Seria ilusão derivada do conhecimento dos factos? O horizonte dava a sensação de se curvar ligeiramente, mas não tive a calma suficiente para fazer a verificação, porque o suporte onde eu estava empoleirado oscilava demais para que me sentisse minimamente confortável. Dei uma rápida vista de olhos à paisagem da ria, com planos de água … Continue reading MAGIRUS
ARQUIVO
AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES
O que amêijoas gordas, figos maduros e grades de cerveja têm em comum? Aparentemente nada, mas, nas minhas memórias têm tudo. São protagonistas de uma semana de aventuras interligadas, para lá do limite razoável. No momento, não levantaram questões éticas mais fortes do que o sentido de pertença ao grupo de jovens, levemente irresponsáveis, e … Continue reading AMÊIJOAS, FIGOS E GRADES
CAMA DE BATATAS
O meu pai deu-me a chave de casa aos doze anos. Fiquei inchado de orgulho, pois nenhum dos meus colegas tinha direito a tal privilégio. Era para andar com ela no bolso, para entrar no regresso do liceu, hora a que não havia ninguém para me abrir a porta. Talvez um ano depois, tive autorização … Continue reading CAMA DE BATATAS
PENSÃO COM VISTA PARA O MAR
Dormir no chão de pedra nua, com o vento a circular livremente no cubículo, janelas sem molduras, há muito carcomidas pelo mar, um bruaá continuado das ondas a espremer-se nas reentrâncias das rochas em volta, era a melhor definição de desconforto. No entanto, constituiu uma experiência única. Pior dormida só na noite passada debaixo da … Continue reading PENSÃO COM VISTA PARA O MAR
CARROÇA DESGOVERNADA
No caminho, envolvida por uma nuvem de poeira, uma carroça de madeira segue rapidamente aos solavancos, puxada por um par de cavalos desgovernados. Ou seriam mulas? A paisagem, uma planície dominada por ervas secas, remete para o Oeste americano. Pergunto-me se já estarão a pensar que isto parece mesmo uma cena de filme. Subitamente, um … Continue reading CARROÇA DESGOVERNADA
VICENTINAS
A música de Verdi ouvia-se ao longe, todos os anos era a mesma coisa. Não descortino qual a razão pela qual o coro dos escravos, mas sobretudo a marcha triunfal de Aída, eram as mais usadas. Sei que assim se chamavam, pois cedo o descobri ao escutar os discos da coleção familiar. Haveria outras músicas, … Continue reading VICENTINAS
LAVADORES, 29 DE DEZEMBRO DE 1984
Estava um dia lindo, depois de uma semana de chuva, frio e vento, como é expectável no inverno. O casamento civil tinha sido em casa, em Valbom, e depois fomos para a Casa Branca, para o “copo-de-água”. Foi uma festa bonita, apenas com a família e amigos mais chegados. Todos à nossa volta pareciam mais … Continue reading LAVADORES, 29 DE DEZEMBRO DE 1984
PEDRADAS NA ÁGUA
Os peixes eram tanto deles como eram meus. Eu só queria vê-los, eles queriam pescá-los. De cada vez que vinha à superfície para respirar, os pescadores empoleirados na falésia deixavam cair um conjunto de impropérios. Depois, começaram a atirar-me argumentos mais pesados: pedras de vários tamanhos. Afinal, eu “estava a assustar” os peixes que eles … Continue reading PEDRADAS NA ÁGUA
AGONIA AO PORTÃO
O que há de comum entre dois recintos abandonados, um em Cabo Verde e outro nos arredores de Berlim? São os dois locais do planeta onde me senti verdadeiramente agoniado. Uma sensação de enjoo, instalando-se lentamente, foi crescendo dentro de mim até se tornar insuportável. Disse que já bastava. Não queria ver mais nada, só … Continue reading AGONIA AO PORTÃO
O CANIVETE MÁGICO
O estalajadeiro (até hoje nunca tinha usado esta palavra) era aldrabão. Em consequência, viu-se aliviado de um presunto. Não é brincadeira, foi o merecido castigo. Eu só soube mais tarde, quando o galhofeiro finalista Z levantou a capa negra de estudante e desvendou o quarto traseiro porcino, como num gesto de magia. Perante as muitas … Continue reading O CANIVETE MÁGICO
JÁ VIU A SUA MÃO?
“Já viu a sua mão?” Foi o que a seca pessoa de bata branca me perguntou. Pegou-me na mão, virou-a e revirou-a, e em seguida disse-me para juntar as mãos, apoiando as palmas no tampo da sua mesa. Só então, vendo-as bem lado a lado, me dei conta da diferença. “Há quanto tempo está assim?” … Continue reading JÁ VIU A SUA MÃO?
