ARQUIVO

MAGIRUS

Seria ilusão derivada do conhecimento dos factos? O horizonte dava a sensação de se curvar ligeiramente, mas não tive a calma suficiente para fazer a verificação, porque o suporte onde eu estava empoleirado oscilava demais para que me sentisse minimamente confortável. Dei uma rápida vista de olhos à paisagem da ria, com planos de água … Continue reading MAGIRUS

AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES

O que amêijoas gordas, figos maduros e grades de cerveja têm em comum? Aparentemente nada, mas, nas minhas memórias têm tudo. São protagonistas de uma semana de aventuras interligadas, para lá do limite razoável. No momento, não levantaram questões éticas mais fortes do que o sentido de pertença ao grupo de jovens, levemente irresponsáveis, e … Continue reading AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES

PENSÃO COM VISTA PARA O MAR

Dormir no chão de pedra nua, com o vento a circular livremente no cubículo, janelas sem molduras, há muito carcomidas pelo mar, um bruaá continuado das ondas a espremer-se nas reentrâncias das rochas em volta, era a melhor definição de desconforto. No entanto, constituiu uma experiência única. Pior dormida só na noite passada debaixo da … Continue reading PENSÃO COM VISTA PARA O MAR

CARROÇA DESGOVERNADA

No caminho, envolvida por uma nuvem de poeira, uma carroça de madeira segue rapidamente aos solavancos, puxada por um par de cavalos desgovernados. Ou seriam mulas? A paisagem, uma planície dominada por ervas secas, remete para o Oeste americano. Pergunto-me se já estarão a pensar que isto parece mesmo uma cena de filme. Subitamente, um … Continue reading CARROÇA DESGOVERNADA

LAVADORES, 29 DE DEZEMBRO DE 1984

Estava um dia lindo, depois de uma semana de chuva, frio e vento, como é expectável no inverno. O casamento civil tinha sido em casa, em Valbom, e depois fomos para a Casa Branca, para o “copo-de-água”. Foi uma festa bonita, apenas com a família e amigos mais chegados. Todos à nossa volta pareciam mais … Continue reading LAVADORES, 29 DE DEZEMBRO DE 1984

PEDRADAS NA ÁGUA

Os peixes eram tanto deles como eram meus. Eu só queria vê-los, eles queriam pescá-los. De cada vez que vinha à superfície para respirar, os pescadores empoleirados na falésia deixavam cair um conjunto de impropérios. Depois, começaram a atirar-me argumentos mais pesados: pedras de vários tamanhos. Afinal, eu “estava a assustar” os peixes que eles … Continue reading PEDRADAS NA ÁGUA

AGONIA AO PORTÃO

O que há de comum entre dois recintos abandonados, um em Cabo Verde e outro nos arredores de Berlim? São os dois locais do planeta onde me senti verdadeiramente agoniado. Uma sensação de enjoo, instalando-se lentamente, foi crescendo dentro de mim até se tornar insuportável. Disse que já bastava. Não queria ver mais nada, só … Continue reading AGONIA AO PORTÃO

O CANIVETE MÁGICO

O estalajadeiro (até hoje nunca tinha usado esta palavra) era aldrabão. Em consequência, viu-se aliviado de um presunto. Não é brincadeira, foi o merecido castigo. Eu só soube mais tarde, quando o galhofeiro finalista Z levantou a capa negra de estudante e desvendou o quarto traseiro porcino, como num gesto de magia. Perante as muitas … Continue reading O CANIVETE MÁGICO

SAPATEIRO GULOSO

Só quem entrava se apercebia, e os clientes fungavam: o que é isto? À pergunta mil vezes repetida, ele respondia sempre da mesma maneira: não sinto nada... Cheirava a cola. Daquela antiga, orgânica, que cheirava mesmo mal. Afinal, a origem de tal “aroma” era uma lata velha, escurecida pelo uso continuado, onde se aquecia com … Continue reading SAPATEIRO GULOSO

A CAIXA AZUL

Por paradoxal que possa parecer, a observação do muito pequeno alargou-me os horizontes. A caixa de cartão azul, com imagens sugestivas e tampa de plástico transparente, revelava o conteúdo arrumado em entalhes num bloco de poliestireno expandido, a vulgar esferovite. Caixinhas de diferentes tamanhos, tubinhos com tampa, uma pinça e uma agulha metálicas,  e ainda … Continue reading A CAIXA AZUL

