FRAUDE EM DÓ MENOR

A 20? A 20? A 20? A voz sussurrada repetia-se ansiosa atrás de mim. Consultei os meus papéis. Depois, lentamente, levantei a mão e, como se estivesse a contar, desdobrei um, dois, três dedos enquanto confirmava mentalmente: a, b, c.

O sinal que fiz correspondia à opção “c”, a resposta certa à pergunta 20. Como já devem ter percebido, estávamos numa prova escrita, um exame final, e era dos difíceis. Pouco depois, a mesma voz insistiu: 27, 27! Não sei a quantas solicitações dei a solução, mais de uma dúzia terão sido, seguramente.

Antes do exame, a dona da voz, uma mosca morta pequena e alourada, chegou-me chorosa, que não podia reprovar mais, que isto e aquilo… Apesar de ser contra a fraude, acabei por aceitar e inventei o gesto com os dedos para não ficar com a culpa. Caso fosse visto por algum professor, estava só a pensar.

Não repeti o favor, se bem que as fraudes nos exames fossem comuns. Para além de casos pontuais, de certa forma compreensiveis, de alguém com dificuldades numa dada matéria mais complexa, havia os profissionais do copianço. Se alguns destes eram discretos, outros eram gabarolas, exibindo com orgulho os seus instrumentos. Eram frequentes rolinhos de papel escondidos em grossas canetas, longas tiras de papel coladas nas bainhas dos decotes e das saias, ou dobradas em concertina, e textos escritos nas coxas e nos braços. Havia outros suportes, dos quais não me lembro neste momento. Definições, esquemas, termos de taxonomia ordenados hierarquicamente, tudo cabia nos sistemas de copiar. Havia quem levasse folhas com respostas preparadas em casa, antecipando possíveis perguntas difíceis. Por vezes tinham sorte.  

A verdade é que autênticas nulidades obtinham o dez para passarem, não a uma mas a todas as disciplinas, mesmo às difíceis. Só com recurso a fraudes é que seria possível a tais ignorantes completarem a licenciatura. Alguns destes, todos professores do ensino básico ou secundário, encontrei-os anos depois, quando a progressão na carreira passou a exigir-lhes a frequência de acções de formação.  Continuavam ignorantes e burlões. Nos cursos de formação contínua para esses professores, nos quais participei ou que coordenei, as tentativas para copiar foram frequentes e descaradas. Houve mesmo um curso de actualização em que se recusaram a responder à avaliação que tinham previamente aceitado. Sem vergonha, mostraram ao que iam, não para aprenderem mas para obterem o certificado sem estudo, sem actualização. Não será necessário fazer esforço sobrehumano para concluir sobre a qualidade do seu desempenho na profissão. Pobres alunos.

Quanto à colega a quem ajudei, uma fraude menor, fi-lo por dó. Terminado o curso, nunca mais a vi. Fiquei com a vaga esperança de que se tenha feito uma professora esforçada.

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