar quando quiséssemos ao longo de algum tempo, faríamos a identificação do máximo número de espécies animais e vegetais presentes no vale, e apresentaríamos relatório do que descobríssemos. E assim fizemos, com algum apoio de material da faculdade de ciências mas sem qualquer experiência de trabalho de campo, nem um professor que  orientasse as nossas tarefas. Compramos binóculos e ratoeiras, estudamos os mapas, fizemos planos de amostragem, observamos as aves, pegadas e excrementos, capturamos (e libertamos) mamíferos, répteis e anfíbios, e cumprimos o objectivo.

De todas as tarefas, talvez a mais difícil fosse a armadilhagem de micromamíferos. Implicava deslocar dezenas de pequenas jaulas, carregadas às costas, para locais muitas vezes de difícil acesso. Ao fim da tarde, preparar o isco, juntar um ninho de algodão e um saco de plástico para proteger do frio e da chuva, e regressar de manhã ao local para identificar e libertar as capturas. Repetir a dose diariamente.

O resto do dia era aproveitado para observar tudo o que fosse possível, mas também tomar banho na água gelada do Rio  Cabril, comer, jogar, discutir, etc. Foram tempos bem passados.

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Rio Cabril. CC0cc1Paulo Santos  

Muito agradável com um bom tempo, menos quando não era assim. Um dia de agosto veio uma carga de água, e assim como chegou, foi-se. Passado algum tempo ouvimos um troar forte vindo do cimo do vale e só quando chegou perto nos apercebemos que o rio tinha subido 2 metros, uma grande enxurrada. Tudo o que tínhamos a refrescar na água… Na manhã seguinte andámos rio abaixo a recolher cenouras, cebolas, pacotes de leite e outras coisas da nossa “despensa”. Finalmente encontramos o frango. Tinha ficado bem lavado, toda a noite na água, estava branco como a cal. O arroz de frango lívido comeu-se ao jantar, e estava bom. Muito melhor que o frango de outro acampamento que também tinha ficado no rio, bem embrulhado num saco de plástico. Depois de dois dias de calor estava com uma cor verde como nunca tinha visto. Nem por isso deixou de se comer, muito temperado e bem frito, quase  torresmo. Não se podia desperdiçar nada que tinha dado tanto trabalho a carregar da aldeia, a duas horas de caminho.

Num outro ano tomamos contacto com uma das formas de proceder das populações locais.  Estávamos acampados há dois ou três dias num verão calmo. A meio da manhã fomos dar uma caminhada quase até ao topo da Serra Amarela. Dia muito sossegado, nem pessoas nem gado à vista. Passado algum tempo chegou gente numa carrinha, mas não ligamos qualquer importância pois era comum aparecerem pastores a procura de vaca perdidas. Estávamos a sombra e não nos viram, disseram qualquer coisa entre eles e começaram a caminhar em várias direcções, desaparecendo no meio das giestas. Tínhamos acabado de comer o nosso farnel quando ouvimos novamente o motor a trabalhar e a carrinha a desaparecer. Não tardou muito a ouvir outro barulho, e eram grandes labaredas. Os malandros tinham incendiado a mata, mais uma vez. Corremos a desmontar as tendas e descemos a serra. Entretanto, já as chamas de vários fogos, arrastadas pelo vento, se tinham espalhado por uma área muito grande e, a dado ponto, tivemos mesmo de passar com fogo dos dois lados do estradão. Assustador! Nessa noite dormimos mal, junto ao castelo de Lindoso, o vento forte a abanar as tendas e o céu nocturno iluminado de vermelho. Uma semana durou o incêndio. Algum gado, matos e muitas árvores queimadas foi o balanço oficial, esquecendo um número indeterminado de outros seres vivos, o recuo da mancha florestal para o fundo do vale e a importância dos matos para a biodiversidade. A ignorância habitual, a disfuncionalidade do PNPG e do ordenamento do território e o combate negligente aos fogos em ambiente natural. A combinação perfeita com os  muitos trogloditas que se julgam donos de tudo na região, a conivência ou fechar de olhos das autoridades e a impunidade geral…

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