O VELHOTE DOS BONECOS

Parece que foi ontem. Fecho os olhos e vejo-o a sentar-se no passeio, costas apoiadas numa parede ou numa árvore, pois a idade avançada não ajuda. Do saco encardido, feito de serapilheira gasta, tira cuidadosamente o estranho emaranhado de fio de sisal muito sujo, de onde pendem bonecos toscos feitos de madeira esculpida, arame, pedacinhos … Continue reading O VELHOTE DOS BONECOS

AO FIM DO DIA, LABRUGE

Mergulhei no mar, quase oito da noite. O pôr-do-sol de julho preparava as cores de costume, reflexos laranja na água quase sem ondas. Depois da caminhada desde o apeadeiro de Modivas, transpirado, não faltava motivação para largar pasta e roupa, enfiar o calção de banho e correr cem metritos até à praia. Sem vento nem … Continue reading AO FIM DO DIA, LABRUGE

O CANTO DO PÁSSARO

No silêncio morno da tarde, o canto longo e melodioso preenchia o espaço. Repetitivo mas não monótono, era mesmo reconfortante e acompanhou-me em muitas tardes de estudo durante uma boa parte da infância. Saía de uma “caixa” e, se fosse hoje, diríamos ser um som de ambiente, fabricado, e não anda longe da verdade.  O … Continue reading O CANTO DO PÁSSARO

CÁVADO: 100 LITROS DE PROBLEMA

Todos fugiram do laboratório. E a passo rápido, pois o caso não era para menos. Levantada a tampa, um fedor indescritível espalhou-se pelo ar… Nem o grande pé direito, nem a pronta abertura das altas janelas da antiga sala impediram que aquele cheiro orgânico, peganhento, se colasse a tudo e a todos. A tampa era … Continue reading CÁVADO: 100 LITROS DE PROBLEMA

TUTTI ITALIANI MAFIOSI…

Com um sorriso trocista, manhoso até, o empregado de mesa encolheu os ombros enquanto saboreava o espanto nas nossas caras. Tinha acabado de dizer, dentes arreganhados: “Tutti italiani mafiosi…” Isto, depois de apontar com o indicador umas letrinhas impressas nas toalhas de papel onde pousavam os pratos vazios da refeição terminada. Mais coisa menos coisa, … Continue reading TUTTI ITALIANI MAFIOSI…

DENTES

Quantos dos grãos que sentia debaixo dos pés seriam dentes como o meu? Teria passado mais de uma hora de brincadeira de crianças dentro da improvisada piscina natural, cheia de água bem quente, muito quente mesmo? Certamente! E tinha feito bochechos frequentes, amolecendo a gengiva? Claro que sim. Em resultado, o incisivo de leite, já … Continue reading DENTES

QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO?

Ali estava eu, no meio de tantos outros, todos sentados a assistir pacificamente à movimentação dos jogadores, numa coreografia que não compreendia. Os vizinhos meteram conversa, queriam saber se eu estava a gostar. Tinham-me topado. Obviamente, pelo menos para eles, eu não fazia parte do estereótipo que abundava em redor. Não me contive, confessei a … Continue reading QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO?

QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS

Na Serra da Leba, na Serra de Valongo, na Serra Amarela e no meio da cidade, quatro Amigos do Homem pregaram-se-me na memória. Tiveram sortes distintas. Melhor dizendo, tiveram sortes de cão, que é uma expressão com sentidos opostos em função do contexto. E aqui também. O primeiro morreu instantaneamente. Nem sei que cor tinha, … Continue reading QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS

O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA

No final da quarta classe a Escola Primária ofereceu um livro ao melhor aluno. O rapaz já o tinha na mão e todos batiam palmas quando uma das professoras disse bem alto que não podia ser. E porquê? Porque ele era repetente. Mandaram-no embora sem o livro. Uma total falta de sensibilidade, uma grosseria para … Continue reading O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA

PONTO ESCURO EM FUNDO CLARO

Nada se via na neve branca até surgir um ponto escuro ao longe. À medida que se aproximava o ponto ganhou pernas, cabeça e braços, movimentando-se ritmadamente. Depois ficaram nítidos os óculos escuros, os skis, as luvas e os bastões. Só muito de perto pude constatar que era entradote, aparentando 80 ou mais, cara muito … Continue reading PONTO ESCURO EM FUNDO CLARO

O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”

No breu da noite africana, ela está iluminada pela luz crua do Petromax(1) e milhentos insectos esvoaçam em seu redor formando um véu brilhante. Cabelos longos cobrindo metade do rosto, a jovem mulher dedilha ritmadamente as cordas. E canta, sentada na beira do alpendre de madeira tosca. Canta com um sorriso malandro, a condizer com … Continue reading O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”

HÁKARL & ETC.

