O tempo passava e eu não escondia a desapontamento por não ver aparecer o que tanto aguardava, pois a expectativa criada pelos progenitores era grande. Tinha escavado a terra do quintal, depositado os grãos nos buracos, cobrindo-os depois e juntado água até encharcar tudo. Depois fui observando o crescimento, ansiando pelos frutos que não surgiam. … Continue reading SEMEADURAS INFANTIS
Categoria: Memórias Características
AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES
Sim, eu sei que um título desta natureza, “AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES” parece arrogantemente erudito e algo críptico, pretensioso, presunçoso e outros adjetivos terminados em “oso”. Contudo, não poderão dizer que é preguiçoso pois pensei muito para escrever um que fosse sucinto, ajustado ao conteúdo, e ainda algo misterioso, apelativo à leitura. Vem este … Continue reading AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES
PIRATAS, CORSÁRIOS E ETC.
Quando iniciei colaboração com holandeses, estava longe de imaginar que viria a consolidar a imagem que tinha deles, vinda da literatura juvenil: a sua índole de flibusteiros, piratas, bucaneiros, corsários e outros adjetivos menos abonatórios. A história que nos ensinaram na escola também não era favorável aos que tentaram substituir-nos em Angola, São Tomé ou … Continue reading PIRATAS, CORSÁRIOS E ETC.
METAMORFOSES E CASA NOVA
Como se fosse uma metamorfose, libertando o corpo da velha casca que o espartilhava, mudar de toca significou uma melhoria na nossa qualidade de vida. Deixar o ninho onde tínhamos passado a etapa inicial do casamento, onde tínhamos feito o melhor que sabíamos nos primeiros anos dos filhos, e ainda onde tínhamos inventado tantos bons … Continue reading METAMORFOSES E CASA NOVA
ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO
Quando fui para a escola, tendo completado sete aninhos, já sabia ler, escrever e contar, por empenho da minha mãe. Não me lembro disso, mas o assunto foi por ela referido, várias vezes, quando eu era já mais crescido. O seu orgulho indisfarçado tinha fundamento pois o feito estava longe de ser generalizado entre as … Continue reading ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO
CAÍRAM ESTRELAS, VOOU O RELÓGIO
Fomos ver as estrelas a cair e o meu relógio (e não só) voou, que é como quem diz foi-se, ou outra expressão de semântica equivalente. Serve isto de intróito a este texto, no qual proponho fazermos uma ronda pelas minhas experiências nos tribunais e daí expor algumas perplexidades. Começo com o caso do furto … Continue reading CAÍRAM ESTRELAS, VOOU O RELÓGIO
REGRESSO ÀS CENAS VHS
De tempos a tempos dá-me vontade de regressar a esse tempo. Abro a pasta e localizo os dois ficheiros de vídeo. Vejo-os um par de vezes, pois são curtinhos, um minuto cada, e delicio-me. São imagens da família, recolhidas em 1988 e 1989, com destaque para as nossas crianças. Ela, ainda bebé, no banho ou … Continue reading REGRESSO ÀS CENAS VHS
EM SVOLVÆR, RENA CONGELADA
“Isto é rena congelada, pois a fresca não se pode comer, está proibido.” Foi assim que me disseram, talvez a justificar a sensaboria do repasto. Em maio de 1986, viajei até ao norte da Noruega para frequentar uma pós-graduação em Gestão da Zona Costeira e Recursos Marinhos, paga por uma bolsa de estudo europeia. Foi … Continue reading EM SVOLVÆR, RENA CONGELADA
SUSTO ESTRONDOSO
Apertei o dedo e, subitamente, o estrondo inundou-me o cérebro ao mesmo tempo que o meu corpo foi sacudido violentamente. Dizer que foi um grande susto é faltar à verdade. Apanhei um cagaço do caraças! Terá sido a maior travessura que cometi na vida, e esta palavra não se aproxima minimamente da gravidade do que … Continue reading SUSTO ESTRONDOSO
O BACALHAU E A RAPOSA
A casinha de montanha O conforto da casinha de montanha aguardava-nos. Escondida na paisagem ventosa e coberta de grossa camada de neve, a pequena construção estava junto ao tosco cercado de pedra que circundava o pasto. Transposta a cancela de tábuas aparelhadas, vimos uma fiada de orifícios na neve fofa. Analisando de perto, o veredito … Continue reading O BACALHAU E A RAPOSA
FRAUDE EM DÓ MENOR
A 20? A 20? A 20? A voz sussurrada repetia-se ansiosa atrás de mim. Consultei os meus papéis. Depois, lentamente, levantei a mão e, como se estivesse a contar, desdobrei um, dois, três dedos enquanto confirmava mentalmente: a, b, c. O sinal que fiz correspondia à opção “c”, a resposta certa à pergunta 20. Como … Continue reading FRAUDE EM DÓ MENOR
ESCRITA DUPLAMENTE PESADA
Os últimos seis anos foram bons para a escrita. Pouco a pouco, fui abrindo janela e deixei voar episódios antigos, pensamentos, factos estranhos ou curiosos, críticas e juízos de valor. Todos os meses viram o surgimento de novos textos, memórias de uma, duas ou de seis décadas, umas mais poeirentas umas que outras. Fui abrindo … Continue reading ESCRITA DUPLAMENTE PESADA
A PRESSÃO PARA SER O MELHOR
A pressão para ser o melhor não surgiu logo de início. Na verdade, só apareceu a meio do terceiro ano da licenciatura, quando acumulei uma mão cheia de boas notas, o suficiente para tornar a minha média num valor aceitável e acima da grande maioria dos meus colegas. Até aquele momento, a probabilidade de seguir … Continue reading A PRESSÃO PARA SER O MELHOR
O NOBRE
A primeira vez que contatei o Nobre foi em novembro de 1975, e a relação durou quase dois anos. Longe de ser fidalgo, completamente plebeu, ele foi fundamental para o resto da minha vida. “O Nobre" era o nome familiar pelo qual ficou conhecido o antigo Liceu António Nobre, homenageando o poeta portuense. Era o … Continue reading O NOBRE
O RAPAZ DOS GAFANHOTOS
A imagem do rapaz a comer gafanhotos vivos vem à superfície das memórias com alguma frequência, a maioria das vezes quando me surgem cenários com diferenças culturais de monta. A lembrança vem do início dos anos setenta, quando eu tinha idade semelhante à do protagonista. Nesse dia, ao cair da noite, uma nuvem verde vinda … Continue reading O RAPAZ DOS GAFANHOTOS
O ANO PRO O QUÊ?
