No caminho, envolvida por uma nuvem de poeira, uma carroça de madeira segue rapidamente aos solavancos, puxada por um par de cavalos desgovernados. Ou seriam mulas? A paisagem, uma planície dominada por ervas secas, remete para o Oeste americano. Pergunto-me se já estarão a pensar que isto parece mesmo uma cena de filme. Subitamente, um sobressalto causado pelo metralhar explosivo. Mas não eram tiros, eram rolhas a saltar das garrafas de espumante, transportadas na traseira da carroça. Confirma-se a suspeita, é mesmo filme.
Vi as imagens por cima do ombro, enquanto era empurrado gentilmente para fora da sala. Eu e a restante criançada, a quem era autorizada a permanência, só no início da sessão, para ver os desenhos animados que eram exibidos antes de cada matiné ou serão de cinema, como era costume na época. Era o que a miudagem gostava. Também nos permitiam ver a seleção de “Notícias do Mundo” que antecedia os curtinhos filmes da Disney, mas não nos interessavam. A maioria delas, cuidadosamente escolhidas para glorificar o império, eram aborrecidas. Apenas quando se mostrava algo de desconhecido, como outras terras ou proezas da ciência e da tecnologia, excertos de notícias americanas ou francesas, é que eu prestava alguma atenção.
Aquela era a primeira sessão, após a renovação da sala de cinema do Clube Ferrovia, na antiga Nova Lisboa, em meados dos anos 60 do século passado. O clube pertencia à Companhia do Caminho de Ferro de Benguela, e constituía um pólo de actividades desportivas e recreativas, importante para os funcionários e também para a cidade. Sendo filho de ferroviário, também teve importância para mim, e foi na piscina do clube que aprendi a nadar.
Lembro deste episódio com uma certa regularidade, talvez pelo inesperado da cena, ou pelo sobressalto, não tanto por ser filme. Isto porque não faltava cinema lá em casa.
Com regularidade variável, com visitas ou com familiares, em ocasiões festivas ou fora delas, o lençol branco era esticado na parede e o magnífico Eumig super 8 saía do estojo e instalava-se cuidadosamente num cavalete improvisado. Seguia-se a montagem do sistema e a sempre aguardada projecção. E não era para menos, todos gostavam dos filmes curtos feitos pelo pai, tendo como temas principais o crescimento dos filhos, as viagens dele com amigos, ou as aventuras familiares passadas nos mais diversos pontos de Angola, ou em Portugal continental.
A criançada gostava de tudo, mas preferia ver as curtas metragens comerciais dos estúdios Disney, com aventuras mudas do Pluto ou do Pateta, que não duravam mais de três ou quatro minutos, ou as cenas cómicas do Charlot, igualmente sem som. Eram poucas e vistas repetidamente ao longo dos anos, mas era o que havia, num tempo em que a televisão não tinha ainda chegado, e as idas ao cinema eram poucas e para adultos.
Os filmes conferiam, pela sua singularidade no meio e na época, alguma distinção social a quem sabia filmar, cortar e montar pequenas metragens, sobretudo quando as imagens mostravam paisagens, animais, e gentes da Angola profunda. Pouco me importava. O que eu sentia era outra coisa. Em meu entender, as sessões de cinema em casa contribuíam para a coesão e para a memória familiar. Que saudades.