No final da quarta classe a Escola Primária ofereceu um livro ao melhor aluno. O rapaz já o tinha na mão e todos batiam palmas quando uma das professoras disse bem alto que não podia ser. E porquê? Porque ele era repetente. Mandaram-no embora sem o livro. Uma total falta de sensibilidade, uma grosseria para com aquele que tinha sido mesmo o melhor aluno. O culto da excelência levado ao extremo, uma vez marcado, para sempre manchado.
Lembro este episódio para falar de livros e de méritos, os dois temas que se cruzam nesta memória que se atravessa por meio século.
Não será demasiado sublinhar a grande importância dos livros numa época sem televisão, sem jogos electrónicos, sem computadores ou telemóveis. Nunca eram demais e lembro até a nossa expectativa de crianças para descobrir qual era o minúsculo livrinho da Colecção Formiguinha que vinha dentro do pacote de detergente da roupa, quando as compras chegavam a casa. Ou ainda a pergunta clássica quando visitávamos familiares e amigos: tens livros novos? Tudo servia…
A propósito das questões de mérito, de honrarias e prémios, a percepção que temos sobre se são ou não adequados é enviesada muitas vezes por outros factores e acaba por conter algum enviesamento inconsciente, conforme a nossa própria avaliação. O facto relevante, contudo, é que muitas vezes uma distinção corresponde mesmo ao esforço, ao valor, ao mérito de quem é agraciado.
Ao longo da vida recebi vários reconhecimentos, merecidamente, sem falsa modéstia. Para memória futura, gostaria de mencionar alguns, por serem mais recentes ou porque os evoco com alguma frequência, a propósito de acontecimentos do presente.
Tem especial valor o prémio de melhor aluno a terminar a licenciatura em Biologia no ano de 1983, dado pela Fundação Eng. António de Almeida. Recebi um cheque de 10000 escudos o equivalente hoje a mais de 200€, considerando a actualização do índice médio de preços no consumidor. Na altura deu para comprar um écran para onde projectar os meus diapositivos. Mas não é daqui que vem o valor especial, mas de outra coisa. Em boa verdade, e como principal resultado de ter a melhor classificação nos estudos, foi-me fácil obter um bom emprego, uma posição na universidade. Era o que eu queria, e a estabilidade relativa que daí decorreu facilitou-nos a vida nas décadas que viriam a seguir.
Outros mais recentes, também institucionais, deixaram-me aquela agradável sensação de dever cumprido.
Começo por uma autarquia. Em 2016, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia distinguiu-me com a medalha de mérito profissional “… pelos trabalhos científicos desenvolvidos…”. Para eles, o mais relevante terá sido o estudo que coordenei para a caracterização da Reserva Natural Local do Estuário do Douro, um trabalho de um ano que gostei de executar e para o qual contratei antigas alunos de confiança. Foram essenciais no exigente trabalho de campo, e também no laboratório.
Continuo com outra autarquia. O Conselho Municipal de Ambiente da Câmara do Porto, na reunião de 31/5/2019, aprovou no ponto 6 um voto de Louvor, por unanimidade, pela minha actuação enquanto membro daquele conselho durante quinze anos, desde a sua fundação em 2003. Em grande parte das vezes foi uma desilusão mas fico satisfeito por ter influenciado as políticas ambientais da cidade, com argumentos científicos e durante tanto tempo. Foi assim até me afastar, por sentir que já não podia fazê-lo de forma eficaz, já tinha dificuldade a falar em 2015. A bem da verdade, devo dizer que a ideia não partiu dos membros do conselho afectos à autarquia mas aos representantes das ONG…
Recordo também uma sessão que me deixou “inchado”. Por ter contribuído de forma significativa para a base de dados de imagens da “Casa das Ciências”, portal para professores apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, recebi um cerimonioso agradecimento público, em 2012. Quando o projecto começou tinha poucas imagens. Algumas eram mesmo más. Como a minha colecção fotográfica tem muitos animais e plantas de vários continentes, e também paisagens com aspectos interessantes de geologia, não foi complicado escolher cinco centenas de boas imagens para carregar na base deles. E nem me deu trabalho. Pagaram um mês de ordenado a um antigo aluno que sugeri para o fazer, e acrescentar o texto explicativo de cada uma delas. Mais tarde, foi com surpresa que encontrei um resumo do evento no Youtube.
Um prémio que ficou por receber foi o de “melhor leitor de otólitos do mundo” numa competição que envolveu centenas de especialistas, participantes num congresso sobre avaliação da idade em peixes que decorreu em 2004, na Austrália. Sim, ganhei, mas não o recebi porque faltei ao apuramento dos resultados. Fui declarado vencedor mas estava longe, no muito mais interessante parque nacional conhecido por “Magnetic Island”. Não dei por mal empregue a tarde que passei com a família nessa ilha fantástica, mas não nego que me senti um pouco triste por não ter podido afirmar-me perante os colegas de ofício.
Não posso deixar de mencionar a distinção que os meus amigos me fizeram, propondo e votando favorávelmente em assembleia geral o meu nome para integração na galeria dos presidentes honorários do FAPAS (Fundo Para a Protecção dos Animais Selvagens). Foi em 2017, quando deixei de fazer parte dos corpos gerentes da associação, por razões de saúde, depois de mais de um quarto de século de intensa dedicação.
Não tem o peso dos anteriores mas foi com satisfação que regressei ao Liceu António Nobre, já no início deste milénio. Como antigo aluno da casa, receber um convite para lá ir plantar uma árvore e falar sobre a biodiversidade de Portugal teve um significado pleno de emoções. Foi um exemplar já grande, com dois metros de altura, não me lembro se era carvalho, bordo ou sobreiro, mas arranquei aos professores que me receberam a promessa de lhe aliviar a sede durante o primeiro verão. Não sei se deixaram secar a árvore, como tantas vezes acontece em plantações escolares, mas sinto que ainda lá está, robusta e sombreira.
Outros exemplos poderia descrever mas não os considero relevantes. Se cometo alguma injustiça com tal discriminação, peço desculpa, a memória já não é o que era.
Voltando ao início desta Memória, ficámos no momento em que mandaram o rapaz embora, de orelha caída, talvez arrependido do esforço. A seguir chamaram-me. Assisti de pé enquanto a professora insensível apagava o nome do desgraçado na dedicatória e escrevia o meu. Era um catraio com dez anos mas senti-me envergonhado com a injustiça e porque, de facto, ele era o melhor. Recebi o prémio que não queria, e não lhe dei valor. Era um livro, num tempo em que todos eles eram preciosos, mas nem me lembro qual era nem para onde foi. Nesse dia, em casa, esperava-me o verdadeiro prémio por terminar com sucesso o ensino primário: o meu primeiro relógio de pulso. 
Ainda o guardo.
2 thoughts on “O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA”