ARQUIVO

SEMEADURAS INFANTIS

O tempo passava e eu não escondia a desapontamento por não ver aparecer o que tanto aguardava, pois a expectativa criada pelos progenitores era grande. Tinha escavado a terra do quintal, depositado os grãos nos buracos, cobrindo-os depois e juntado água até encharcar tudo. Depois fui observando o crescimento, ansiando pelos frutos que não surgiam. … Continue reading SEMEADURAS INFANTIS

AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES

Sim, eu sei que um título desta natureza, “AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES” parece arrogantemente erudito e algo críptico, pretensioso, presunçoso e outros adjetivos terminados em “oso”. Contudo, não poderão dizer que é preguiçoso pois pensei muito para escrever um que fosse sucinto, ajustado ao conteúdo, e ainda algo misterioso, apelativo à leitura. Vem este … Continue reading AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES

PIRATAS, CORSÁRIOS E ETC.

Quando iniciei colaboração com holandeses, estava longe de imaginar que viria a consolidar a imagem que tinha deles, vinda da literatura juvenil: a sua índole de flibusteiros, piratas, bucaneiros, corsários e outros adjetivos menos abonatórios. A história que nos ensinaram na escola também não era favorável aos que tentaram substituir-nos em Angola, São Tomé ou … Continue reading PIRATAS, CORSÁRIOS E ETC.

METAMORFOSES E CASA NOVA

Como se fosse uma metamorfose, libertando o corpo da velha casca que o espartilhava, mudar de toca significou uma melhoria na nossa qualidade de vida. Deixar o ninho onde tínhamos passado a etapa inicial do casamento, onde tínhamos feito o melhor que sabíamos nos primeiros anos dos filhos, e ainda onde tínhamos inventado tantos bons … Continue reading METAMORFOSES E CASA NOVA

ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO

Quando fui para a escola, tendo completado sete aninhos,  já sabia ler, escrever e contar, por empenho da minha mãe. Não me lembro disso, mas o assunto foi por ela referido, várias vezes, quando eu era já mais crescido. O seu orgulho indisfarçado tinha fundamento pois o feito estava longe de ser generalizado entre as … Continue reading ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO

CAÍRAM ESTRELAS, VOOU O RELÓGIO

Fomos ver as estrelas a cair e o meu relógio (e não só) voou, que é como quem diz foi-se, ou outra expressão  de semântica equivalente. Serve isto de intróito a este texto, no qual proponho fazermos uma ronda pelas minhas experiências nos tribunais e daí expor algumas perplexidades. Começo com o caso do furto … Continue reading CAÍRAM ESTRELAS, VOOU O RELÓGIO

O CHINÊS DÚBIO

Qual é a probabilidade de encontrar num modesto restaurante do outro lado do mundo alguém que conheça a nossa terra?  Intuitivamente, sentimos que é baixa. Uma resposta correcta, segura, será: maior que zero. Para esclarecer a charada, devo dizer que a família, exausta, tinha ido descansar devido à viagem muito longa, somada à caminhada da … Continue reading O CHINÊS DÚBIO

EM SVOLVÆR, RENA CONGELADA

“Isto é rena congelada, pois a fresca não se pode comer, está proibido.” Foi assim que me disseram, talvez a justificar a sensaboria do repasto.  Em maio de 1986, viajei até ao norte da Noruega para frequentar uma pós-graduação em Gestão da Zona Costeira e Recursos Marinhos, paga por uma bolsa de estudo europeia. Foi … Continue reading EM SVOLVÆR, RENA CONGELADA

SUSTO ESTRONDOSO

Apertei o dedo e, subitamente, o estrondo inundou-me o cérebro ao mesmo tempo que o meu corpo foi sacudido violentamente. Dizer que foi um grande susto é faltar à verdade. Apanhei um cagaço do caraças! Terá sido a maior travessura que cometi na vida, e esta palavra não se aproxima minimamente da gravidade do que … Continue reading SUSTO ESTRONDOSO

