VELA

Noite escura. A vela treme continuamente ao vento. Mas não ilumina, não é das que o fazem. No horizonte, em frente, estende-se uma longa fiada de luzinhas. Para trás nem uma, só o breu furado pelas estrelas. Salpicos vão pousando nas mãos e nas lentes. As ondas balançam cadenciadamente o pequeno veleiro em que navegamos para terra, uma sensação de plenitude quebrada apenas por periódicas manobras de virar de bordo (passar a vela de um bordo para o outro). Subitamente, golfinhos surgem do nada e acompanham-nos durante alguns minutos. Depois, assim como chegaram, desapareceram. O alto paredão norte do porto de Leixões torna-se visível e vai ficando cada vez mais próximo, golfando pequenos barcos de pesca que rapidamente se transformam em pontos luminosos antes de desaparecer completamente.   Estava a terminar mais uma aula prática do curso de velejador. Depois das manobras finais, defensas em posição, amarras, palamenta arrumada, mais uns dedos de conversa e “navegação” para casa. O dia tenha sido bem longo e a aula tinha começado após o trabalho. Normalmente, a saída era antes do sol se pôr, e a chegada já com a noite adiantada, pelas 22 ou 23h. Incluído no passeio estava o ocaso, quase sempre bonito, e o crepúsculo. Mais tarde, a refeição ligeira, uma sanduíche ou duas, uma cerveja, uma peça de fruta, tudo em boa companhia.

A decisão de frequentar o  curso de velejador surgira com entusiasmo, em sequência do anterior “curso de Patrão Local”. Sim, é mesmo assim que se designa o grau acima de marinheiro. Segundo os regulamentos internacionais, a carta de Patrão Local permite comandar uma “embarcação de recreio”, sem limite de dimensão e potência, em navegação diurna e nocturna à distância máxima de 5 milhas da costa e de 10 milhas de um porto de abrigo, em qualquer parte do mundo.

Durante alguns meses, no conjunto dos dois cursos, aprendi uma parte da complexa nomenclatura da navegação, termos como adriças, alheta, escotas, genoa, moitões, caçar, cambar, orçar e tantos outros. Aprendi também as regras de segurança, por exemplo para evitar abalroamentos, e também sinais, cartas, ventos, correntes, bandeiras, comunicação rádio, nós e, claro, as manobras com embarcações a motor e à vela.

Em agosto de 2004 ocorreu um acidente nas condutas entre o cais dos produtos petrolíferos e a refinaria. Foi grave e deixou em mau estado a marina, os barcos e os clubes de vela. Ficou tudo encerrado tantos meses, mais de um ano, que acabei por perder o interesse. Mas os momentos bem passados nessas pequenas aventuras náuticas ainda hoje regressam aos meus sonhos.

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 CC0cc1Paulo Santos 

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