CAVEIRA DE CRISTAL

Uma caveira esculpida em tamanho real num grande cristal de quartzo, atribuída aos astecas ou aos maias (1), cabeças encolhidas de vítimas de tribos amazónicas, múmias Incas, clépsidras e tantos outros mecanismos para medição do tempo, armas e armaduras, instrumentos musicais e de navegação, autómatos pioneiros, ferramentas, maquinaria diversa e ainda estranhos aparelhos antigos, um … Continue reading CAVEIRA DE CRISTAL

HOTEL AEROPORTO

No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO

OS LOBINHOS 

Os dois adultos afastaram-se receosos e pudémos aproximar-nos do seu covil, devo confessar que não de modo totalmente confiante. Era um abrigo tosco com 2 lobinhos, bolinhas de pêlo fofo, olhos cinzentos e patas robustas. “Podem pegar neles, se quiserem.“ Quisémos. Ganiam levemente e cheiravam mal, mas mesmo muito mal, a carne em decomposição. Nunca … Continue reading OS LOBINHOS 

NA TENDA

A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual. A ave levantou-se e … Continue reading NA TENDA

REMA, REMA!

O bicharoco não estava assustado, podia desaparecer quando quisesse. Parecia, isso sim, que se divertia à nossa custa, afundando aqui e emergindo mais além. De máquina fotográfica na mão, eu olhava em volta e pedia ansioso: está ali, rema, rema, Zé! E o Zé, fazendo-me a vontade, remava. Acabei por fazer dois ou três “slides”(1) … Continue reading REMA, REMA!

A COMISSÃO E O RIO SABOR

Levantei-me e disse alto e bom som, irritado: “Nesta sala não há mais ninguém além de mim que saiba interpretar toda a informação do documento! Não sou um ecologista qualquer sempre do contra. Estou a debater o assunto baseado em conhecimento e com argumentos técnicos. Por isso, exijo respeito!” Assim mesmo, mais vírgula menos vírgula. … Continue reading A COMISSÃO E O RIO SABOR

EMBARAÇO INFORMÁTICO

A minha cara ferve, rubor intenso. Carrego repetidamente na tecla ESC, sem resultado, e o rato não dá para fechar as imagens que rápida e sucessivamente vão povoando o monitor, sempre mais, cobrindo as anteriores. As duas professoras sentadas a meu lado, já entradotas, incomodadas, desviam o olhar daquelas fotografias dignas das mais populares “revistas … Continue reading EMBARAÇO INFORMÁTICO

MÚSICA

O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do  Budokan … Continue reading MÚSICA

CLIENTE ASSÍDUO

Um dia descobri a sua existência e não mais a larguei. Vinha ao bairro uma vez por semana, em dia certo, esperava os clientes assíduos, e apelava aos transeuntes tentando ampliar a clientela. Fazia-se transportar num enorme furgão branco de formato inconfundível e era conhecida por todos. Era a biblioteca Itinerante e fazia parte da … Continue reading CLIENTE ASSÍDUO

SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE

Não era a pior comida do mundo, e nunca me incomodou muito tê-la frequentemente. Mas é melhor explicar. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, vivíamos nós no Lobito, em Angola, muitas refeições eram bastante desinteressantes, o mínimo que se poderia dizer. Na verdade, era frequente termos vários dias consecutivos em que, … Continue reading SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE

AVES

Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta. Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos … Continue reading AVES

NEANDERTAIS

Desde que ouvi falar deles eu dizia muitas vezes: eles andam aí no meio de nós. À medida que fui lendo as descobertas da genética moderna, que revelam a presença de genes dos Neandertais nas populações humanas actuais, fui confirmando o que sentia e afirmava por brincadeira. O dicionário diz: ne·an·der·tal |niãdèrtál| (Neandertal, topónimo [região … Continue reading NEANDERTAIS

DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!

“Professor! Don't do it again, please!” Esta foi a frase que quebrou a tensão e originou uma gargalhada geral. Quem a proferiu foi o professor Andrzej Łysak, na altura no Porto a convite do professor João Machado Cruz. Durante alguns meses, em 1982-3, contribuíu para a formação dos doze finalistas da licenciatura em Biologia, ramo … Continue reading DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!

VER A ENCICLOPÉDIA

Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção  chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA

COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO

Pouco depois de entrar no país pela fronteira de Vilar Formoso, era hora de almoço. Restaurante de beira de estrada,  escolher mesa, mandar vir prato do dia, costeletas de porco. E para beber? Venha uma garrafa de Porto! Vinha de França à boleia num camião TIR. Terminadas as vindimas de 1981 na zona de Bordéus, … Continue reading COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO

O MATADOR

O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira. Depois de duas frenéticas voltas … Continue reading O MATADOR

BAFORADAS

O Né  tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou,  mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano. Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, … Continue reading BAFORADAS

COMENTÁRIOS INCÓMODOS

Depois da minha intervenção, durante muitos anos, não mais me convidaram para lá ir.  Era um debate na televisão com o então Secretário de Estado do Ambiente, Ricardo Magalhães, sobre a utilização de verbas do ministério do ambiente no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Discordei da gestão e afirmei que se pagava … Continue reading COMENTÁRIOS INCÓMODOS