“Paulinho onde estás? Vem almoçar!” Entretanto, a Mãe chegou à nossa beira. “O minino já comeu.” Assim respondeu a senhora que partilhara comigo a sua refeição, sentados ambos no coradouro da roupa, um grande canteiro só com hortelã. E o que tinha comido? Pirão duro de farinha grosseira de milho amarelo e carapau assado. Mas … Continue reading HÁKARL & ETC.

CASSETETE NO LOMBO

Só acordei quando senti o cassetete a morder o lombo. Na verdade não tinha estado a dormir mas, durante algum tempo, talvez uma vintena de segundos, não sabia o que se tinha passado comigo, em que estado alienado tinha vivido. A dor aguda despertou-me mas não se revelou grave, deixou apenas uma grande marca negra … Continue reading CASSETETE NO LOMBO

DUNA 45

Silêncio. Sol. Sombras ramificadas projectadas no solo, ramos negros recortando o céu muito azul, quase cobalto, em contraste com a imensidão avermelhada que ocupa o horizonte em frente. Dunas. Uma delas, enorme, de curvas suaves, parece mover-se muito lentamente. Pura ilusão. Move-se, sim, mas tão devagar ao longo dos anos que o olhar não conseguiria … Continue reading DUNA 45

TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?

Troar, ribombar, retumbar? Não sei que palavra usar para descrever o som poderoso que nos faz vibrar o peito, qual caixa de ressonância de um instrumento emudecido, sem palavras. Sem falar, pelas emoções no máximo. Perfeitamente compreensível, já que estava na beira de um fenómeno da natureza impressionante. Pelo som, sim, mas também pelas dimensões, … Continue reading TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?

49 METROS ABAIXO DO NÍVEL DO MAR

Libertando-se repetidamente do solo, estalidos metálicos, suaves, quase imperceptíveis. O som vinha de todas as direcções e acentuava-se quando as nuvens se afastavam e deixavam o sol aquecer aquela extensa planície. O piso muito irregular impedia caminhar, era com altos e baixos de lama seca, endurecida por grande quantidade de brilhantes e minúsculos cristais de … Continue reading 49 METROS ABAIXO DO NÍVEL DO MAR

MUNIÇÕES FORA DO PRAZO

No lixo do quartel abandonado pelas tropas portuguesas havia muito material queimado, sem utilidade. O que nos atraiu a atenção foi um amontoado de balas de aspecto antigo, cápsulas oxidadas, muitas  já com verdete. Levámos uma mão cheia delas. Não imaginávamos o perigo que viria de tal infantilidade em período de escaramuças entre os guerrilheiros … Continue reading MUNIÇÕES FORA DO PRAZO

O VCR DE CONTRABANDO

Sem capacete, à boleia de um motociclista benemérito, a viagem de regresso a Saragoça foi penosa. A canela a queimar no escape, o pesado saco de cabedal a doer, pendurado ora num braço ora no outro,  a estrada que nunca mais acabava…  Depois de algumas horas naquela terra que é um grande centro comercial, tinha … Continue reading O VCR DE CONTRABANDO

GIRINOS EM CASA

Quantos cordões de ovos levei do ribeiro para casa? Quantos sapinhos vi desaparecer no quintal? Observar a maravilha das metamorfoses, repetidamente, não cansava os nossos olhos de crianças.  Ao regressar da escola primária, parava muitas vezes no fim da mata que rodeava o bairro onde morávamos. Junto ao pequeno ribeiro que aí corria lentamente, eu … Continue reading GIRINOS EM CASA

CAVEIRA DE CRISTAL

Uma caveira esculpida em tamanho real num grande cristal de quartzo, atribuída aos astecas ou aos maias (1), cabeças encolhidas de vítimas de tribos amazónicas, múmias Incas, clépsidras e tantos outros mecanismos para medição do tempo, armas e armaduras, instrumentos musicais e de navegação, autómatos pioneiros, ferramentas, maquinaria diversa e ainda estranhos aparelhos antigos, um … Continue reading CAVEIRA DE CRISTAL

STÊNCIL QUEIMADO

As palavras estavam do avesso e como que arrepiadas. Decifrar o texto na superfície ondulada do novelo de cinzas foi um desafio. Feitos detectives, entusiasmados na ânsia da descoberta, a rapaziada dissecou lentamente o stêncil queimado que se desfazia a cada toque. As frases ainda legíveis foram verbalizadas lentamente, palavra a palavra, para que todos … Continue reading STÊNCIL QUEIMADO

HOTEL AEROPORTO

No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO

SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!

Vemos as copas das árvores passando rapidamente a poucos metros de nós. Ao longe, em frente, a neve cobre o topo dos montes. Subitamente, um som abafado de surpresa escapa-se das bocas, mãos agarram-se instintivamente. Falta-nos o solo! Estava ali mesmo e num segundo fugiu. Está agora mil metros lá para baixo. Estreita fita prateada, … Continue reading SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!

O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME

Não tinha ainda percorrido duzentos metros e já eu caía do carro. Pulso e joelhos esfolados, e também uma grande amassadela na autoestima. Era o preço de uma decisão menos ponderada, de uma má avaliação e, convenhamos, algum azar.  De visita a familiares, calhou passar o leiteiro no seu veículo adaptado com uma plataforma na … Continue reading O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME

OS LOBINHOS 

Os dois adultos afastaram-se receosos e pudémos aproximar-nos do seu covil, devo confessar que não de modo totalmente confiante. Era um abrigo tosco com 2 lobinhos, bolinhas de pêlo fofo, olhos cinzentos e patas robustas. “Podem pegar neles, se quiserem.“ Quisémos. Ganiam levemente e cheiravam mal, mas mesmo muito mal, a carne em decomposição. Nunca … Continue reading OS LOBINHOS 

JÁ NÃO SE VÊ DISTO

O vendedor percorreu um a um o dicionário de adjectivos, mas só os bons. Primeiro descreveu as qualidades do animal, “admirável” e outros epítetos, depois as do produto, “melhor não encontram”, no mínimo… Chapéu na cabeça, numa mão o microfone, na outra uma varinha, falava do alto de um estrado. A pequena multidão, atraída pelo … Continue reading JÁ NÃO SE VÊ DISTO

NA TENDA

A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual. A ave levantou-se e … Continue reading NA TENDA

NUNCA MAIS!

Cheira mal! Muito mal mesmo, um odor de refinaria, corrosivo, enjoativo... Estamos longe e chega até nós, intenso. Lá ao fundo, duas ou três dezenas de vultos brancos movimentam-se coordenadamente, como num formigueiro. Aproximando-nos até às barreiras, vemos melhor e, afinal, não são bem brancos. Os fatos integrais são alvos, sim, mas estão manchadas de … Continue reading NUNCA MAIS!

AO DESCER O RIO LIMA

Não era uma azenha abandonada. Construção robusta, lages bem encaixadas umas nas outras, aparentava vários séculos de existência. De formato encurvado, interior vazio, atravessada por água entrando por abertura virada a montante e saindo por uma “porta” para jusante, a estrutura mostrava na face das pedras o desgaste e polimento de incontáveis cheias do rio. … Continue reading AO DESCER O RIO LIMA

PEDRA AMARELA

Um azul que nunca tinha visto. Um azul luminoso, à superfície, mas muito carregado, na zona profunda. Em redor, um manto claro, brilhante, quase branco, cobrindo tudo em forte contraste. Uma névoa muito ténue pairando, saindo devagar, como que avisando subtilmente do calor intenso contido no pequeno lago, enganadoramente da cor que é geralmente sinal … Continue reading PEDRA AMARELA

REMA, REMA!

O bicharoco não estava assustado, podia desaparecer quando quisesse. Parecia, isso sim, que se divertia à nossa custa, afundando aqui e emergindo mais além. De máquina fotográfica na mão, eu olhava em volta e pedia ansioso: está ali, rema, rema, Zé! E o Zé, fazendo-me a vontade, remava. Acabei por fazer dois ou três “slides”(1) … Continue reading REMA, REMA!

ESPADAS NA PRAIA

À medida que nos aproximamos, aumenta o reflexo do sol. Brilha em dezenas de espadas, perfeitamente alinhadas umas ao lado das  outras. Não, não são espadas metálicas, embora o prateado intenso assim o sugira. Nem são armas, ainda não passaram muitas horas desde que ainda estavam vivos.  Sábado ao início da manhã. Os abundantes peixes-espada, … Continue reading ESPADAS NA PRAIA

A COMISSÃO E O RIO SABOR

Levantei-me e disse alto e bom som, irritado: “Nesta sala não há mais ninguém além de mim que saiba interpretar toda a informação do documento! Não sou um ecologista qualquer sempre do contra. Estou a debater o assunto baseado em conhecimento e com argumentos técnicos. Por isso, exijo respeito!” Assim mesmo, mais vírgula menos vírgula. … Continue reading A COMISSÃO E O RIO SABOR

EMBARAÇO INFORMÁTICO

A minha cara ferve, rubor intenso. Carrego repetidamente na tecla ESC, sem resultado, e o rato não dá para fechar as imagens que rápida e sucessivamente vão povoando o monitor, sempre mais, cobrindo as anteriores. As duas professoras sentadas a meu lado, já entradotas, incomodadas, desviam o olhar daquelas fotografias dignas das mais populares “revistas … Continue reading EMBARAÇO INFORMÁTICO

QUEREM UM LABORATÓRIO?

Não foi bem com as palavras que dão título a esta memória, foi mais ou menos dissimulado, qualquer coisa como: “Nós fazemos aqui um laboratório para estudar a dinâmica do rio e fica a funcionar durante alguns anos, pagamos as despesas e os senhores professores gerem à vossa maneira…” Foi assim que tentaram subornar-nos para … Continue reading QUEREM UM LABORATÓRIO?

PICOS DA EUROPA (*)

Finalmente uma visita de estudo a um parque estrangeiro! Ambicionada há muito, conseguiu-se reunir um grupo de associados e amigos da Natureza para uma aventura de quatro dias no parque mais antigo de Espanha. No primeiro dia, saímos do Porto com o tradicional atraso. Bastantes horas depois, estávamos em León. A partir daí, a viagem … Continue reading PICOS DA EUROPA (*)

PULMÃO VERDE

Sentia-me completamente isolado no meio da floresta. Caminhava na sombra das grandes árvores, pouca luz atravessava a espessa camada de folhas. Estava quente, daquele calor húmido típico da região, e a passarada cantava um repertório desconhecido para mim enquanto saltava de ramo em ramo. Solo enlameado, cheiro ácido a matéria orgânica, a marca bem visível … Continue reading PULMÃO VERDE

AS ÁRVORES DA DISCÓRDIA

O sol ainda não tinha nascido já éramos muitos na serra, ao frio do inverno, e estava longe de imaginar todas as consequências do que estava para acontecer. Antes dos motoristas chegarem às máquinas de rasto, os activistas acorrentaram-se a elas de modo a impedir o seu funcionamento. A população da aldeia juntou-se em redor, … Continue reading AS ÁRVORES DA DISCÓRDIA

CORISTAS VELHAS E MONGES CALADOS

No palco, duas bailarinas sexagenárias balançam-se malandramente, tentando acompanhar a música de jazz que a orquestra de quatro séniores ainda mais serôdios tocam nos seus instrumentos, também estes já muito gastos. A sala envelhecida, com veludos vermelhos, colunas forradas a espelhos e painéis pintados a fingir de mármore, mantém-se inalterada desde a primeira metade do … Continue reading CORISTAS VELHAS E MONGES CALADOS

MÚSICA

O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do  Budokan … Continue reading MÚSICA

CLIENTE ASSÍDUO

Um dia descobri a sua existência e não mais a larguei. Vinha ao bairro uma vez por semana, em dia certo, esperava os clientes assíduos, e apelava aos transeuntes tentando ampliar a clientela. Fazia-se transportar num enorme furgão branco de formato inconfundível e era conhecida por todos. Era a biblioteca Itinerante e fazia parte da … Continue reading CLIENTE ASSÍDUO

GOLFINHOS DE POTÊNCIA

O ambiente é abafado, muito barulhento e mal-cheiroso, quase insuportável. O espaço é apertado e tem entranhado o rasto de mil peúgas e dos respectivos donos, transpirados do trabalho duro. Difícil de imaginar como é possível descansar nestas condições, mas este é um pensamento de quem não está habituado a estas lides. Estou a ver-me … Continue reading GOLFINHOS DE POTÊNCIA

A BATALHA

Foi memorável a batalha! Tínhamos conseguido atingir-nos uns aos outros com projécteis vermelhos e peganhentos, tudo  numa grande algazarra de adolescentes, corria o ano de 1972. O pouco simpático professor de matemática tinha faltado e a malta correu para o pomar que ficava nas traseiras da escola, a extensão de Camacupa do Liceu Silva Cunha, … Continue reading A BATALHA

UMA AULA ESPECIAL

Terminei a aula dizendo: Estes são os factos e agora terão de decidir se só querem fazer parte do problema ou também parte da solução. Não sou o autor desta frase, que tenho usado em vários contextos e com formulações ligeiramente diferentes, mas considero-a bastante mobilizadora. A aula correu muito bem e, posteriormente, fui sabendo … Continue reading UMA AULA ESPECIAL

PALESTRA NO MUSEU

No final bateram palmas, mas fiquei com a sensação desagradável de não ter correspondido ao que a audiência estava à espera. Talvez tivesse enxertado biologia a mais e história a menos, mas então qual a razão de terem contactado um biólogo? A sala estava cheia de gente especial. Não conhecia ninguém, mas não admira pois … Continue reading PALESTRA NO MUSEU

FOTOGRAFIA COM PELOS

Olhava  para nós sem  medo, talvez por se encontrar em posição mais elevada, protegida. Parecia estar isolado, não se via a família. Lentamente encurtámos a distância e, muito próximos, fizemos algumas fotografias, mesmo a tempo, antes dos três saltos rápidos por entre as pedras com que desapareceu silenciosamente. Foi já a meio do regresso ao … Continue reading FOTOGRAFIA COM PELOS

SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE

Não era a pior comida do mundo, e nunca me incomodou muito tê-la frequentemente. Mas é melhor explicar. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, vivíamos nós no Lobito, em Angola, muitas refeições eram bastante desinteressantes, o mínimo que se poderia dizer. Na verdade, era frequente termos vários dias consecutivos em que, … Continue reading SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE

AVES

Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta. Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos … Continue reading AVES

NEANDERTAIS

Desde que ouvi falar deles eu dizia muitas vezes: eles andam aí no meio de nós. À medida que fui lendo as descobertas da genética moderna, que revelam a presença de genes dos Neandertais nas populações humanas actuais, fui confirmando o que sentia e afirmava por brincadeira. O dicionário diz: ne·an·der·tal |niãdèrtál| (Neandertal, topónimo [região … Continue reading NEANDERTAIS

PAREDES AO ALTO

Estou na água. Em redor, a paisagem é esmagadora. Em cada margem levantam-se escarpas a pique com mais de 200 metros de altura. O quase silêncio é intenso, transcendental, apenas o marulhar, um suave pio, a respiração compassada. Lá em cima, bem alto no céu, os abutres a voar. Na água esverdeada uma carpa salta … Continue reading PAREDES AO ALTO

DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!

“Professor! Don't do it again, please!” Esta foi a frase que quebrou a tensão e originou uma gargalhada geral. Quem a proferiu foi o professor Andrzej Łysak, na altura no Porto a convite do professor João Machado Cruz. Durante alguns meses, em 1982-3, contribuíu para a formação dos doze finalistas da licenciatura em Biologia, ramo … Continue reading DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!

VER A ENCICLOPÉDIA

Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção  chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA

COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO

Pouco depois de entrar no país pela fronteira de Vilar Formoso, era hora de almoço. Restaurante de beira de estrada,  escolher mesa, mandar vir prato do dia, costeletas de porco. E para beber? Venha uma garrafa de Porto! Vinha de França à boleia num camião TIR. Terminadas as vindimas de 1981 na zona de Bordéus, … Continue reading COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO

O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO

“Andei todos estes anos a ensinar mal aos meus alunos”. Esta expressão, ou melhor, confissão pública bem sentida, ouvi-a da boca de uma professora do ensino básico já com meio século de vida, e foi feita na discussão que se seguiu a propósito de uma palestra sobre a conservação de répteis e anfíbios. O orador, … Continue reading O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO