Quase meia noite, os pés estão gelados, as mãos também, e cheiram a peixe. Em pleno inverno, o barracão de madeira onde a cena decorre não é confortável, mas é o que há. Meticulosamente, o trabalho de equipa avança, duas centenas vistas, outra ainda por ver. A cada indivíduo regista-se o comprimento e o peso. Depois, olhos experientes fazem a vistoria aos peixes, neles procurando sinais da presença de um ser muito estranho. O objecto da busca é um parasita com aspecto vagamente semelhante a um ponto de interrogação com um penacho, de corpo vermelho e brilhante como se de lacre fosse feito. Não é caso para admiração, pois é um “vampiro” replecto de sangue, ou, para usar o termo adequado, um hematófago. Os pontos de fixação mais comuns deste parasita externo são, muito adequadamente, as partes do corpo onde o seu alimento está facilmente acessível, nas guelras, e é aí que se focam as atenções. Nessa noite vimos cerca de trezentas fanecas. Repetimos no mês seguinte mais uma ou duas noites, para ter uma amostra suficientemente grande e significado estatístico.
O estudo, coordenado pelo professor E, contou com a colaboração preciosa da directora do Centro de Investigação Pesqueira de Matosinhos, que funcionava no barraco de madeira acima referido. Exercendo a sua influência, a direção fez a requisição dos peixes para medição no Centro, e, depois do estudo parasitológico, foram devolvidos à lota para o leilão da manhã. Este procedimento não era regular, pois o pescado não deve sair da lota antes da respectiva venda. Como a investigação sobre aqueles parasitas não afecta a qualidade do peixe, todos os responsáveis assentiram no desvio temporário. Só assim, fora de olhar dos pescadores e com tempo suficiente, foi possível fazer a análise das fanecas sem as comprar. Devo esclarecer que, por norma, a medição de rotina do comprimento de algumas centenas de indivíduos de espécies importantes era (e ainda é) feita na lota, periodicamente, por técnicos do Centro de Investigação Pesqueira, horas antes da venda. Essa informação é indispensável para a avaliação do estado dos recursos pesqueiros.
Umas palavras agora sobre o bizarro bicho comedor de sangue desta memória. Comum na faneca, e podendo parasitar também outras espécies, o Lernaeocera luscii de seu nome passa despercebido a quase todos, apesar de crescer quase até aos dois cm, e é inofensivo para o consumidor humano. Este crustáceo nasce de um ovo pelágico e cresce livre, misturado com outros copépodes do plâncton, parecendo um pequeno camarão. Ao contactar com um hospedeiro, muda de vida e o seu corpo transforma-se profundamente, pouco a pouco, enquanto vai trocando várias vezes de peixe e de espécie, até chegar à faneca que lhe convém. Preso nas guelras, passa a vida adulta como parasita reprodutor, alimentando-se dos fluidos internos do hospedeiro. Nesta fase, após complexa metamorfose, o corpo está já desprovido de tudo o que não é necessário, restando essencialmente as estruturas para a alimentação e a reprodução, parecendo um tubinho translúcido recurvado, com uma massa de ovos no exterior.
O barraco de madeira onde tudo se passou, frigorífico no inverno e estufa no verão, estava já podre quando foi substituído por instalação condigna, anos mais tarde. Quando colaborei no trabalho acima relatado era já utilizador habitual daquele laboratório. Ao longo dos anos, fui lá muitas outras vezes participar na análise mais aprofundada que faziam periodicamente a um grupo seleccionado de espécies, mas a uma quantidade reduzida de indivíduos. Interessei-me primeiro pela faneca, e, depois, pelo areeiro-de-quatro-manchas. Para além dessas amostragens, a direção do Centro ajudou-me muito, requisitando mensalmente duas dúzias de peixes para que eu procedesse à recolha de informação e análise bioquímica no laboratório da Universidade. Os resultados obtidos permitiram a minha progressão na carreira docente. Por isso, estou agradecido ao Centro, à faneca, ao areeiro-de-quatro-manchas, e também ao Lernaeocera luscii.