DOIS CRIMES NA NOITE

O que sucedeu naquela madrugada foi estranho, no momento em que ocorreu. E foi quase incompreensível para mim, que teria dez ou onze anos, quando soube a razão dos gritos. A explicação só surgiu na manhã seguinte, ao escutar as conversas em tom grave dos adultos.  Nessa noite, ficámos a dormir em casa da família … Continue reading DOIS CRIMES NA NOITE

O BACALHAU E A RAPOSA

A casinha de montanha O conforto da casinha de montanha aguardava-nos. Escondida na paisagem ventosa e coberta de grossa camada de neve, a pequena construção estava junto ao tosco cercado de pedra que circundava o pasto. Transposta a cancela de tábuas aparelhadas, vimos uma fiada de orifícios na neve fofa. Analisando de perto, o veredito … Continue reading O BACALHAU E A RAPOSA

ESCRITA DUPLAMENTE PESADA

Os últimos seis anos foram bons para a escrita. Pouco a pouco, fui abrindo janela e deixei voar episódios antigos, pensamentos, factos estranhos ou curiosos, críticas e juízos de valor. Todos os meses viram o surgimento de novos textos, memórias de uma, duas ou de seis décadas, umas mais poeirentas umas que outras. Fui abrindo … Continue reading ESCRITA DUPLAMENTE PESADA

A PRESSÃO PARA SER O MELHOR

A pressão para ser o melhor não surgiu logo de início. Na verdade, só apareceu a meio do terceiro ano da licenciatura, quando acumulei uma mão cheia de boas notas, o suficiente para tornar a minha média num valor aceitável e acima da grande maioria dos meus colegas.  Até aquele momento, a probabilidade de seguir … Continue reading A PRESSÃO PARA SER O MELHOR

TORTUGUERO

Aquela bola de grossa e parda pelagem avançava lentamente, pendurada no arame farpado por longas garras. Carregando outra bolinha peluda agarrada ao ventre, não mostrava qualquer receio dos bípedes que observavam de muito perto, falavam alto e metralhavam as máquinas fotográficas com entusiasmo. Eu já tinha visto preguiças no Brasil, mas não a dois metros … Continue reading TORTUGUERO

O RAPAZ DOS GAFANHOTOS

A imagem do rapaz a comer gafanhotos vivos vem à superfície das memórias com alguma frequência, a maioria das vezes quando me surgem cenários com diferenças culturais de monta.  A lembrança vem do início dos anos setenta, quando eu tinha idade semelhante à do protagonista. Nesse dia, ao cair da noite, uma nuvem verde vinda … Continue reading O RAPAZ DOS GAFANHOTOS

O ANO PRO O QUÊ?

Naquele ano, os claustros quase conventuais e o grande e frio salão acolheram-me muitas tardes. O espaço coincidia com o momento. Sem rodeios, a vida não foi fácil durante o ano lectivo de 1977/78, e pouco de relevante aconteceu. Ainda assim, é possível espremer a memória e extrair algumas coisas interessantes, como as que se … Continue reading O ANO PRO O QUÊ?

O TRILHO DO CASUAR

É pouco mas é muito. Sim, parece estranho, mas eu explico. Percorrer mais de dois mil quilómetros na imensidão das estradas australianas é pouco, por razões óbvias e atendendo à adjetivação aplicada. Mas também é muito, quer pela diversidade de paisagens e de seres vivos que se observam com facilidade, quer pelas muitas oportunidades para … Continue reading O TRILHO DO CASUAR

LARANJAS EM TRAJETÓRIA PARABÓLICA

As três laranjas, lançadas em trajetórias parabólicas, passavam sucessivamente de um lado para o outro. O meu olhar não descortinava como tudo acontecia sem falhas. De forma elegante e que aparentava ser fácil, as laranjas atiradas por uma mão passavam para a outra descrevendo uma curva e dando a ilusão de estarem todas a voar. … Continue reading LARANJAS EM TRAJETÓRIA PARABÓLICA

AS PEDRAS DE SÃO BARTOLOMEU

Um dia, apiedado pela desgraça do homem, S. Bartolomeu deu-lhe três pedras dizendo: com estas pedras, vai e faz o coração da tua nova casa. O homem, agradecido, seguiu o sábio conselho… Alto lá que não é nada disto! Enganei-vos bem, recomecemos.  Avaliando à distância de quatro décadas, as três pedras pesariam, em conjunto, mais … Continue reading AS PEDRAS DE SÃO BARTOLOMEU

MEMÓRIAS AOS QUADRADINHOS

Quando as memórias se perdem, todos perdemos um pedacinho de vida, mesmo que dele não sintamos falta ou não tenhamos consciência do seu desaparecimento. A perda ocorre devido a causas intrínsecas ou orgânicas, e também por motivos externos, mas não é esse o objectivo deste texto. Vem este intróito a propósito de informação quimicamente fixada … Continue reading MEMÓRIAS AOS QUADRADINHOS

ALVOROÇO EM TERRASSINI

A notícia do assassinato só chegou depois da polícia. Não eram agentes regulares. De uniforme negro, armados de metralhadora e protegidos com capacete e colete militar, tinham aspecto ameaçador. Nada disseram, assumiram posições defensivas e controlaram as entradas e saídas do hotel, causando nos hóspedes alguma inquietação pela inusitada ocupação. As atividades do evento internacional … Continue reading ALVOROÇO EM TERRASSINI

ORSAY

Perguntando hoje aos filhos se recordam a visita a um museu cheio de esculturas em Paris, a resposta é vaga. A verdade é que estivemos num monumental salão povoado por esculturas de vários estilos, tamanhos, materiais, proveniências e impactos. E também para todos os gostos. Aproveitando a semana de férias da Páscoa, entre março e … Continue reading ORSAY

O BANDO DOS QUATRO NO GRANDE SUL

Este texto não se refere a um mal afamado grupo de pistoleiros nem faz eco de turbulências no império amarelo. É mais terra a terra e aborda a última grande aventura familiar com os quatro elementos, a viagem à Antártida. Outras houve depois, mas mais nenhuma com todos. Contrariamente às anteriores, nesta viagem não escolhemos … Continue reading O BANDO DOS QUATRO NO GRANDE SUL

FRUTA DO TEMPO PASSADO

O baloiço tosco pendurado pelo pai na goiabeira faz parte das boas imagens que guardo da infância. E foi também nesse pequeno tronco malhado e flexível que aprendi a trepar, habilidade que depois desenvolvi na outra fruteira do quintal, a nespereira. Esta era uma árvore grande, aos olhos da criança que eu ainda era, sobravam … Continue reading FRUTA DO TEMPO PASSADO

PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO

Metida a mão dentro da cabaça e sentindo os grãos, o ladrão encheu a mão e puxou, mas o punho fechado não coube na estreita abertura. Entretanto assomou o guarda e o assustado assaltante puxou com mais força a mão entalada que não saiu, tentou fugir mas não resultou pois a cabaça estava bem amarrada … Continue reading PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO

O CÁGADO CONTORCIONISTA

Zangada e cerrando os dentes, a mãe vinha com o cágado na mão. Quando se aproximou, ouvi-lhe o protesto sem destinatário: “Quem é que ela julga que quer enganar!”  A vizinha tinha chamado a nossa mãe, e ela acercou-se da vedação que separava os quintais, estranhando o contacto por parte de quem quase nunca o … Continue reading O CÁGADO CONTORCIONISTA

O MUSEU DA MEMÓRIA

Pacientemente, a família desfilou diante dos meus olhos um conjunto de objectos que fui acumulando ao longo de décadas, e que estavam a monte no sótão, fazendo parte daquilo que comecei a denominar, em tom de brincadeira, o “meu museu”. Não sei de quem partiu a ideia do desfile, mas foi o presente especial que … Continue reading O MUSEU DA MEMÓRIA

A TIFA

No meio da nuvem branca e malcheirosa, os vultos de farda parda faziam uma estranha coreografia. Uns, desenrolando da traseira do veículo um tubo flexível com um longo espalhador metálico, introduziam fumo nos bueiros e demais orifícios das ruas e passeios. Outros, com uma barulhenta máquina portátil, lançavam fumo nas habitações e casas comerciais. Apareciam … Continue reading A TIFA

A PROCRASTINAÇÃO FAZ-NOS LEMINGUES

Vinda não sei de onde, a informação circulou quando o nosso grupo de estudantes começou a ler e a debater temas de Ambiente e Conservação da Natureza. Nessa altura acolhemos como verdadeiro o seu conteúdo. Mais tarde, li documentos fidedignos a desmontar o mito urbano. Dizia este que, quando há excesso de lemingues, pequenos mamíferos … Continue reading A PROCRASTINAÇÃO FAZ-NOS LEMINGUES

A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL

“Onde está a orelha do leitão?” Pergunta retórica, pois todos os olhos se fixaram na face bonacheirona, corada e abanando que não, mas com uma expressão que o desmentia. Alto, que estou a colocar o reco antes do enredo, que é outro modo de dizer que a carroça está à frente dos bois. Haverá ainda … Continue reading A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL

ASSUMIR O CONTROLO

No primeiro ano éramos jovens, imaturos, e fomos atropelados por um sistema onde a excelência estava acompanhada pelo anacronismo, pela mediocridade e pelo discricionarismo obscuro e enviesado. No segundo ano éramos ainda jovens, imaturos, e já indignados quanto baste. A universidade era muito diferente do que é hoje. As tentativas de mudança, esbarrando em mentalidades … Continue reading ASSUMIR O CONTROLO

PAULO  POR TERRAS DE STA JUSTA

Em que dá conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio em terras de Sta Justa & do rio da ferraria. E tambem dá conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas mais. Deu-me especial gozo … Continue reading PAULO  POR TERRAS DE STA JUSTA

NO LOBITO

No início dos anos setenta fomos viver junto ao mar, no Lobito, por transferência do pai, que era funcionário da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela. Anos felizes para um rapazinho de onze, doze anos. A mudança trouxe novos hábitos, novas caras e excelente peixe fresco, por comparação ao que se comia no interior, … Continue reading NO LOBITO

VETERINÁRIO GARBOSO

O homem apareceu, primeiro a cavalo, com farda clara, binóculos ao peito, carabina a tiracolo, e depois a conduzir o Land Rover pela “picada” arenosa no meio do mato, passando por árvores baixas e ervas altas amareladas pela poeira. Uma voz profissional, descrevendo as tarefas do garboso figurão, quase declamando, dava o necessário contexto às … Continue reading VETERINÁRIO GARBOSO

O BÚFALO

O “Búfalo” era o fotógrafo da vila, e a alcunha tinha algum fundamento. De pescoço curto e grosso, cabelo oleoso e desalinhado, caminhava sempre com a cabeça para a frente, como se fosse investir. Óculos de aros pesados, pretos e de lentes espessas faziam a personagem ainda menos simpática. Quando comecei a brincar com um … Continue reading O BÚFALO

O VELHO, A ROM E A POLITIQUICE

Toc, toc, toc, soava a bengala do octogenário quando saía da toca, um gabinete caótico a meio do longo corredor de tecto baixo. De vez em quando, metia conversa com as raparigas que estavam sentadas junto às janelas. Perguntando o que estudavam, espreitava por cima do ombro de uma delas para livros e cadernos. Ou … Continue reading O VELHO, A ROM E A POLITIQUICE

MAIOR QUE A MINHA MÃO

Há ocasiões em que somos surpreendidos pela real dimensão de algo que recordamos da nossa infância, quando tudo nos parecia grande. Assim, foi uma sensação estranha quando vi fotografias recentes das casas do bairro onde cresci até aos dez anos. Afinal, não eram assim tão altas. Talvez seja esse efeito a corromper a lembrança que … Continue reading MAIOR QUE A MINHA MÃO

“BICARMONATO DE PONTÁSSIO”

A paisagem corria rapidamente pela janela do comboio quando a frase surgiu: ali, estão a ver bicarmonato de pontássio. Assim mesmo, não é erro de ortografia. E, perante a expressão inquisitiva dos interlocutores, repetiu:  bicarmonato de pontássio. Lá fora, o Tejo corria também, mais as verdes margens, o casario branco e a ponte metálica de … Continue reading “BICARMONATO DE PONTÁSSIO”

MUDAR O MUNDO

Abri a cabeça com cuidado, usando a lâmina para cortar e  levantar o osso como se fosse uma tampa, e localizei os pequenos cristais ensanguentados. Apontei-os com o bico afilado da pinça metálica, explicando como os detectar, determinando primeiro os pontos relevantes da arquitetura interna do crânio. Os cristais, esbranquiçados, não teriam mais de cinco … Continue reading MUDAR O MUNDO

ENSOPADA NO PARQUE

Ensopado de galinha é distinto, e muito, de galinha ensopada. E a prova estava diante dos nossos olhos. O pobre galináceo, totalmente mergulhado na água fria do rio, ensopado, nunca mais daria para um ensopado. As duas jovens, pegando-lhe pelas pontas das asas com as pontas dos dedos, retiraram  o afogado da água, e depositaram-no … Continue reading ENSOPADA NO PARQUE

FILOSOFIA DE PORCO

O planalto parecia rigorosamente dividido ao meio. As metades, ambas com árvores pequenas e ervas altas, estendiam-se sem relevo até perder de vista. A linha vermelha que separava a paisagem vinha do horizonte até nos encontrar, transformando-se gradualmente na estrada de terra batida por uma onde avançávamos rapidamente. A nossa passagem levantava uma nuvem de … Continue reading FILOSOFIA DE PORCO

FRAGMENTOS DO PLANETA

A improvisada prateleira, uma tábua tosca apoiada em dois tijolos, exibia a preciosa colecção. Recolhidos um pouco por todo o lado, os fragmentos do planeta exibiam cores, tamanhos e texturas  variadas, uns eram brilhantes e outros não. As peças mais bonitas, as minhas preferidas, eram estruturas cristalinas, quase puras, algumas tão transparentes que pareciam feitas … Continue reading FRAGMENTOS DO PLANETA

QUATRO ANOS DE HISTÓRIAS  

Apetece-me escrever como quem lança foguetes. Passou mais uma translação planetária completa e ainda aqui venho contar histórias. Há doze meses, mais dia menos dia, comemorei três anos de publicações. Agora, é a vez de assinalar o quarto ano de divulgação das memórias que restam no meu arquivo imaterial. Confesso que não sabia que teria … Continue reading QUATRO ANOS DE HISTÓRIAS  

NI NORUEGA

O barulho cavo e metálico, repetido interminavelmente, era uma tortura. E eu não sabia de onde provinha. Deitado num banco estreito da biblioteca, envolvido no saco-cama, dava voltas e mais voltas sem repousar. O som sem explicação não me deixava  dormir, e, a bem da verdade, a improvisada cama, oscilante e desconfortável,  também não ajudava.  … Continue reading NI NORUEGA

O COMETA DE PARIS

Horas mortas, o céu escuro, todos os passageiros com Morfeu, e, lá fora, a luz brilhante a acompanhar-nos. Ao longo de tantos quilómetros de estrada, virada a oeste, parecia mover-se à mesma velocidade que nós, uma curiosa ilusão comum a todos os objectos distantes. A certa altura, encostei a viatura e fiz uma fotografia ao … Continue reading O COMETA DE PARIS

PERIGO NA CANIÇADA

A viatura saltou numa cova, inclinou-se perigosamente para a direita, e imobilizou-se com duas rodas fora do estreito caminho rural, rodando livres sobre a encosta de declive acentuado que só terminava na água, uns cinquenta metros mais abaixo. Um pouco menos de sorte e teria rebolado tudo para dentro da albufeira, o carro, as pessoas … Continue reading PERIGO NA CANIÇADA

APERTEI-LHE A MÃO

Ao longo da vida, tive oportunidade de apertar a mão a um bom número de pessoas ilustres. À sua maneira, cada uma delas teve dimensão para além das fronteiras dos respectivos países. Pela sua ação e pensamento, que se traduziram em conhecimentos científicos ou em mudanças políticas,  causaram alterações na vida de muitos cidadãos, para … Continue reading APERTEI-LHE A MÃO

MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS

Nestes textos, revelei vários episódios de uma infância vivida em Angola, nos anos já longínquos da década de 60 do século passado. Muitos mais estão ainda por sair da matriz orgânica e passarem a uma sucessão de zeros e uns nos circuitos de um computador. O tempo de escrita vai escasseando e, em mês de … Continue reading MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS

A RÃ PELUDA E OS PROFESSORES

Coloquei-lhe a rã na mão, mas a senhorita não resistiu. Era muita pressão para ela, e não foi capaz de fechar os dedos sobre o inofensivo animal. A algazarra que se seguiu foi grande, com muitas mãos a tentarem agarrar o escorregadio anfíbio que as driblava sucessivamente, saltando pelo soalho gasto da sala. Finalmente, a … Continue reading A RÃ PELUDA E OS PROFESSORES

ATIREI O PAU AO…

Encontrámo-nos a meio do caminho enlameado, como se fosse um duelo. Para me amedrontar, ergueu-se ao máximo, tentando parecer maior do que era na realidade. Dei-lhe com um pau e acabou o combate, tão rapidamente como tinha iniciado.  Contada deste modo a memória vale pouco, pelo que, agora, vou repeti-la em câmara lenta como no … Continue reading ATIREI O PAU AO…

ROCK NA GARAGEM

Meia dúzia de mirones observavam um galaró que cantava como se estivesse ligado à corrente. A música ouvia-se bem ainda antes de entrarmos naquele espaço exíguo, mas, uma vez lá dentro, fui atropelado pelo som hiperbólico. A pequena garagem estava atulhada com instrumentos musicais, amplificadores, cartazes, e ainda nós, a parca assistência. O cantor exuberante, … Continue reading ROCK NA GARAGEM

DIA DE BANHO

A senhoria só deixava usar o chuveiro com o esquentador ligado três vezes por semana. Era um contratempo desagradável, a juntar ao bafio, à cama rangente e ao colchão velho. Por mais conveniente que a localização fosse, no número dois da rua do Almada, a escassos cinco minutos da faculdade, não fiquei naquele quarto mais … Continue reading DIA DE BANHO

FILA PARA A PISTOLA

A longa fila conduzia o pessoal, rapidamente e sem conversas, a um furgão estacionado na sombra, à frente do qual um homem usava repetidamente uma grande pistola. A situação era assustadora, pelas dimensões e pelo formato estranho da “arma”, que era mesmo especial. Apesar do susto, todos passavam pelo homem e, após breve paragem, continuavam … Continue reading FILA PARA A PISTOLA

A CULPA FOI DAS CEBOLAS

De repente, os céus despejaram um aguaceiro frio na desabrigada praia, obrigando os foliões a amontoarem-se como pinguins debaixo do toldo empoleirado em paus e pagaias. De prato quente pousado nos joelhos, protegidos pela toalha, colher numa mão e caneca de esmalte na outra, terminei a refeição. Os pés não cabiam debaixo do abrigo e … Continue reading A CULPA FOI DAS CEBOLAS

TRÊS ANOS A ESCREVER MEMÓRIAS 

Ao iniciar 2022, completam-se três anos de revelação de algumas das minhas memórias. A abertura de um arquivo na "nuvem'', o Armazéns de Baús, em janeiro de 2019, alargou ao mundo da lusofonia o universo de potenciais leitores dos textos que comecei a escrever a meio de 2018. Inicialmente destinados apenas à família, e depois … Continue reading TRÊS ANOS A ESCREVER MEMÓRIAS 

CARTEIRISTA COM ÉTICA?

O envelope azul chegou sem remetente, apenas com destinatário e morada: Paulo Santos, Rua Almirante Leote do Rego nº 50, Porto. Obviamente, não era uma carta, pois vinha bastante gordo. Magra, estava dentro a minha carteira, roubada alguns dias antes.   O incómodo percalço ocorreu no transporte público, nos primeiros anos de faculdade. Os autocarros circulavam … Continue reading CARTEIRISTA COM ÉTICA?

OLHA ALI UMA PALETE

Depois da tempestade, vem a...? Errado, vem a lenha. Trocando por miúdos, sempre que havia uma tempestade no Porto, ficavam ramos e troncos caídos na via pública, em jardins e também nos parques públicos. Por vezes tombavam árvores inteiras, e não se podiam perder as oportunidades de aproveitar aquele recurso natural, pois a lenha era … Continue reading OLHA ALI UMA PALETE

A CAIXA DE NATAL

A caixa de madeira chegou com muita antecedência, e foi muito bem recebida. Vinha de longe, oito mil quilómetros mais a norte, e era o modo dos avós europeus estenderem o espírito natalício ao filho, nora e netos, no “verão” africano passado na quente e muito húmida cidade do Lobito. Dentro, vinha coisa boa. Desde … Continue reading A CAIXA DE NATAL

CAÍDO NA AUTO-ESTRADA

Ouvimos um barulho forte no tejadilho do Land Rover, e tomei consciência do acidente grave que tinha ocorrido naquele instante. Olhei pelo retrovisor e confirmei a presença de uma massa caída na faixa de rodagem da auto-estrada. Estava noite bem escura, e só era visível à contraluz dos carros que vinham ao longe.  Parei imediatamente, … Continue reading CAÍDO NA AUTO-ESTRADA

VACARIA DAS ANTAS

As duas vacas malhadas viviam na cidade. Moravam paredes meias, se assim se pode afirmar, com uma das zonas chiques do Porto, a antiga praça Velasquez. No final dos anos oitenta e início dos noventa do passado século, a vista do nosso terraço virado a Nordeste era ampla de horizontes e diversificada. Desde a Serra … Continue reading VACARIA DAS ANTAS

O MUNDO PARA OS FILHOS

Levámos as crianças à Eurodisney. Adoraram. Diversão familiar garantida, não foi mais do que um dos muitos passos que demos com ele e ela, para conhecimento do mundo que nos permite a vida. Procurámos sempre, na medida do possível, proporcionar aos filhos as mais variadas experiências, no sentido de completar a educação formal. E fizemo-lo … Continue reading O MUNDO PARA OS FILHOS

BILHETE DE CÃO

"Sim, mas tem de comprar bilhete para o cão.” Foi assim que o caixa me disse, quando perguntei se podíamos levar a Maia*, que estava na trela. Admirado, pois poderia ter ouvido mal, repeti inquisitivo: bilhete de cão!? Tive de comprar também o tal “meio bilhete”, que era válido tanto para crianças como para animais. … Continue reading BILHETE DE CÃO

SÃO SÓ ESTES?

As duas furgonetas blindadas chegaram de repente, e de dentro saltaram os polícias antimotim, tomando posição envolvente de modo intimidatório. Ao ver a faixa de pano e a dúzia de manifestantes que a seguravam, ficaram mais calmos. O graduado dirigiu-se lentamente para nós, acompanhado pelo subalterno que, visivelmente irritado, fazia alguns comentários. Só ouvi o … Continue reading SÃO SÓ ESTES?

TODOS VESTIDOS NO RIO

A família entrou completamente vestida no rio de água cristalina, ficando todos com água pela cintura. Depois de habituados à água fria, rodearam o pedregulho de metro e meio e agacharam-se em torno dele, ficando só com a cabeça de fora. Apalparam o fundo, como se estivessem à procura de alguma coisa, falando baixo entre … Continue reading TODOS VESTIDOS NO RIO

MORDAÇA

Esta memória podia ser sobre a de Camões, Pessoa, Aquilino ou Mia Couto, mas não, é mesmo acerca da minha: a língua. Durante a juventude, a minha língua permaneceu muito calada, algo introvertida. Mais tarde, começou a soltar-se em consequência de um crescendo de autoconfiança. Esta foi chegando pouco a pouco, sustentada nos resultados escolares. … Continue reading MORDAÇA

FECHA A PORTA

Abriu a porta e entrou como se fosse dona daquilo tudo, escancarando-a e deixando o vento frio irromper na nossa cozinha regional. “Fecha a portinha!” disse eu com voz de comando. E ela, virando-se lentamente, como que indicando obedecer contrariada, fechou mesmo a porta. A cena não teria lugar nestas memórias, não fosse ter-se repetido … Continue reading FECHA A PORTA

PREPARAÇÃO CLANDESTINA

Foquei o microscópio e a imagem apareceu nitidamente. Observei com um olho e controlei os movimentos da professora com o outro. Depois, chamei o H. que estava na mesa ao lado. ”Queres espreitar?” A cara de surpresa que ele fez foi impagável, e perguntou “São mesmo?” Eram mesmo. Para bom entendimento, será melhor contar a … Continue reading PREPARAÇÃO CLANDESTINA

OS PÉS DESCALÇOS

Os pés de quem andou descalço toda a vida são diferentes. Vi deles um número suficientemente elevado para não mais me esquecer. Os dos jovens e das crianças ainda não calcorrearam suficientes caminhos para que se note, são mais ou menos perfeitos, como vieram ao mundo. Já os pés dos velhos contam outra história, e … Continue reading OS PÉS DESCALÇOS

O QUE E.L.A. ME TROUXE

Desengane-se quem pense que este texto seja um desfile de lamúrias. Pelo contrário, é um relato feito em tom ligeiro, de situações curiosas, de alterações físicas e sensoriais, e ainda de outros aspectos que entraram na minha vida com a ELA (esclerose lateral amiotrófica), comemorando dez anos de estreita convivência. Assim, deixo de fora o … Continue reading O QUE E.L.A. ME TROUXE

O CAMINHO DAS PEDRAS  

Pedra após pedra, o caminho ligeiramente sinuoso foi crescendo à maneira das poldras, mas foi necessário um ano até ficar completo, mais coisa menos coisa, e permitir passagem seca. Contudo, não ficava em zona rural, nem em curso de água, atravessava o relvado do nosso quintal.  Umas de perto, outras de longe, de granito ou … Continue reading O CAMINHO DAS PEDRAS  

A FACA DO BACALHAU

O homem pegou no queijinho, bateu com ele no balcão e fez um sorriso maroto, acentuando o som, parecia feito por uma pedra. Depois, dirigiu-se para a extremidade da bancada, levantou a faca do bacalhau, passou-lhe um pano e zás, guilhotinou repetidamente o pequeno queijo. Dispôs as resultantes tirinhas amareladas numa fatia de pão escuro, … Continue reading A FACA DO BACALHAU

BANHEIRA DE URSO

A subida pela encosta da serra tinha começado suavemente, na ruela estreita entre casas de pedra e grandes espigueiros quadrangulares de madeira escura. Mais adiante, o caminho cimentado da aldeia deu lugar a um empedrado já muito polido, ladeado por muros antigos e musgosos e coberto por um espectacular dossel arbóreo de padreiros, já amarelados. … Continue reading BANHEIRA DE URSO