A 15 m de profundidade sufocar não é bom. É mesmo muito mau, mas foi o que me aconteceu. Estava prestes a afogar-me. Foi em trabalho nos Açores, na Ilha de São Jorge, e decidimos fazer mais um mergulho com botijas. O objectivo era avaliar a biodiversidade submarina numa zona pouco conhecida, perto da Ponta dos Rosais, para constar no relatório a elaborar. Tínhamos os nossos fatos mas alugámos o restante equipamento e a lancha a uma empresa local, cujo dono era o monitor que nos acompanhou. Tudo correu bem no início. Dia de sol, sem vento, água límpida e poucas ondas Fomos até ao local previsto, equipámo-nos com os fatos, montámos o regulador (aparelho que permite respirar debaixo de água) e o manómetro na botija, e relembrámos os gestos de comunicação. Finalmente mergulhámos. Estávamos há cerca de 10 minutos na água, numa grande plataforma de rocha vulcânica, observando as formações retorcidas e as espécies fixas e móveis. Cardumes coloridos nadavam em volta. De repente, o meu regulador deixou de funcionar, deitando apenas um pequeno sopro. Não era normal, pois o manómetro dava indicação de garrafa cheia de ar. Eu tinha duas opções. Ou nadava imediatamente para a superfície, arriscando uma descompressão, ou nadava até outro elemento do grupo para partilhar do seu ar e ascender em segurança. Aqui chegados, é necessário esclarecer o que é a doença da descompressão. Em situação de mergulho, origina-se quando há uma redução brusca da pressão, o que acontece quando subimos rapidamente para a superfície. Os gases dissolvidos no sangue libertam-se e formam bolhas que podem obstruir os vasos sanguíneos. Para além da dor, outros sintomas podem ser erupções cutâneas, dores nas articulações e até paralisia, embolia gasosa e morte. A opção não me pareceu mais adequada e comecei a nadar em direcção ao monitor. Contudo, e contra todas as regras, este não se manteve na retaguarda do grupo e começou a nadar mais para diante, afastando-se da posição onde me encontrava. Com pouco ar nos pulmões, quase não conseguindo respirar, redobrei as forças para nadar mais rápido, e sufocava ainda mais. E ele não olhava para trás! Comecei a tomar consciência de que talvez não conseguisse. Nadei em esforço e, finalmente, consegui agarrar uma das suas barbatanas. Rapidamente, aflito, fiz o sinal convencional de que estava sem ar. O idiota, não acreditando, demorou muito tempo a pegar no meu bucal e a experimentá-lo. Só depois, vendo que não dava ar, é que me passou o dele para eu finalmente aspirar. Demorei bastante a recuperar o fôlego, eu e ele respirando alternadamente do mesmo bucal durante a subida. Esta decorreu como manda o protocolo, lentamente e com pausa até chegar à superfície, cumprindo os tempos tabelados para deixar os gases equilibrarem à medida que íamos subindo e reduzia a pressão. O mergulho ficou estragado e regressámos ao porto de embarque. Aí, voltaram a constatar que a botija estava cheia, o manómetro tinha a indicação correcta, mas o ar não saía. O monitor nem pediu desculpa pelo material defeituoso que ia causando um acidente grave, cobrando o preço normal, mesmo não tendo nós completado o trabalho.
Na época, ainda não era costume cada mergulhador levar o regulador com dois “segundos andares”, assim se designam as peças onde encaixa o bucal, para o caso de uma delas avariar. Mas os acidentes não seriam tão raros como isso. Pouco tempo depois, nos mergulhos que efectuei, quer nos Açores quer noutros locais, a duplicação começou a ser prática usual.
Tudo está bem quando acaba bem, ou não estaria agora a relatar esta a memória.