Naquele ano, os claustros quase conventuais e o grande e frio salão acolheram-me muitas tardes. O espaço coincidia com o momento. Sem rodeios, a vida não foi fácil durante o ano lectivo de 1977/78, e pouco de relevante aconteceu. Ainda assim, é possível espremer a memória e extrair algumas coisas interessantes, como as que se … Continue reading O ANO PRO O QUÊ?
XADREZ, PURO PRAZER
O meu pai ensinou-me a jogar xadrez, teria eu treze anos. Hoje já não jogo nada, só me divirto com partidas semi-rápidas no computador. Gosto mais das rápidas, mas deixei de as jogar. A razão é simples, já não consigo mover o cursor com a velocidade necessária e perco sempre por falta de tempo. Mesmo … Continue reading XADREZ, PURO PRAZER
LARANJAS EM TRAJETÓRIA PARABÓLICA
As três laranjas, lançadas em trajetórias parabólicas, passavam sucessivamente de um lado para o outro. O meu olhar não descortinava como tudo acontecia sem falhas. De forma elegante e que aparentava ser fácil, as laranjas atiradas por uma mão passavam para a outra descrevendo uma curva e dando a ilusão de estarem todas a voar. … Continue reading LARANJAS EM TRAJETÓRIA PARABÓLICA
AS PEDRAS DE SÃO BARTOLOMEU
Um dia, apiedado pela desgraça do homem, S. Bartolomeu deu-lhe três pedras dizendo: com estas pedras, vai e faz o coração da tua nova casa. O homem, agradecido, seguiu o sábio conselho… Alto lá que não é nada disto! Enganei-vos bem, recomecemos. Avaliando à distância de quatro décadas, as três pedras pesariam, em conjunto, mais … Continue reading AS PEDRAS DE SÃO BARTOLOMEU
MEMÓRIAS AOS QUADRADINHOS
Quando as memórias se perdem, todos perdemos um pedacinho de vida, mesmo que dele não sintamos falta ou não tenhamos consciência do seu desaparecimento. A perda ocorre devido a causas intrínsecas ou orgânicas, e também por motivos externos, mas não é esse o objectivo deste texto. Vem este intróito a propósito de informação quimicamente fixada … Continue reading MEMÓRIAS AOS QUADRADINHOS
O SEXO EXPLICADO
O meu pai aproximou-se com um livrinho na mão e disse: lê bem e pergunta se tiveres alguma dúvida. Claro que li bem, mas não lhe coloquei perguntas. Se ele parecia acanhado quando me deu o livro, talvez se sentisse pior quando estivesse a explicar o seu conteúdo. Percebi tudo, disse-lhe algum tempo depois, descansando-o. … Continue reading O SEXO EXPLICADO
ALVOROÇO EM TERRASSINI
A notícia do assassinato só chegou depois da polícia. Não eram agentes regulares. De uniforme negro, armados de metralhadora e protegidos com capacete e colete militar, tinham aspecto ameaçador. Nada disseram, assumiram posições defensivas e controlaram as entradas e saídas do hotel, causando nos hóspedes alguma inquietação pela inusitada ocupação. As atividades do evento internacional … Continue reading ALVOROÇO EM TERRASSINI
ORSAY
Perguntando hoje aos filhos se recordam a visita a um museu cheio de esculturas em Paris, a resposta é vaga. A verdade é que estivemos num monumental salão povoado por esculturas de vários estilos, tamanhos, materiais, proveniências e impactos. E também para todos os gostos. Aproveitando a semana de férias da Páscoa, entre março e … Continue reading ORSAY
O BANDO DOS QUATRO NO GRANDE SUL
Este texto não se refere a um mal afamado grupo de pistoleiros nem faz eco de turbulências no império amarelo. É mais terra a terra e aborda a última grande aventura familiar com os quatro elementos, a viagem à Antártida. Outras houve depois, mas mais nenhuma com todos. Contrariamente às anteriores, nesta viagem não escolhemos … Continue reading O BANDO DOS QUATRO NO GRANDE SUL
O MELRO ACUSADOR
A primavera não me chegou no dia e hora calculados para o último equinócio. Atrasou-se? Não, mas só senti a sua vinda uma semana depois, a meio da noite, quando o melro desenrolou o primeiro canto do ano ao luar. Aceitei a cantoria com um sorriso agradecido, aborrecido que estava com a insónia prolongada. Estava … Continue reading O MELRO ACUSADOR
SINGAPURA
Nunca fui a Malaca, terra por onde os nossos barbudos antepassados andaram a roubar melhor do que os persas e otomanos que os antecederam e pior do que os que vieram depois, holandeses, franceses e ingleses. Trago aqui a Península da Malásia, a designação actual daquela região, para falar de qualidade de vida. E a … Continue reading SINGAPURA
FRUTA DO TEMPO PASSADO
O baloiço tosco pendurado pelo pai na goiabeira faz parte das boas imagens que guardo da infância. E foi também nesse pequeno tronco malhado e flexível que aprendi a trepar, habilidade que depois desenvolvi na outra fruteira do quintal, a nespereira. Esta era uma árvore grande, aos olhos da criança que eu ainda era, sobravam … Continue reading FRUTA DO TEMPO PASSADO
O DIRECTOR EMPATA
Tanta energia gasta e tanto tempo perdido, para nada. Feitas as contas, largas dezenas de milhar de euros nunca me chegaram. E teria sido tão importante poder gastá-los no laboratório. O acordo com aquela câmara municipal não foi fácil de obter, mas, finalmente, havia um plano para os funcionários da dita começarem a frequência de … Continue reading O DIRECTOR EMPATA
O MUSEU DA MEMÓRIA
Pacientemente, a família desfilou diante dos meus olhos um conjunto de objectos que fui acumulando ao longo de décadas, e que estavam a monte no sótão, fazendo parte daquilo que comecei a denominar, em tom de brincadeira, o “meu museu”. Não sei de quem partiu a ideia do desfile, mas foi o presente especial que … Continue reading O MUSEU DA MEMÓRIA
FANECAS E VAMPIROS
Quase meia noite, os pés estão gelados, as mãos também, e cheiram a peixe. Em pleno inverno, o barracão de madeira onde a cena decorre não é confortável, mas é o que há. Meticulosamente, o trabalho de equipa avança, duas centenas vistas, outra ainda por ver. A cada indivíduo regista-se o comprimento e o peso. … Continue reading FANECAS E VAMPIROS
A PROCRASTINAÇÃO FAZ-NOS LEMINGUES
Vinda não sei de onde, a informação circulou quando o nosso grupo de estudantes começou a ler e a debater temas de Ambiente e Conservação da Natureza. Nessa altura acolhemos como verdadeiro o seu conteúdo. Mais tarde, li documentos fidedignos a desmontar o mito urbano. Dizia este que, quando há excesso de lemingues, pequenos mamíferos … Continue reading A PROCRASTINAÇÃO FAZ-NOS LEMINGUES
A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL
“Onde está a orelha do leitão?” Pergunta retórica, pois todos os olhos se fixaram na face bonacheirona, corada e abanando que não, mas com uma expressão que o desmentia. Alto, que estou a colocar o reco antes do enredo, que é outro modo de dizer que a carroça está à frente dos bois. Haverá ainda … Continue reading A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL
ASSUMIR O CONTROLO
No primeiro ano éramos jovens, imaturos, e fomos atropelados por um sistema onde a excelência estava acompanhada pelo anacronismo, pela mediocridade e pelo discricionarismo obscuro e enviesado. No segundo ano éramos ainda jovens, imaturos, e já indignados quanto baste. A universidade era muito diferente do que é hoje. As tentativas de mudança, esbarrando em mentalidades … Continue reading ASSUMIR O CONTROLO
PAULO POR TERRAS DE STA JUSTA
Em que dá conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio em terras de Sta Justa & do rio da ferraria. E tambem dá conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas mais. Deu-me especial gozo … Continue reading PAULO POR TERRAS DE STA JUSTA
SÃO SÓ OSSOS
Sacos cheios com caveiras estiveram meses pousados no chão, a ganhar pó. Na penumbra do corredor de tecto baixo e cheiro a papéis velhos, alinhados contra a parede, os sacos esperavam um destino estranho, para não dizer de outra forma: a incineração. Um dia, peguei numa das caveiras e levei-a. Era a que estava em … Continue reading SÃO SÓ OSSOS
NO LOBITO
No início dos anos setenta fomos viver junto ao mar, no Lobito, por transferência do pai, que era funcionário da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela. Anos felizes para um rapazinho de onze, doze anos. A mudança trouxe novos hábitos, novas caras e excelente peixe fresco, por comparação ao que se comia no interior, … Continue reading NO LOBITO
VETERINÁRIO GARBOSO
O homem apareceu, primeiro a cavalo, com farda clara, binóculos ao peito, carabina a tiracolo, e depois a conduzir o Land Rover pela “picada” arenosa no meio do mato, passando por árvores baixas e ervas altas amareladas pela poeira. Uma voz profissional, descrevendo as tarefas do garboso figurão, quase declamando, dava o necessário contexto às … Continue reading VETERINÁRIO GARBOSO
O BÚFALO
O “Búfalo” era o fotógrafo da vila, e a alcunha tinha algum fundamento. De pescoço curto e grosso, cabelo oleoso e desalinhado, caminhava sempre com a cabeça para a frente, como se fosse investir. Óculos de aros pesados, pretos e de lentes espessas faziam a personagem ainda menos simpática. Quando comecei a brincar com um … Continue reading O BÚFALO
O VELHO, A ROM E A POLITIQUICE
Toc, toc, toc, soava a bengala do octogenário quando saía da toca, um gabinete caótico a meio do longo corredor de tecto baixo. De vez em quando, metia conversa com as raparigas que estavam sentadas junto às janelas. Perguntando o que estudavam, espreitava por cima do ombro de uma delas para livros e cadernos. Ou … Continue reading O VELHO, A ROM E A POLITIQUICE
MAIOR QUE A MINHA MÃO
Há ocasiões em que somos surpreendidos pela real dimensão de algo que recordamos da nossa infância, quando tudo nos parecia grande. Assim, foi uma sensação estranha quando vi fotografias recentes das casas do bairro onde cresci até aos dez anos. Afinal, não eram assim tão altas. Talvez seja esse efeito a corromper a lembrança que … Continue reading MAIOR QUE A MINHA MÃO
MUDAR O MUNDO
Abri a cabeça com cuidado, usando a lâmina para cortar e levantar o osso como se fosse uma tampa, e localizei os pequenos cristais ensanguentados. Apontei-os com o bico afilado da pinça metálica, explicando como os detectar, determinando primeiro os pontos relevantes da arquitetura interna do crânio. Os cristais, esbranquiçados, não teriam mais de cinco … Continue reading MUDAR O MUNDO
ENSOPADA NO PARQUE
Ensopado de galinha é distinto, e muito, de galinha ensopada. E a prova estava diante dos nossos olhos. O pobre galináceo, totalmente mergulhado na água fria do rio, ensopado, nunca mais daria para um ensopado. As duas jovens, pegando-lhe pelas pontas das asas com as pontas dos dedos, retiraram o afogado da água, e depositaram-no … Continue reading ENSOPADA NO PARQUE
FRAGMENTOS DO PLANETA
A improvisada prateleira, uma tábua tosca apoiada em dois tijolos, exibia a preciosa colecção. Recolhidos um pouco por todo o lado, os fragmentos do planeta exibiam cores, tamanhos e texturas variadas, uns eram brilhantes e outros não. As peças mais bonitas, as minhas preferidas, eram estruturas cristalinas, quase puras, algumas tão transparentes que pareciam feitas … Continue reading FRAGMENTOS DO PLANETA
QUATRO ANOS DE HISTÓRIAS
Apetece-me escrever como quem lança foguetes. Passou mais uma translação planetária completa e ainda aqui venho contar histórias. Há doze meses, mais dia menos dia, comemorei três anos de publicações. Agora, é a vez de assinalar o quarto ano de divulgação das memórias que restam no meu arquivo imaterial. Confesso que não sabia que teria … Continue reading QUATRO ANOS DE HISTÓRIAS
NI NORUEGA
O barulho cavo e metálico, repetido interminavelmente, era uma tortura. E eu não sabia de onde provinha. Deitado num banco estreito da biblioteca, envolvido no saco-cama, dava voltas e mais voltas sem repousar. O som sem explicação não me deixava dormir, e, a bem da verdade, a improvisada cama, oscilante e desconfortável, também não ajudava. … Continue reading NI NORUEGA
O COMETA DE PARIS
Horas mortas, o céu escuro, todos os passageiros com Morfeu, e, lá fora, a luz brilhante a acompanhar-nos. Ao longo de tantos quilómetros de estrada, virada a oeste, parecia mover-se à mesma velocidade que nós, uma curiosa ilusão comum a todos os objectos distantes. A certa altura, encostei a viatura e fiz uma fotografia ao … Continue reading O COMETA DE PARIS
PERIGO NA CANIÇADA
A viatura saltou numa cova, inclinou-se perigosamente para a direita, e imobilizou-se com duas rodas fora do estreito caminho rural, rodando livres sobre a encosta de declive acentuado que só terminava na água, uns cinquenta metros mais abaixo. Um pouco menos de sorte e teria rebolado tudo para dentro da albufeira, o carro, as pessoas … Continue reading PERIGO NA CANIÇADA
APERTEI-LHE A MÃO
Ao longo da vida, tive oportunidade de apertar a mão a um bom número de pessoas ilustres. À sua maneira, cada uma delas teve dimensão para além das fronteiras dos respectivos países. Pela sua ação e pensamento, que se traduziram em conhecimentos científicos ou em mudanças políticas, causaram alterações na vida de muitos cidadãos, para … Continue reading APERTEI-LHE A MÃO
MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS
Nestes textos, revelei vários episódios de uma infância vivida em Angola, nos anos já longínquos da década de 60 do século passado. Muitos mais estão ainda por sair da matriz orgânica e passarem a uma sucessão de zeros e uns nos circuitos de um computador. O tempo de escrita vai escasseando e, em mês de … Continue reading MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS
GOELAS GELADAS
Em pleno verão, a água daquela bica gelava as goelas. Assim mesmo, que fui verificar ao dicionário e escreve-se com “ó”, mas a soar a “ú”. Nunca tinha escrito tal palavra, e há anos que não passava no pensamento, mas não se me ocorre outra para descrever a sensação gravada na memória, um misto de … Continue reading GOELAS GELADAS
SATURNO
A primeira vez que olhei para o planeta anelado, e tive a certeza da sua identidade, foi em troca de uma nota verde. Claro que já vira a sua luz no firmamento, e comparado a sua posição relativa com o que mostram as cartas celestes. E tinha espreitado através de binóculos, e também virado para … Continue reading SATURNO
A RÃ PELUDA E OS PROFESSORES
Coloquei-lhe a rã na mão, mas a senhorita não resistiu. Era muita pressão para ela, e não foi capaz de fechar os dedos sobre o inofensivo animal. A algazarra que se seguiu foi grande, com muitas mãos a tentarem agarrar o escorregadio anfíbio que as driblava sucessivamente, saltando pelo soalho gasto da sala. Finalmente, a … Continue reading A RÃ PELUDA E OS PROFESSORES
ATIREI O PAU AO…
