O CÁGADO CONTORCIONISTA

Zangada e cerrando os dentes, a mãe vinha com o cágado na mão. Quando se aproximou, ouvi-lhe o protesto sem destinatário: “Quem é que ela julga que quer enganar!” 

A vizinha tinha chamado a nossa mãe, e ela acercou-se da vedação que separava os quintais, estranhando o contacto por parte de quem quase nunca o fazia. A divisória era mais baixa junto ao lavadouro, lugar fresco coberto por um pequeno telheiro, e foi aí que aconteceu a troca de palavras. Resumindo, a vizinha tinha encontrado o dito bicharoco no seu terreiro, largos meses depois de ter desaparecido o “Compadre Cascadura” que vivia no nosso quintal, trazido pelo nosso pai e baptizado com o nome de um livrinho infantil. Andava no meio das ervas, aparecendo frequentemente junto ao galinheiro ou à casa. Podíamos brincar com ele, mas com cuidado. A mãe e o pai avisavam que o animal, assustando-se com algum movimento mais brusco, ao recolher-se para dentro da sua carapaça poderia  entalar-nos os dedos.

Quando o compadre deixou de aparecer e a procura não deu resultado, atribuiu-se a fuga a um descuido com o portão que dava para a rua. A mãe perguntou nas casas mais próximas, incluindo àquela vizinha, mas ninguém o tinha visto. Não nos ocorreu que o volumoso e trôpego réptil pudesse esgueirar-se para o quintal contíguo. A divisória era feita com grandes peças de ferro enterradas lado a lado e recobertas por uma densa sebe de buganvília. No bairro dos ferroviários era comum este tipo de vedação, em resultado da reutilização das velhas travessas de ferro usadas para apoiar os carris do Caminho de Ferro de Benguela, quando foi construído no início do século XX. Afinal, o cágado contorcionista tinha encontrado uma posição para passar o seu corpo rígido por uma estreita frincha entre as travessas. O que esperaria obter do outro lado? Nunca saberei se seria erva mais tenra ou a perspectiva de liberdade. A devolução à casa de partida não fez o “artista” assentar, e, talvez em busca de companhia, voltou a desaparecer alguns meses depois.

O cágado não foi caso único lá em casa. Em consequência das caçadas do pai com os amigos, era comum haver animais não domésticos juntamente com as galinhas. De alguns resta apenas uma névoa na memória, formada antes dos sete ou oito anos de vida. De outros ficou algo mais, como a imagem de um pequeno e mimoso antílope de pernas finíssimas, ainda bambi, infeliz órfão cinegético. Lembro-me também de um cuio, nome indígena de um estranho mamífero que evitava a luz do sol. Com grandes e esbugalhados olhos, mãozinhas delicadas e pontas dos dedinhos arredondadas, aquele pequeno primata nocturno seria, provavelmente, um gálago. 

Geralmente, os animais que eram trazidos do mato não sobreviviam muito tempo ao cativeiro, e a morte de cada um era ocultada às crianças. Hoje, penso que o contacto que tive com eles, e com todos os outros que pululam por estas memórias, borboletas, girinos, gafanhotos, flamingos, caranguejos, bagres, bissondes, e mais que não me ocorrem agora, acabou por influenciar as minhas escolhas profissionais e de cidadania activa.

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