CÔCOS E QUITETAS
Atirar pedras a côcos não era a coisa mais divertida para fazer? Claro que sim! E tentar mais uma vez, e outra, e outra, até conseguir derrubar um deles, não era uma vitória para a criançada? Era sim. O mais fácil estava feito mas, para atingir o merecido prémio, faltava o mais trabalhoso. Primeiro, regressar … Continue reading CÔCOS E QUITETAS
NÃO É PEIXE
Ao vê-lo, meditei no nome com que os antigos o baptizaram, uma dupla mentira. Melhor dizendo, e como certamente não tinham intenção de ludibriar ninguém, apenas descrever um ser nunca antes visto, usando a terminologia rudimentar da época, será mais acertado dizer que é um duplo engano. Sim, vive no ambiente aquático e nada, mas … Continue reading NÃO É PEIXE
SAPATEIRO GULOSO
Só quem entrava se apercebia, e os clientes fungavam: o que é isto? À pergunta mil vezes repetida, ele respondia sempre da mesma maneira: não sinto nada... Cheirava a cola. Daquela antiga, orgânica, que cheirava mesmo mal. Afinal, a origem de tal “aroma” era uma lata velha, escurecida pelo uso continuado, onde se aquecia com … Continue reading SAPATEIRO GULOSO
A CAIXA AZUL
Por paradoxal que possa parecer, a observação do muito pequeno alargou-me os horizontes. A caixa de cartão azul, com imagens sugestivas e tampa de plástico transparente, revelava o conteúdo arrumado em entalhes num bloco de poliestireno expandido, a vulgar esferovite. Caixinhas de diferentes tamanhos, tubinhos com tampa, uma pinça e uma agulha metálicas, e ainda … Continue reading A CAIXA AZUL
O VELHOTE DOS BONECOS
Parece que foi ontem. Fecho os olhos e vejo-o a sentar-se no passeio, costas apoiadas numa parede ou numa árvore, pois a idade avançada não ajuda. Do saco encardido, feito de serapilheira gasta, tira cuidadosamente o estranho emaranhado de fio de sisal muito sujo, de onde pendem bonecos toscos feitos de madeira esculpida, arame, pedacinhos … Continue reading O VELHOTE DOS BONECOS
BOLACHAS COM FIAMBRE
Uma das memórias muito difusas que guardo, talvez a mais antiga de que me lembro, é uma cena muito curta com o meu avô António. Terá sido em 1964, data em que o meu pai teve direito a umas férias no que então era conhecido pela metrópole, ou seja, Portugal continental. Penso que ainda não … Continue reading BOLACHAS COM FIAMBRE
AFINAL NÃO DESCARRILA
Quando somos miúdos fazemos coisas muito estúpidas e sem pensar nas consequências. Sei hoje que a escola primária distava de casa cerca de 800 metros e eu fazia diariamente o caminho, que na altura parecia muito maior, pasta na mão e bata vestida. Primeiro tinha que chegar ao fim do bairro. Depois, atravessava um eucaliptal … Continue reading AFINAL NÃO DESCARRILA
MÃO PINTADA
Uma mão pintada é um símbolo com muita força. E é-o hoje, tal como tem sido ao longo da história das populações humanas neste planeta. A figura que tinha na minha frente era a prova disso mesmo. Na superfície calcária, várias mãos pintadas eram bem visíveis, apesar da penumbra geral. Mãos claras, rodeadas de pigmento … Continue reading MÃO PINTADA
PESCAR LAGARTOS
Nos anos 60, o nosso quintal tinha lagartos verdes, gordos e muito rápidos, que eu não conseguia agarrar. Um dia, não sei como me ocorreu a ideia, torci um alfinete, prendi-o numa linha de costura, apanhei um gafanhoto e amarrei-o no alfinete, bem vivo e a espernear. Depois, coloquei o instrumento de pesca junto ao … Continue reading PESCAR LAGARTOS
AO FIM DO DIA, LABRUGE
Mergulhei no mar, quase oito da noite. O pôr-do-sol de julho preparava as cores de costume, reflexos laranja na água quase sem ondas. Depois da caminhada desde o apeadeiro de Modivas, transpirado, não faltava motivação para largar pasta e roupa, enfiar o calção de banho e correr cem metritos até à praia. Sem vento nem … Continue reading AO FIM DO DIA, LABRUGE
CEMITÉRIO DO PÈRE-LACHAISE
Primeira vez em Paris, bolso pouco abonado, percorri a pé as ruas à beira do Sena, vi monumentos, entrei nos museus, conversei com este e aquele, mas a coisa mais inesperada que me aconteceu foi o convite de um americano que encontrei na pousada de juventude. Era para ir ao cemitério ver a campa do … Continue reading CEMITÉRIO DO PÈRE-LACHAISE
KISSÂNGUA
Quatro galfarros sentados à mesa tosca, coberta de linóleo. Ou seriam cinco? Não importa. Um copo para cada um e, no meio, uma garrafa de litro. Por trás das gotículas condensadas no vidro, um líquido esbranquiçado adivinhava-se dentro dos copos e da garrafa quase vazia.Lá fora, as bicicletas encostadas à parede esperavam para nos levar … Continue reading KISSÂNGUA
O CANTO DO PÁSSARO
No silêncio morno da tarde, o canto longo e melodioso preenchia o espaço. Repetitivo mas não monótono, era mesmo reconfortante e acompanhou-me em muitas tardes de estudo durante uma boa parte da infância. Saía de uma “caixa” e, se fosse hoje, diríamos ser um som de ambiente, fabricado, e não anda longe da verdade. O … Continue reading O CANTO DO PÁSSARO
CÁVADO: 100 LITROS DE PROBLEMA
Todos fugiram do laboratório. E a passo rápido, pois o caso não era para menos. Levantada a tampa, um fedor indescritível espalhou-se pelo ar… Nem o grande pé direito, nem a pronta abertura das altas janelas da antiga sala impediram que aquele cheiro orgânico, peganhento, se colasse a tudo e a todos. A tampa era … Continue reading CÁVADO: 100 LITROS DE PROBLEMA
CINEMA PROIBIDO
No Lobito, por volta de 1970, passou um filme proibido a menores de 21 anos. A notícia correu depressa e alguns miúdos do bairro, catraios de 11 ou 12 anos, combinaram a grande aventura. No dia marcado, quando o filme começou, era já de noite. Como o Cinema Baía era ao ar livre, trepámos ao … Continue reading CINEMA PROIBIDO
TUTTI ITALIANI MAFIOSI…
Com um sorriso trocista, manhoso até, o empregado de mesa encolheu os ombros enquanto saboreava o espanto nas nossas caras. Tinha acabado de dizer, dentes arreganhados: “Tutti italiani mafiosi…” Isto, depois de apontar com o indicador umas letrinhas impressas nas toalhas de papel onde pousavam os pratos vazios da refeição terminada. Mais coisa menos coisa, … Continue reading TUTTI ITALIANI MAFIOSI…
DENTES
Quantos dos grãos que sentia debaixo dos pés seriam dentes como o meu? Teria passado mais de uma hora de brincadeira de crianças dentro da improvisada piscina natural, cheia de água bem quente, muito quente mesmo? Certamente! E tinha feito bochechos frequentes, amolecendo a gengiva? Claro que sim. Em resultado, o incisivo de leite, já … Continue reading DENTES
QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO?
Ali estava eu, no meio de tantos outros, todos sentados a assistir pacificamente à movimentação dos jogadores, numa coreografia que não compreendia. Os vizinhos meteram conversa, queriam saber se eu estava a gostar. Tinham-me topado. Obviamente, pelo menos para eles, eu não fazia parte do estereótipo que abundava em redor. Não me contive, confessei a … Continue reading QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO?
QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS
Na Serra da Leba, na Serra de Valongo, na Serra Amarela e no meio da cidade, quatro Amigos do Homem pregaram-se-me na memória. Tiveram sortes distintas. Melhor dizendo, tiveram sortes de cão, que é uma expressão com sentidos opostos em função do contexto. E aqui também. O primeiro morreu instantaneamente. Nem sei que cor tinha, … Continue reading QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS
O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA
No final da quarta classe a Escola Primária ofereceu um livro ao melhor aluno. O rapaz já o tinha na mão e todos batiam palmas quando uma das professoras disse bem alto que não podia ser. E porquê? Porque ele era repetente. Mandaram-no embora sem o livro. Uma total falta de sensibilidade, uma grosseria para … Continue reading O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA
PONTO ESCURO EM FUNDO CLARO
Nada se via na neve branca até surgir um ponto escuro ao longe. À medida que se aproximava o ponto ganhou pernas, cabeça e braços, movimentando-se ritmadamente. Depois ficaram nítidos os óculos escuros, os skis, as luvas e os bastões. Só muito de perto pude constatar que era entradote, aparentando 80 ou mais, cara muito … Continue reading PONTO ESCURO EM FUNDO CLARO
O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”
No breu da noite africana, ela está iluminada pela luz crua do Petromax(1) e milhentos insectos esvoaçam em seu redor formando um véu brilhante. Cabelos longos cobrindo metade do rosto, a jovem mulher dedilha ritmadamente as cordas. E canta, sentada na beira do alpendre de madeira tosca. Canta com um sorriso malandro, a condizer com … Continue reading O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”
MAÇAROCAS NO MOTOR
Fumegante, parado na beira da estrada, o velho jipe não andava nem mais um metro. Levantado o capô, nuvens brancas saíam do radiador fervente em forte contraste com os nossos rostos e vestuário. Estávamos avermelhados, e muito, do pó levantado do piso pelas poucas viaturas que tinham passado por nós, naquele sábado em que um … Continue reading MAÇAROCAS NO MOTOR
HÁKARL & ETC.
“Paulinho onde estás? Vem almoçar!” Entretanto, a Mãe chegou à nossa beira. “O minino já comeu.” Assim respondeu a senhora que partilhara comigo a sua refeição, sentados ambos no coradouro da roupa, um grande canteiro só com hortelã. E o que tinha comido? Pirão duro de farinha grosseira de milho amarelo e carapau assado. Mas … Continue reading HÁKARL & ETC.
CASSETETE NO LOMBO
Só acordei quando senti o cassetete a morder o lombo. Na verdade não tinha estado a dormir mas, durante algum tempo, talvez uma vintena de segundos, não sabia o que se tinha passado comigo, em que estado alienado tinha vivido. A dor aguda despertou-me mas não se revelou grave, deixou apenas uma grande marca negra … Continue reading CASSETETE NO LOMBO
DUNA 45
Silêncio. Sol. Sombras ramificadas projectadas no solo, ramos negros recortando o céu muito azul, quase cobalto, em contraste com a imensidão avermelhada que ocupa o horizonte em frente. Dunas. Uma delas, enorme, de curvas suaves, parece mover-se muito lentamente. Pura ilusão. Move-se, sim, mas tão devagar ao longo dos anos que o olhar não conseguiria … Continue reading DUNA 45
TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?
Troar, ribombar, retumbar? Não sei que palavra usar para descrever o som poderoso que nos faz vibrar o peito, qual caixa de ressonância de um instrumento emudecido, sem palavras. Sem falar, pelas emoções no máximo. Perfeitamente compreensível, já que estava na beira de um fenómeno da natureza impressionante. Pelo som, sim, mas também pelas dimensões, … Continue reading TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?
49 METROS ABAIXO DO NÍVEL DO MAR
Libertando-se repetidamente do solo, estalidos metálicos, suaves, quase imperceptíveis. O som vinha de todas as direcções e acentuava-se quando as nuvens se afastavam e deixavam o sol aquecer aquela extensa planície. O piso muito irregular impedia caminhar, era com altos e baixos de lama seca, endurecida por grande quantidade de brilhantes e minúsculos cristais de … Continue reading 49 METROS ABAIXO DO NÍVEL DO MAR
MUNIÇÕES FORA DO PRAZO
No lixo do quartel abandonado pelas tropas portuguesas havia muito material queimado, sem utilidade. O que nos atraiu a atenção foi um amontoado de balas de aspecto antigo, cápsulas oxidadas, muitas já com verdete. Levámos uma mão cheia delas. Não imaginávamos o perigo que viria de tal infantilidade em período de escaramuças entre os guerrilheiros … Continue reading MUNIÇÕES FORA DO PRAZO
O VCR DE CONTRABANDO
Sem capacete, à boleia de um motociclista benemérito, a viagem de regresso a Saragoça foi penosa. A canela a queimar no escape, o pesado saco de cabedal a doer, pendurado ora num braço ora no outro, a estrada que nunca mais acabava… Depois de algumas horas naquela terra que é um grande centro comercial, tinha … Continue reading O VCR DE CONTRABANDO
GIRINOS EM CASA
Quantos cordões de ovos levei do ribeiro para casa? Quantos sapinhos vi desaparecer no quintal? Observar a maravilha das metamorfoses, repetidamente, não cansava os nossos olhos de crianças. Ao regressar da escola primária, parava muitas vezes no fim da mata que rodeava o bairro onde morávamos. Junto ao pequeno ribeiro que aí corria lentamente, eu … Continue reading GIRINOS EM CASA
CAVEIRA DE CRISTAL
Uma caveira esculpida em tamanho real num grande cristal de quartzo, atribuída aos astecas ou aos maias (1), cabeças encolhidas de vítimas de tribos amazónicas, múmias Incas, clépsidras e tantos outros mecanismos para medição do tempo, armas e armaduras, instrumentos musicais e de navegação, autómatos pioneiros, ferramentas, maquinaria diversa e ainda estranhos aparelhos antigos, um … Continue reading CAVEIRA DE CRISTAL
TREINO MILITAR
Deram um par de botas verdes de lona e uma farda a cada um. Uma semana depois devolvi a farda e fiquei com as botas. Sim, o meu treino militar teve a duração de uma semana, e mais não quis. No ano de 1974, as forças armadas de cada um dos movimentos de libertação de … Continue reading TREINO MILITAR
STÊNCIL QUEIMADO
As palavras estavam do avesso e como que arrepiadas. Decifrar o texto na superfície ondulada do novelo de cinzas foi um desafio. Feitos detectives, entusiasmados na ânsia da descoberta, a rapaziada dissecou lentamente o stêncil queimado que se desfazia a cada toque. As frases ainda legíveis foram verbalizadas lentamente, palavra a palavra, para que todos … Continue reading STÊNCIL QUEIMADO
HOTEL AEROPORTO
No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO
SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!
Vemos as copas das árvores passando rapidamente a poucos metros de nós. Ao longe, em frente, a neve cobre o topo dos montes. Subitamente, um som abafado de surpresa escapa-se das bocas, mãos agarram-se instintivamente. Falta-nos o solo! Estava ali mesmo e num segundo fugiu. Está agora mil metros lá para baixo. Estreita fita prateada, … Continue reading SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!
O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME
Não tinha ainda percorrido duzentos metros e já eu caía do carro. Pulso e joelhos esfolados, e também uma grande amassadela na autoestima. Era o preço de uma decisão menos ponderada, de uma má avaliação e, convenhamos, algum azar. De visita a familiares, calhou passar o leiteiro no seu veículo adaptado com uma plataforma na … Continue reading O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME
OS LOBINHOS
Os dois adultos afastaram-se receosos e pudémos aproximar-nos do seu covil, devo confessar que não de modo totalmente confiante. Era um abrigo tosco com 2 lobinhos, bolinhas de pêlo fofo, olhos cinzentos e patas robustas. “Podem pegar neles, se quiserem.“ Quisémos. Ganiam levemente e cheiravam mal, mas mesmo muito mal, a carne em decomposição. Nunca … Continue reading OS LOBINHOS
CHEIRA A MAR!
Depois de algumas horas de viagem, a estrada abandona as rectas intermináveis e começa a curvar-se, primeiro suavemente, depois de forma mais pronunciada, adaptando-se à orografia da paisagem. Um de nós exclama subitamente: Já cheira a mar! É o segundo sinal de aproximação do fim da viagem, depois das curvas da via terem avisado. Faltam … Continue reading CHEIRA A MAR!
JÁ NÃO SE VÊ DISTO
O vendedor percorreu um a um o dicionário de adjectivos, mas só os bons. Primeiro descreveu as qualidades do animal, “admirável” e outros epítetos, depois as do produto, “melhor não encontram”, no mínimo… Chapéu na cabeça, numa mão o microfone, na outra uma varinha, falava do alto de um estrado. A pequena multidão, atraída pelo … Continue reading JÁ NÃO SE VÊ DISTO
PERDIDO
Sabem dizer-me como se vai para a agência funerária Santa Cruz? Foi assim que perguntei na mesa do tasco, a primeira a seguir à porta. Sorrisos divertidos nas faces dos homens, rodeados de finos e pratinhos com ginguba. Antes que qualquer deles falasse, ouvi: “Paulinho! O que fazes aqui?” Aquela voz cantada era conhecida. Virei-me … Continue reading PERDIDO
NA TENDA
A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual. A ave levantou-se e … Continue reading NA TENDA
NUNCA MAIS!
Cheira mal! Muito mal mesmo, um odor de refinaria, corrosivo, enjoativo... Estamos longe e chega até nós, intenso. Lá ao fundo, duas ou três dezenas de vultos brancos movimentam-se coordenadamente, como num formigueiro. Aproximando-nos até às barreiras, vemos melhor e, afinal, não são bem brancos. Os fatos integrais são alvos, sim, mas estão manchadas de … Continue reading NUNCA MAIS!
AO DESCER O RIO LIMA
Não era uma azenha abandonada. Construção robusta, lages bem encaixadas umas nas outras, aparentava vários séculos de existência. De formato encurvado, interior vazio, atravessada por água entrando por abertura virada a montante e saindo por uma “porta” para jusante, a estrutura mostrava na face das pedras o desgaste e polimento de incontáveis cheias do rio. … Continue reading AO DESCER O RIO LIMA
PEDRA AMARELA
Um azul que nunca tinha visto. Um azul luminoso, à superfície, mas muito carregado, na zona profunda. Em redor, um manto claro, brilhante, quase branco, cobrindo tudo em forte contraste. Uma névoa muito ténue pairando, saindo devagar, como que avisando subtilmente do calor intenso contido no pequeno lago, enganadoramente da cor que é geralmente sinal … Continue reading PEDRA AMARELA
ERVAMOIRA
Era perfeita, nunca tinha visto igual. As almofadas oblongas bem marcadas e os traços deixados pelas longas unhas não deixavam lugar para dúvidas. Na margem do rio Côa, ainda o sol se levantava e uma neblina suave pairava sobre a água, dei com ela em cama de areia fina, ainda húmida da noite. No meio … Continue reading ERVAMOIRA
NO COMBOIO DE VIGO
Aos meus pés ia um grande saco com bananas verdes, mas não eram minhas. O guarda fiscal assumiu que o eram e nada perguntou. Eu nada disse. O mesmo sucedeu com mais três ou quatro ocupantes na carruagem. Estranho, mas foi mesmo assim. E, em muitas das viagens de regresso ao Porto, vindo de Vigo … Continue reading NO COMBOIO DE VIGO
A FISGA
Poc! O passarinho caiu ao solo mesmo em frente aos meus pés. Imediatamente senti pena do bichinho frágil, muito mais intensa do que a satisfação infantil de ter pela primeira vez ter acertado num alvo. Naquele tempo quase todos os miúdos tinham fisga, feita de um pau bifurcado, duas tiras de borracha aproveitada de uma … Continue reading A FISGA
REMA, REMA!
O bicharoco não estava assustado, podia desaparecer quando quisesse. Parecia, isso sim, que se divertia à nossa custa, afundando aqui e emergindo mais além. De máquina fotográfica na mão, eu olhava em volta e pedia ansioso: está ali, rema, rema, Zé! E o Zé, fazendo-me a vontade, remava. Acabei por fazer dois ou três “slides”(1) … Continue reading REMA, REMA!
A CAIXA DE CARTÃO
O homem atrás do balcão pegou na caixa que o outro homem trazia, espreitou por uma frincha e acenou afirmativamente com a cabeça. Em seguida, pousou-a no chão e deu-lhe dois tiros. Assim mesmo. O à-vontade com que o fez, mesmo com pessoas na loja, a arma de pressão-de-ar pronta e o código de comunicação … Continue reading A CAIXA DE CARTÃO
ESPADAS NA PRAIA
À medida que nos aproximamos, aumenta o reflexo do sol. Brilha em dezenas de espadas, perfeitamente alinhadas umas ao lado das outras. Não, não são espadas metálicas, embora o prateado intenso assim o sugira. Nem são armas, ainda não passaram muitas horas desde que ainda estavam vivos. Sábado ao início da manhã. Os abundantes peixes-espada, … Continue reading ESPADAS NA PRAIA
A COMISSÃO E O RIO SABOR
Levantei-me e disse alto e bom som, irritado: “Nesta sala não há mais ninguém além de mim que saiba interpretar toda a informação do documento! Não sou um ecologista qualquer sempre do contra. Estou a debater o assunto baseado em conhecimento e com argumentos técnicos. Por isso, exijo respeito!” Assim mesmo, mais vírgula menos vírgula. … Continue reading A COMISSÃO E O RIO SABOR
EMBARAÇO INFORMÁTICO
A minha cara ferve, rubor intenso. Carrego repetidamente na tecla ESC, sem resultado, e o rato não dá para fechar as imagens que rápida e sucessivamente vão povoando o monitor, sempre mais, cobrindo as anteriores. As duas professoras sentadas a meu lado, já entradotas, incomodadas, desviam o olhar daquelas fotografias dignas das mais populares “revistas … Continue reading EMBARAÇO INFORMÁTICO
QUEREM UM LABORATÓRIO?
Não foi bem com as palavras que dão título a esta memória, foi mais ou menos dissimulado, qualquer coisa como: “Nós fazemos aqui um laboratório para estudar a dinâmica do rio e fica a funcionar durante alguns anos, pagamos as despesas e os senhores professores gerem à vossa maneira…” Foi assim que tentaram subornar-nos para … Continue reading QUEREM UM LABORATÓRIO?
ÓCULOS EMBACIADOS
A humidade satura o ar e, apesar da altitude e do vento fresco, sentia na cara o calor da caminhada. Tinha chuviscado, vegetação e solo completamente encharcados. De cada vez que olho para cima na tentativa de localizar as aves que ouço piar, ou que o guia vê e me indica, o vapor que se … Continue reading ÓCULOS EMBACIADOS
PICOS DA EUROPA (*)
Finalmente uma visita de estudo a um parque estrangeiro! Ambicionada há muito, conseguiu-se reunir um grupo de associados e amigos da Natureza para uma aventura de quatro dias no parque mais antigo de Espanha. No primeiro dia, saímos do Porto com o tradicional atraso. Bastantes horas depois, estávamos em León. A partir daí, a viagem … Continue reading PICOS DA EUROPA (*)
ARCO-ÍRIS VOADOR
Eram tantos à nossa volta, e estavam ali tão perto! Quase lhes chegava com a mão. Fiz dezenas de fotografias, sabendo de antemão que a maioria delas ficaria mal, tremidas, desfocadas, desenquadradas. Mas sentia na minha cara aquele sorriso babado e feliz por estar ali a assistir a tão belo espectáculo da natureza. Já tinha … Continue reading ARCO-ÍRIS VOADOR
PULMÃO VERDE
Sentia-me completamente isolado no meio da floresta. Caminhava na sombra das grandes árvores, pouca luz atravessava a espessa camada de folhas. Estava quente, daquele calor húmido típico da região, e a passarada cantava um repertório desconhecido para mim enquanto saltava de ramo em ramo. Solo enlameado, cheiro ácido a matéria orgânica, a marca bem visível … Continue reading PULMÃO VERDE
AS ÁRVORES DA DISCÓRDIA
O sol ainda não tinha nascido já éramos muitos na serra, ao frio do inverno, e estava longe de imaginar todas as consequências do que estava para acontecer. Antes dos motoristas chegarem às máquinas de rasto, os activistas acorrentaram-se a elas de modo a impedir o seu funcionamento. A população da aldeia juntou-se em redor, … Continue reading AS ÁRVORES DA DISCÓRDIA
CORISTAS VELHAS E MONGES CALADOS
No palco, duas bailarinas sexagenárias balançam-se malandramente, tentando acompanhar a música de jazz que a orquestra de quatro séniores ainda mais serôdios tocam nos seus instrumentos, também estes já muito gastos. A sala envelhecida, com veludos vermelhos, colunas forradas a espelhos e painéis pintados a fingir de mármore, mantém-se inalterada desde a primeira metade do … Continue reading CORISTAS VELHAS E MONGES CALADOS
FATEIXA
No meio da ponte, o homem olha lá para o fundo resignado, indiferente a quem vai passando sem o ver. Tinha tentado de outras formas mas sem sucesso, e acabara por chegar à conclusão, tinha que ser mesmo ali. Lá em baixo, adivinha-se pelos movimentos frenéticos a futura refeição da sua família pobre. Então, deixa … Continue reading FATEIXA
MÚSICA
O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do Budokan … Continue reading MÚSICA
CLIENTE ASSÍDUO
Um dia descobri a sua existência e não mais a larguei. Vinha ao bairro uma vez por semana, em dia certo, esperava os clientes assíduos, e apelava aos transeuntes tentando ampliar a clientela. Fazia-se transportar num enorme furgão branco de formato inconfundível e era conhecida por todos. Era a biblioteca Itinerante e fazia parte da … Continue reading CLIENTE ASSÍDUO
GOLFINHOS DE POTÊNCIA
O ambiente é abafado, muito barulhento e mal-cheiroso, quase insuportável. O espaço é apertado e tem entranhado o rasto de mil peúgas e dos respectivos donos, transpirados do trabalho duro. Difícil de imaginar como é possível descansar nestas condições, mas este é um pensamento de quem não está habituado a estas lides. Estou a ver-me … Continue reading GOLFINHOS DE POTÊNCIA
ESCARAVELHOS
Tantos escaravelhos! Uns bonitos, outros nem por isso. E de tantos tamanhos, uns minúsculos outros do tamanho de um punho fechado, e outros descomunais. E as cores? Na sua maioria eram de cor negra, mas havia os azuis, os verdes, os amarelos, os dourados… Não, não estava a sonhar, nem numa floresta tropical no tempo … Continue reading ESCARAVELHOS
A BATALHA
Foi memorável a batalha! Tínhamos conseguido atingir-nos uns aos outros com projécteis vermelhos e peganhentos, tudo numa grande algazarra de adolescentes, corria o ano de 1972. O pouco simpático professor de matemática tinha faltado e a malta correu para o pomar que ficava nas traseiras da escola, a extensão de Camacupa do Liceu Silva Cunha, … Continue reading A BATALHA
UMA AULA ESPECIAL
Terminei a aula dizendo: Estes são os factos e agora terão de decidir se só querem fazer parte do problema ou também parte da solução. Não sou o autor desta frase, que tenho usado em vários contextos e com formulações ligeiramente diferentes, mas considero-a bastante mobilizadora. A aula correu muito bem e, posteriormente, fui sabendo … Continue reading UMA AULA ESPECIAL
FAÇA O FAVOR DE SE SENTAR
Eu tinha meio século de existência e, mal subi para o autocarro e avancei pelo corredor, ouvi: Faça o favor de se sentar. Assim me disse uma jovem que não aparentava ter mais de 15 anos. Surpreendido, aceitei e agradeci com um sorriso, talvez amarelo, mas sincero, apesar de não ter necessidade real de me … Continue reading FAÇA O FAVOR DE SE SENTAR
UMA VIAGEM DE SONHO
Ela aproximou-se em passo decidido como se não nos visse. A cerca de cinco metros parou, olhou em volta e agachou-se. Um cheiro nauseabundo espalhou-se no ar enquanto a malhada se via livre dos resíduos da refeição anterior. E deixou-me uma dúvida, pois não tenho a certeza se o perfume era mesmo da hiena ou … Continue reading UMA VIAGEM DE SONHO
PALESTRA NO MUSEU
No final bateram palmas, mas fiquei com a sensação desagradável de não ter correspondido ao que a audiência estava à espera. Talvez tivesse enxertado biologia a mais e história a menos, mas então qual a razão de terem contactado um biólogo? A sala estava cheia de gente especial. Não conhecia ninguém, mas não admira pois … Continue reading PALESTRA NO MUSEU
FOTOGRAFIA COM PELOS
Olhava para nós sem medo, talvez por se encontrar em posição mais elevada, protegida. Parecia estar isolado, não se via a família. Lentamente encurtámos a distância e, muito próximos, fizemos algumas fotografias, mesmo a tempo, antes dos três saltos rápidos por entre as pedras com que desapareceu silenciosamente. Foi já a meio do regresso ao … Continue reading FOTOGRAFIA COM PELOS
SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE
Não era a pior comida do mundo, e nunca me incomodou muito tê-la frequentemente. Mas é melhor explicar. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, vivíamos nós no Lobito, em Angola, muitas refeições eram bastante desinteressantes, o mínimo que se poderia dizer. Na verdade, era frequente termos vários dias consecutivos em que, … Continue reading SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE
AVES
Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta. Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos … Continue reading AVES
O 76
Acordei com a alegre cavaqueira que se desenvolvia no banco ao lado. Tinha dormitado por alguns minutos, mas as vozes eram mais pesadas que o meu cansaço. No ar pairava um forte cheiro que vinha, tal como a conversa, das peixeiras que regressavam a casa após o encerramento do mercado. Até aos anos 80 … Continue reading O 76
A VOAR DENTRO DE ÁGUA
Uma das cenas mais inebriantes de toda a vida aconteceu quando tive a sensação maravilhosa de voar dentro da água. Foi quando fiz o exame de mar, a etapa final do curso de mergulho com escafandro autónomo. Depois de três meses de treinos em piscina e de abundantes aulas teóricas e práticas, chegara a altura … Continue reading A VOAR DENTRO DE ÁGUA
NEANDERTAIS
Desde que ouvi falar deles eu dizia muitas vezes: eles andam aí no meio de nós. À medida que fui lendo as descobertas da genética moderna, que revelam a presença de genes dos Neandertais nas populações humanas actuais, fui confirmando o que sentia e afirmava por brincadeira. O dicionário diz: ne·an·der·tal |niãdèrtál| (Neandertal, topónimo [região … Continue reading NEANDERTAIS
TEMPESTADE
Quatro resistentes à mesa, uma mão com o garfo e outra a segurar o prato, para este não fugir mesa fora. O copo a tombar e rolar. O barulho ensurdecedor que chegou da cozinha assinalou a queda de uma pilha de louça, tudo a esmigalhar-se no chão sobrepôs-se momentaneamente ao forte ruído que chega do … Continue reading TEMPESTADE
VULTOS NA FLORESTA
São 6 vultos, e atravessam a velha ponte de pedra. Depois param, surpreendidos por nos verem ali e ajoelham-se atrás de um rochedo, as cabeças de fora. Os binóculos estão à mão e espreito. São rostos duros, queimados do sol, barba por fazer e cara de poucos amigos. Trocamos algumas palavras entre nós, fazendo o … Continue reading VULTOS NA FLORESTA
VELA
Noite escura. A vela treme continuamente ao vento. Mas não ilumina, não é das que o fazem. No horizonte, em frente, estende-se uma longa fiada de luzinhas. Para trás nem uma, só o breu furado pelas estrelas. Salpicos vão pousando nas mãos e nas lentes. As ondas balançam cadenciadamente o pequeno veleiro em que navegamos … Continue reading VELA
TRUTAS BOAS
No primeiro ano em que comecei a trabalhar como assistente estagiário na Faculdade de Ciências do Porto, o chefe deu-me uma responsabilidade grande, uma maneira de ele se ver livre de uma carga de trabalhos. Assim, fiquei com as aulas da disciplina de “Aquacultura” do quinto e último ano da licenciatura em biologia (sim, em … Continue reading TRUTAS BOAS
SUFOCO
A 15 m de profundidade sufocar não é bom. É mesmo muito mau, mas foi o que me aconteceu. Estava prestes a afogar-me. Foi em trabalho nos Açores, na Ilha de São Jorge, e decidimos fazer mais um mergulho com botijas. O objectivo era avaliar a biodiversidade submarina numa zona pouco conhecida, perto da Ponta … Continue reading SUFOCO
PAREDES AO ALTO
Estou na água. Em redor, a paisagem é esmagadora. Em cada margem levantam-se escarpas a pique com mais de 200 metros de altura. O quase silêncio é intenso, transcendental, apenas o marulhar, um suave pio, a respiração compassada. Lá em cima, bem alto no céu, os abutres a voar. Na água esverdeada uma carpa salta … Continue reading PAREDES AO ALTO
DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!
“Professor! Don't do it again, please!” Esta foi a frase que quebrou a tensão e originou uma gargalhada geral. Quem a proferiu foi o professor Andrzej Łysak, na altura no Porto a convite do professor João Machado Cruz. Durante alguns meses, em 1982-3, contribuíu para a formação dos doze finalistas da licenciatura em Biologia, ramo … Continue reading DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!
VER A ENCICLOPÉDIA
Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA
COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO
Pouco depois de entrar no país pela fronteira de Vilar Formoso, era hora de almoço. Restaurante de beira de estrada, escolher mesa, mandar vir prato do dia, costeletas de porco. E para beber? Venha uma garrafa de Porto! Vinha de França à boleia num camião TIR. Terminadas as vindimas de 1981 na zona de Bordéus, … Continue reading COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO
ALUGAM-SE GALOCHAS
Corria o ano de 1992. Já era maio mas batíamos os dentes de frio. O vento soprava forte, gelado e a neve cobria tudo de branco. Tudo não, quase tudo. De onde estamos vemos a cor vermelha viva lá em baixo. Por razões de segurança não era permitido aproximar mais para ver melhor. Alheio ao … Continue reading ALUGAM-SE GALOCHAS
TORNOZELOS SOFRIDOS
O terno vai batendo nos tornozelos a cada passo, o sofrimento é maior à medida que a distância percorrida aumenta e as forças me vão faltando. O tal terno não era uma carta de jogar nem peça de dominó, não era um fato com 3 peças de vestuário, nem sequer um conjunto de sofás… Era … Continue reading TORNOZELOS SOFRIDOS
O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO
“Andei todos estes anos a ensinar mal aos meus alunos”. Esta expressão, ou melhor, confissão pública bem sentida, ouvi-a da boca de uma professora do ensino básico já com meio século de vida, e foi feita na discussão que se seguiu a propósito de uma palestra sobre a conservação de répteis e anfíbios. O orador, … Continue reading O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO
AVENTURA IBÉRICA
No fim da aventura, seria mesmo no penúltimo dia, senti uma bota nas costelas e acordei, os cães a ladrar, dentes arreganhados como os seus donos: toca a sair daqui! Get up! Estava eu a dormir tão bem… Eram 3h da madrugada na praia de Albufeira quando chegou a GNR. Acordei eu e mais uns … Continue reading AVENTURA IBÉRICA