FILA PARA A PISTOLA

A longa fila conduzia o pessoal, rapidamente e sem conversas, a um furgão estacionado na sombra, à frente do qual um homem usava repetidamente uma grande pistola. A situação era assustadora, pelas dimensões e pelo formato estranho da “arma”, que era mesmo especial. Apesar do susto, todos passavam pelo homem e, após breve paragem, continuavam pelo próprio pé.

Na verdade, a fila tinha sido organizada para a vacinação rápida de todos os alunos da escola. Estava em curso, em Angola, uma campanha contra uma doença infecciosa grave que, em 1971, alastrava pelo continente africano, e não só, a cólera. Causada por uma bactéria, Vibrio cholerae, a doença propagava-se em regiões sem adequadas condições sanitárias. Se hoje estas abrangem meio mundo, há 50 anos eram muito piores, causando mortos mesmo na Europa, Portugal incluído.

O problema era conhecido há muito tempo, mas Pasteur contribuiu para a solução, fazendo a primeira vacina. Isto, mesmo antes de saber qual é o agente patogénico que está na origem da cólera, identificado posteriormente pelo rival Koch. Fiquei, recentemente, a saber que foram registadas sete pandemias de cólera, e que a última delas decorreu de 1961 a 1975, começando na Indonésia e dando a volta ao planeta. Segundo algumas fontes, ainda não terminou, tendo mesmo ampliado o âmbito geográfico onde tem ocorrido nos últimos anos.

Volto agora ao início desta memória para falar da pistola*, pois é importante contar o resto da estória. O enfermeiro agarrava o braço de cada “voluntário” e carimbava-o com a “arma”, que emitia um silvo a cada “disparo”. Todos faziam cara feia, imaginando um agulhão a sair do cano da pistola para espetar na carne tenra. O seu aspecto estranho, com um depósito para o líquido vacinal e um tubo flexível de borracha preta, ligando-a a uma máquina grande no interior do furgão, não ajudavam a dissipar o receio das “vítimas” na fila, apesar da frase repetida “não dói nada”. Afinal não havia agulha, pois o “injector a jacto”, a designação técnica do instrumento, usava um fino jacto de líquido a alta pressão para penetrar na camada mais externa da pele, sem perfuração mecânica, introduzindo desse modo a dose da vacina.

Os injectores a jacto foram muito usados em campanhas de vacinação em massa em muitos países, por serem mais rápidos que a administração de vacinas com seringa e agulha, mas a Organização Mundial da Saúde já não os recomenda para esse fim, devido aos riscos de transmissão de doenças. O seu uso individual, contudo, está em expansão. 

Certamente que os houve, nomeadamente a preparação prévia e a posterior emissão do certificado, mas não me lembro de mais pormenores do episódio, passado na Escola onde andava nessa data, o Ciclo Preparatório na cidade do Lobito.

NOTA 

* A famosa pistola aparece numa reportagem da RTP: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/campanha-de-vacinacao-em-luanda/

2 thoughts on “FILA PARA A PISTOLA

Deixe um comentário