No primeiro ano em que comecei a trabalhar como assistente estagiário na Faculdade de Ciências do Porto, o chefe deu-me uma responsabilidade grande, uma maneira de ele se ver livre de uma carga de trabalhos. Assim, fiquei com as aulas da disciplina de “Aquacultura” do quinto e último ano da licenciatura em biologia (sim, em 1983 as licenciaturas ainda duravam 5 anos). Para além das aulas teóricas e práticas atribuíu-me a tarefa de acompanhar o crescimento de um lote de trutas arco-íris na Albufeira de Vilarinho das Furnas, trabalho em que os alunos também tinham de participar. O primeiro passo foi construir a instalação, duas gaiolas flutuantes, com equipamento vindo da Noruega: redes, bóias, tubos e cabos. Depois, foi ancorada a 40 ou 50 metros da margem para evitar apropriações indevidas, só se chegava lá de barco. Vindas já não me lembro de onde, trouxeram um conjunto de pequenas trutas que foram colocadas numa das redes. Periodicamente, a tarefa consistia em passar todos os peixes de uma rede para outra com grandes camaroeiros. Para isso levantava-se a pouco e pouco o saco de rede onde estavam os peixes, concentrando-os e facilitando a recolha com o camaroeiro. Cada sacada era pesada com um dinamómetro de escala até 15 quilos e contavam-se todos os peixes. Lembro-me que a dada altura o peso total estava muito próximo de uma tonelada, o que constitui uma pista para a dificuldade do trabalho. É necessário dizer ainda que tínhamos de andar empoleirados nos tubos balançantes da instalação ou trabalhar dentro do barco. Tínhamos também de fazer os cálculos para determinar o alimento necessário, carregar o alimentador automático e calibrá-lo para dispensar, várias vezes por dia, o alimento adequado para a biomassa de peixes presente. Durante algum tempo a tarefa foi partilhada com outros colegas mas muitas vezes coube-me a mim e aos alunos. Lá íamos, estivesse bom ou mau tempo. Nos dias seguintes tinha de entregar as contas ao chefe para ele analisar.
Nunca cheguei a ver o resultado da experiência mas suponho que não foi possível tirar grandes conclusões. Pelo menos por duas vezes demos por falta de uma quantidade apreciável de peixe. Inclusivamente uma das redes foi mesmo cortada deixando um rombo por onde certamente teriam escapado as trutas mais enérgicas.
Falta dizer que, por vezes, acontecia alguma mortalidade. As trutas são muito sensíveis e volta e meia morria um ou outro peixe mais stressado. Obviamente não se desperdiçava. Posso testemunhar que as trutas salmonadas, isto é, alimentadas a ração com corante laranja (carotenóides) para ficarem semelhantes ao salmão, ficam muito saborosas, ao contrário daquilo que vemos normalmente à venda. E a explicação é fácil. Naquela experiência, até a ração granulada vinha da Noruega, preparada para dar os melhores resultados de crescimento e sabor, e não para obter peixe ao menor custo possível, precisamente o que fazem as grandes multinacionais de produção de peixe para os supermercados e peixarias.
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