Encontrámo-nos a meio do caminho enlameado, como se fosse um duelo. Para me amedrontar, ergueu-se ao máximo, tentando parecer maior do que era na realidade. Dei-lhe com um pau e acabou o combate, tão rapidamente como tinha iniciado. Contada deste modo a memória vale pouco, pelo que, agora, vou repeti-la em câmara lenta como no … Continue reading ATIREI O PAU AO…
ROCK NA GARAGEM
Meia dúzia de mirones observavam um galaró que cantava como se estivesse ligado à corrente. A música ouvia-se bem ainda antes de entrarmos naquele espaço exíguo, mas, uma vez lá dentro, fui atropelado pelo som hiperbólico. A pequena garagem estava atulhada com instrumentos musicais, amplificadores, cartazes, e ainda nós, a parca assistência. O cantor exuberante, … Continue reading ROCK NA GARAGEM
DIA DE BANHO
A senhoria só deixava usar o chuveiro com o esquentador ligado três vezes por semana. Era um contratempo desagradável, a juntar ao bafio, à cama rangente e ao colchão velho. Por mais conveniente que a localização fosse, no número dois da rua do Almada, a escassos cinco minutos da faculdade, não fiquei naquele quarto mais … Continue reading DIA DE BANHO
CRUZ VERMELHA
Sempre que passo naquela rua, ao ver o edifício da Cruz Vermelha, a memória vem à superfície. O casacão, dois números acima do meu tamanho, não dava bom aspecto e, acima do restante, não ajudava mesmo nada a passar despercebido, um dos meus propósitos nessa altura. Para um "retornado'', era assim que nos chamavam, dar … Continue reading CRUZ VERMELHA
TRÊS ANOS A ESCREVER MEMÓRIAS
Ao iniciar 2022, completam-se três anos de revelação de algumas das minhas memórias. A abertura de um arquivo na "nuvem'', o Armazéns de Baús, em janeiro de 2019, alargou ao mundo da lusofonia o universo de potenciais leitores dos textos que comecei a escrever a meio de 2018. Inicialmente destinados apenas à família, e depois … Continue reading TRÊS ANOS A ESCREVER MEMÓRIAS
CARTEIRISTA COM ÉTICA?
O envelope azul chegou sem remetente, apenas com destinatário e morada: Paulo Santos, Rua Almirante Leote do Rego nº 50, Porto. Obviamente, não era uma carta, pois vinha bastante gordo. Magra, estava dentro a minha carteira, roubada alguns dias antes. O incómodo percalço ocorreu no transporte público, nos primeiros anos de faculdade. Os autocarros circulavam … Continue reading CARTEIRISTA COM ÉTICA?
OLHA ALI UMA PALETE
Depois da tempestade, vem a...? Errado, vem a lenha. Trocando por miúdos, sempre que havia uma tempestade no Porto, ficavam ramos e troncos caídos na via pública, em jardins e também nos parques públicos. Por vezes tombavam árvores inteiras, e não se podiam perder as oportunidades de aproveitar aquele recurso natural, pois a lenha era … Continue reading OLHA ALI UMA PALETE
A CAIXA DE NATAL
A caixa de madeira chegou com muita antecedência, e foi muito bem recebida. Vinha de longe, oito mil quilómetros mais a norte, e era o modo dos avós europeus estenderem o espírito natalício ao filho, nora e netos, no “verão” africano passado na quente e muito húmida cidade do Lobito. Dentro, vinha coisa boa. Desde … Continue reading A CAIXA DE NATAL
CAÍDO NA AUTO-ESTRADA
Ouvimos um barulho forte no tejadilho do Land Rover, e tomei consciência do acidente grave que tinha ocorrido naquele instante. Olhei pelo retrovisor e confirmei a presença de uma massa caída na faixa de rodagem da auto-estrada. Estava noite bem escura, e só era visível à contraluz dos carros que vinham ao longe. Parei imediatamente, … Continue reading CAÍDO NA AUTO-ESTRADA
VACARIA DAS ANTAS
As duas vacas malhadas viviam na cidade. Moravam paredes meias, se assim se pode afirmar, com uma das zonas chiques do Porto, a antiga praça Velasquez. No final dos anos oitenta e início dos noventa do passado século, a vista do nosso terraço virado a Nordeste era ampla de horizontes e diversificada. Desde a Serra … Continue reading VACARIA DAS ANTAS
O MUNDO PARA OS FILHOS
Levámos as crianças à Eurodisney. Adoraram. Diversão familiar garantida, não foi mais do que um dos muitos passos que demos com ele e ela, para conhecimento do mundo que nos permite a vida. Procurámos sempre, na medida do possível, proporcionar aos filhos as mais variadas experiências, no sentido de completar a educação formal. E fizemo-lo … Continue reading O MUNDO PARA OS FILHOS
PENSÃO DA ESTAÇÃO
Em 1984, o combóio ia até ao final da linha do Douro, em Barca d’Alva, e nós fomos lá. A viagem de ida, demorada, valeu pelas paisagens, e por vistas de terras nunca por nós visitadas. Era o primeiro ano em que ambos tínhamos empregos a tempo inteiro, e as férias de verão nunca mais … Continue reading PENSÃO DA ESTAÇÃO
BILHETE DE CÃO
"Sim, mas tem de comprar bilhete para o cão.” Foi assim que o caixa me disse, quando perguntei se podíamos levar a Maia*, que estava na trela. Admirado, pois poderia ter ouvido mal, repeti inquisitivo: bilhete de cão!? Tive de comprar também o tal “meio bilhete”, que era válido tanto para crianças como para animais. … Continue reading BILHETE DE CÃO
SÃO SÓ ESTES?
As duas furgonetas blindadas chegaram de repente, e de dentro saltaram os polícias antimotim, tomando posição envolvente de modo intimidatório. Ao ver a faixa de pano e a dúzia de manifestantes que a seguravam, ficaram mais calmos. O graduado dirigiu-se lentamente para nós, acompanhado pelo subalterno que, visivelmente irritado, fazia alguns comentários. Só ouvi o … Continue reading SÃO SÓ ESTES?
MORDAÇA
Esta memória podia ser sobre a de Camões, Pessoa, Aquilino ou Mia Couto, mas não, é mesmo acerca da minha: a língua. Durante a juventude, a minha língua permaneceu muito calada, algo introvertida. Mais tarde, começou a soltar-se em consequência de um crescendo de autoconfiança. Esta foi chegando pouco a pouco, sustentada nos resultados escolares. … Continue reading MORDAÇA
FECHA A PORTA
Abriu a porta e entrou como se fosse dona daquilo tudo, escancarando-a e deixando o vento frio irromper na nossa cozinha regional. “Fecha a portinha!” disse eu com voz de comando. E ela, virando-se lentamente, como que indicando obedecer contrariada, fechou mesmo a porta. A cena não teria lugar nestas memórias, não fosse ter-se repetido … Continue reading FECHA A PORTA
EXAMES COMPLICADOS
Dos tempos de estudante na universidade tenho muitas memórias, umas boas e outras não tão boas, como seria de esperar. As que mais custaram a engolir estão relacionadas com maus professores, ou com maus modelos de avaliação, ou ainda da conjugação de uns com os outros. Dos primeiros não vale a pena falar, tantos foram … Continue reading EXAMES COMPLICADOS
PREPARAÇÃO CLANDESTINA
Foquei o microscópio e a imagem apareceu nitidamente. Observei com um olho e controlei os movimentos da professora com o outro. Depois, chamei o H. que estava na mesa ao lado. ”Queres espreitar?” A cara de surpresa que ele fez foi impagável, e perguntou “São mesmo?” Eram mesmo. Para bom entendimento, será melhor contar a … Continue reading PREPARAÇÃO CLANDESTINA
OS PÉS DESCALÇOS
Os pés de quem andou descalço toda a vida são diferentes. Vi deles um número suficientemente elevado para não mais me esquecer. Os dos jovens e das crianças ainda não calcorrearam suficientes caminhos para que se note, são mais ou menos perfeitos, como vieram ao mundo. Já os pés dos velhos contam outra história, e … Continue reading OS PÉS DESCALÇOS
O QUE E.L.A. ME TROUXE
Desengane-se quem pense que este texto seja um desfile de lamúrias. Pelo contrário, é um relato feito em tom ligeiro, de situações curiosas, de alterações físicas e sensoriais, e ainda de outros aspectos que entraram na minha vida com a ELA (esclerose lateral amiotrófica), comemorando dez anos de estreita convivência. Assim, deixo de fora o … Continue reading O QUE E.L.A. ME TROUXE
O CAMINHO DAS PEDRAS
Pedra após pedra, o caminho ligeiramente sinuoso foi crescendo à maneira das poldras, mas foi necessário um ano até ficar completo, mais coisa menos coisa, e permitir passagem seca. Contudo, não ficava em zona rural, nem em curso de água, atravessava o relvado do nosso quintal. Umas de perto, outras de longe, de granito ou … Continue reading O CAMINHO DAS PEDRAS
A FACA DO BACALHAU
O homem pegou no queijinho, bateu com ele no balcão e fez um sorriso maroto, acentuando o som, parecia feito por uma pedra. Depois, dirigiu-se para a extremidade da bancada, levantou a faca do bacalhau, passou-lhe um pano e zás, guilhotinou repetidamente o pequeno queijo. Dispôs as resultantes tirinhas amareladas numa fatia de pão escuro, … Continue reading A FACA DO BACALHAU
MAGIRUS
Seria ilusão derivada do conhecimento dos factos? O horizonte dava a sensação de se curvar ligeiramente, mas não tive a calma suficiente para fazer a verificação, porque o suporte onde eu estava empoleirado oscilava demais para que me sentisse minimamente confortável. Dei uma rápida vista de olhos à paisagem da ria, com planos de água … Continue reading MAGIRUS
AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES
O que amêijoas gordas, figos maduros e grades de cerveja têm em comum? Aparentemente nada, mas, nas minhas memórias têm tudo. São protagonistas de uma semana de aventuras interligadas, para lá do limite razoável. No momento, não levantaram questões éticas mais fortes do que o sentido de pertença ao grupo de jovens, levemente irresponsáveis, e … Continue reading AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES
CAMA DE BATATAS
O meu pai deu-me a chave de casa aos doze anos. Fiquei inchado de orgulho, pois nenhum dos meus colegas tinha direito a tal privilégio. Era para andar com ela no bolso, para entrar no regresso do liceu, hora a que não havia ninguém para me abrir a porta. Talvez um ano depois, tive autorização … Continue reading CAMA DE BATATAS
PENSÃO COM VISTA PARA O MAR
Dormir no chão de pedra nua, com o vento a circular livremente no cubículo, janelas sem molduras, há muito carcomidas pelo mar, um bruaá continuado das ondas a espremer-se nas reentrâncias das rochas em volta, era a melhor definição de desconforto. No entanto, constituiu uma experiência única. Pior dormida só na noite passada debaixo da … Continue reading PENSÃO COM VISTA PARA O MAR
CARROÇA DESGOVERNADA
No caminho, envolvida por uma nuvem de poeira, uma carroça de madeira segue rapidamente aos solavancos, puxada por um par de cavalos desgovernados. Ou seriam mulas? A paisagem, uma planície dominada por ervas secas, remete para o Oeste americano. Pergunto-me se já estarão a pensar que isto parece mesmo uma cena de filme. Subitamente, um … Continue reading CARROÇA DESGOVERNADA
LAVADORES, 29 DE DEZEMBRO DE 1984
Estava um dia lindo, depois de uma semana de chuva, frio e vento, como é expectável no inverno. O casamento civil tinha sido em casa, em Valbom, e depois fomos para a Casa Branca, para o “copo-de-água”. Foi uma festa bonita, apenas com a família e amigos mais chegados. Todos à nossa volta pareciam mais … Continue reading LAVADORES, 29 DE DEZEMBRO DE 1984
PEDRADAS NA ÁGUA
Os peixes eram tanto deles como eram meus. Eu só queria vê-los, eles queriam pescá-los. De cada vez que vinha à superfície para respirar, os pescadores empoleirados na falésia deixavam cair um conjunto de impropérios. Depois, começaram a atirar-me argumentos mais pesados: pedras de vários tamanhos. Afinal, eu “estava a assustar” os peixes que eles … Continue reading PEDRADAS NA ÁGUA
AGONIA AO PORTÃO
O que há de comum entre dois recintos abandonados, um em Cabo Verde e outro nos arredores de Berlim? São os dois locais do planeta onde me senti verdadeiramente agoniado. Uma sensação de enjoo, instalando-se lentamente, foi crescendo dentro de mim até se tornar insuportável. Disse que já bastava. Não queria ver mais nada, só … Continue reading AGONIA AO PORTÃO
O CANIVETE MÁGICO
O estalajadeiro (até hoje nunca tinha usado esta palavra) era aldrabão. Em consequência, viu-se aliviado de um presunto. Não é brincadeira, foi o merecido castigo. Eu só soube mais tarde, quando o galhofeiro finalista Z levantou a capa negra de estudante e desvendou o quarto traseiro porcino, como num gesto de magia. Perante as muitas … Continue reading O CANIVETE MÁGICO
JÁ VIU A SUA MÃO?
“Já viu a sua mão?” Foi o que a seca pessoa de bata branca me perguntou. Pegou-me na mão, virou-a e revirou-a, e em seguida disse-me para juntar as mãos, apoiando as palmas no tampo da sua mesa. Só então, vendo-as bem lado a lado, me dei conta da diferença. “Há quanto tempo está assim?” … Continue reading JÁ VIU A SUA MÃO?
A CAIXA AZUL
Por paradoxal que possa parecer, a observação do muito pequeno alargou-me os horizontes. A caixa de cartão azul, com imagens sugestivas e tampa de plástico transparente, revelava o conteúdo arrumado em entalhes num bloco de poliestireno expandido, a vulgar esferovite. Caixinhas de diferentes tamanhos, tubinhos com tampa, uma pinça e uma agulha metálicas, e ainda … Continue reading A CAIXA AZUL
BOLACHAS COM FIAMBRE
Uma das memórias muito difusas que guardo, talvez a mais antiga de que me lembro, é uma cena muito curta com o meu avô António. Terá sido em 1964, data em que o meu pai teve direito a umas férias no que então era conhecido pela metrópole, ou seja, Portugal continental. Penso que ainda não … Continue reading BOLACHAS COM FIAMBRE
AO FIM DO DIA, LABRUGE
Mergulhei no mar, quase oito da noite. O pôr-do-sol de julho preparava as cores de costume, reflexos laranja na água quase sem ondas. Depois da caminhada desde o apeadeiro de Modivas, transpirado, não faltava motivação para largar pasta e roupa, enfiar o calção de banho e correr cem metritos até à praia. Sem vento nem … Continue reading AO FIM DO DIA, LABRUGE
CEMITÉRIO DO PÈRE-LACHAISE
Primeira vez em Paris, bolso pouco abonado, percorri a pé as ruas à beira do Sena, vi monumentos, entrei nos museus, conversei com este e aquele, mas a coisa mais inesperada que me aconteceu foi o convite de um americano que encontrei na pousada de juventude. Era para ir ao cemitério ver a campa do … Continue reading CEMITÉRIO DO PÈRE-LACHAISE
CÁVADO: 100 LITROS DE PROBLEMA
Todos fugiram do laboratório. E a passo rápido, pois o caso não era para menos. Levantada a tampa, um fedor indescritível espalhou-se pelo ar… Nem o grande pé direito, nem a pronta abertura das altas janelas da antiga sala impediram que aquele cheiro orgânico, peganhento, se colasse a tudo e a todos. A tampa era … Continue reading CÁVADO: 100 LITROS DE PROBLEMA
CINEMA PROIBIDO
No Lobito, por volta de 1970, passou um filme proibido a menores de 21 anos. A notícia correu depressa e alguns miúdos do bairro, catraios de 11 ou 12 anos, combinaram a grande aventura. No dia marcado, quando o filme começou, era já de noite. Como o Cinema Baía era ao ar livre, trepámos ao … Continue reading CINEMA PROIBIDO
DENTES
Quantos dos grãos que sentia debaixo dos pés seriam dentes como o meu? Teria passado mais de uma hora de brincadeira de crianças dentro da improvisada piscina natural, cheia de água bem quente, muito quente mesmo? Certamente! E tinha feito bochechos frequentes, amolecendo a gengiva? Claro que sim. Em resultado, o incisivo de leite, já … Continue reading DENTES
O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA
No final da quarta classe a Escola Primária ofereceu um livro ao melhor aluno. O rapaz já o tinha na mão e todos batiam palmas quando uma das professoras disse bem alto que não podia ser. E porquê? Porque ele era repetente. Mandaram-no embora sem o livro. Uma total falta de sensibilidade, uma grosseria para … Continue reading O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA
O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”
No breu da noite africana, ela está iluminada pela luz crua do Petromax(1) e milhentos insectos esvoaçam em seu redor formando um véu brilhante. Cabelos longos cobrindo metade do rosto, a jovem mulher dedilha ritmadamente as cordas. E canta, sentada na beira do alpendre de madeira tosca. Canta com um sorriso malandro, a condizer com … Continue reading O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”
CASSETETE NO LOMBO
Só acordei quando senti o cassetete a morder o lombo. Na verdade não tinha estado a dormir mas, durante algum tempo, talvez uma vintena de segundos, não sabia o que se tinha passado comigo, em que estado alienado tinha vivido. A dor aguda despertou-me mas não se revelou grave, deixou apenas uma grande marca negra … Continue reading CASSETETE NO LOMBO
DUNA 45
Silêncio. Sol. Sombras ramificadas projectadas no solo, ramos negros recortando o céu muito azul, quase cobalto, em contraste com a imensidão avermelhada que ocupa o horizonte em frente. Dunas. Uma delas, enorme, de curvas suaves, parece mover-se muito lentamente. Pura ilusão. Move-se, sim, mas tão devagar ao longo dos anos que o olhar não conseguiria … Continue reading DUNA 45
O VCR DE CONTRABANDO
Sem capacete, à boleia de um motociclista benemérito, a viagem de regresso a Saragoça foi penosa. A canela a queimar no escape, o pesado saco de cabedal a doer, pendurado ora num braço ora no outro, a estrada que nunca mais acabava… Depois de algumas horas naquela terra que é um grande centro comercial, tinha … Continue reading O VCR DE CONTRABANDO
GIRINOS EM CASA
Quantos cordões de ovos levei do ribeiro para casa? Quantos sapinhos vi desaparecer no quintal? Observar a maravilha das metamorfoses, repetidamente, não cansava os nossos olhos de crianças. Ao regressar da escola primária, parava muitas vezes no fim da mata que rodeava o bairro onde morávamos. Junto ao pequeno ribeiro que aí corria lentamente, eu … Continue reading GIRINOS EM CASA
CAVEIRA DE CRISTAL
Uma caveira esculpida em tamanho real num grande cristal de quartzo, atribuída aos astecas ou aos maias (1), cabeças encolhidas de vítimas de tribos amazónicas, múmias Incas, clépsidras e tantos outros mecanismos para medição do tempo, armas e armaduras, instrumentos musicais e de navegação, autómatos pioneiros, ferramentas, maquinaria diversa e ainda estranhos aparelhos antigos, um … Continue reading CAVEIRA DE CRISTAL
TREINO MILITAR
Deram um par de botas verdes de lona e uma farda a cada um. Uma semana depois devolvi a farda e fiquei com as botas. Sim, o meu treino militar teve a duração de uma semana, e mais não quis. No ano de 1974, as forças armadas de cada um dos movimentos de libertação de … Continue reading TREINO MILITAR
HOTEL AEROPORTO
No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO