O tempo passava e eu não escondia a desapontamento por não ver aparecer o que tanto aguardava, pois a expectativa criada pelos progenitores era grande. Tinha escavado a terra do quintal, depositado os grãos nos buracos, cobrindo-os depois e juntado água até encharcar tudo. Depois fui observando o crescimento, ansiando pelos frutos que não surgiam. … Continue reading SEMEADURAS INFANTIS
Categoria: Memórias antigas de África
ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO
Quando fui para a escola, tendo completado sete aninhos, já sabia ler, escrever e contar, por empenho da minha mãe. Não me lembro disso, mas o assunto foi por ela referido, várias vezes, quando eu era já mais crescido. O seu orgulho indisfarçado tinha fundamento pois o feito estava longe de ser generalizado entre as … Continue reading ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO
SUSTO ESTRONDOSO
Apertei o dedo e, subitamente, o estrondo inundou-me o cérebro ao mesmo tempo que o meu corpo foi sacudido violentamente. Dizer que foi um grande susto é faltar à verdade. Apanhei um cagaço do caraças! Terá sido a maior travessura que cometi na vida, e esta palavra não se aproxima minimamente da gravidade do que … Continue reading SUSTO ESTRONDOSO
DOIS CRIMES NA NOITE
O que sucedeu naquela madrugada foi estranho, no momento em que ocorreu. E foi quase incompreensível para mim, que teria dez ou onze anos, quando soube a razão dos gritos. A explicação só surgiu na manhã seguinte, ao escutar as conversas em tom grave dos adultos. Nessa noite, ficámos a dormir em casa da família … Continue reading DOIS CRIMES NA NOITE
EMBOSCADA DE GAITAS
Como quem faz uma emboscada, os três rapazolas aguardam atrás de um eucalipto. Do outro lado da rua chegam indicações de que a cerimónia está para breve, e fazemos a confirmação nos nossos relógios de pulso. À hora certa, o corneteiro inicia o toque de hastear a bandeira e dois dos nossos sacam das gaitas … Continue reading EMBOSCADA DE GAITAS
O RAPAZ DOS GAFANHOTOS
A imagem do rapaz a comer gafanhotos vivos vem à superfície das memórias com alguma frequência, a maioria das vezes quando me surgem cenários com diferenças culturais de monta. A lembrança vem do início dos anos setenta, quando eu tinha idade semelhante à do protagonista. Nesse dia, ao cair da noite, uma nuvem verde vinda … Continue reading O RAPAZ DOS GAFANHOTOS
O HIPPIE DESTERRADO E A PIDE
Parece que estou a vê-lo, bem-falante, pesadão e melenas, sempre de sandálias e calções. Só não cabia bem no estereótipo pois usava camisa branca de marca. Tinha sido enviado pelos pais para a casa de um tio na vila do interior, longe das distrações de Luanda. As razões do castigo, se alguma vez as soube, … Continue reading O HIPPIE DESTERRADO E A PIDE
FRUTA DO TEMPO PASSADO
O baloiço tosco pendurado pelo pai na goiabeira faz parte das boas imagens que guardo da infância. E foi também nesse pequeno tronco malhado e flexível que aprendi a trepar, habilidade que depois desenvolvi na outra fruteira do quintal, a nespereira. Esta era uma árvore grande, aos olhos da criança que eu ainda era, sobravam … Continue reading FRUTA DO TEMPO PASSADO
PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO
Metida a mão dentro da cabaça e sentindo os grãos, o ladrão encheu a mão e puxou, mas o punho fechado não coube na estreita abertura. Entretanto assomou o guarda e o assustado assaltante puxou com mais força a mão entalada que não saiu, tentou fugir mas não resultou pois a cabaça estava bem amarrada … Continue reading PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO
O CÁGADO CONTORCIONISTA
Zangada e cerrando os dentes, a mãe vinha com o cágado na mão. Quando se aproximou, ouvi-lhe o protesto sem destinatário: “Quem é que ela julga que quer enganar!” A vizinha tinha chamado a nossa mãe, e ela acercou-se da vedação que separava os quintais, estranhando o contacto por parte de quem quase nunca o … Continue reading O CÁGADO CONTORCIONISTA
O MUSEU DA MEMÓRIA
Pacientemente, a família desfilou diante dos meus olhos um conjunto de objectos que fui acumulando ao longo de décadas, e que estavam a monte no sótão, fazendo parte daquilo que comecei a denominar, em tom de brincadeira, o “meu museu”. Não sei de quem partiu a ideia do desfile, mas foi o presente especial que … Continue reading O MUSEU DA MEMÓRIA
A TIFA
No meio da nuvem branca e malcheirosa, os vultos de farda parda faziam uma estranha coreografia. Uns, desenrolando da traseira do veículo um tubo flexível com um longo espalhador metálico, introduziam fumo nos bueiros e demais orifícios das ruas e passeios. Outros, com uma barulhenta máquina portátil, lançavam fumo nas habitações e casas comerciais. Apareciam … Continue reading A TIFA
A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL
“Onde está a orelha do leitão?” Pergunta retórica, pois todos os olhos se fixaram na face bonacheirona, corada e abanando que não, mas com uma expressão que o desmentia. Alto, que estou a colocar o reco antes do enredo, que é outro modo de dizer que a carroça está à frente dos bois. Haverá ainda … Continue reading A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL
NO LOBITO
No início dos anos setenta fomos viver junto ao mar, no Lobito, por transferência do pai, que era funcionário da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela. Anos felizes para um rapazinho de onze, doze anos. A mudança trouxe novos hábitos, novas caras e excelente peixe fresco, por comparação ao que se comia no interior, … Continue reading NO LOBITO
VETERINÁRIO GARBOSO
O homem apareceu, primeiro a cavalo, com farda clara, binóculos ao peito, carabina a tiracolo, e depois a conduzir o Land Rover pela “picada” arenosa no meio do mato, passando por árvores baixas e ervas altas amareladas pela poeira. Uma voz profissional, descrevendo as tarefas do garboso figurão, quase declamando, dava o necessário contexto às … Continue reading VETERINÁRIO GARBOSO
O BÚFALO
O “Búfalo” era o fotógrafo da vila, e a alcunha tinha algum fundamento. De pescoço curto e grosso, cabelo oleoso e desalinhado, caminhava sempre com a cabeça para a frente, como se fosse investir. Óculos de aros pesados, pretos e de lentes espessas faziam a personagem ainda menos simpática. Quando comecei a brincar com um … Continue reading O BÚFALO
MAIOR QUE A MINHA MÃO
Há ocasiões em que somos surpreendidos pela real dimensão de algo que recordamos da nossa infância, quando tudo nos parecia grande. Assim, foi uma sensação estranha quando vi fotografias recentes das casas do bairro onde cresci até aos dez anos. Afinal, não eram assim tão altas. Talvez seja esse efeito a corromper a lembrança que … Continue reading MAIOR QUE A MINHA MÃO
FILOSOFIA DE PORCO
O planalto parecia rigorosamente dividido ao meio. As metades, ambas com árvores pequenas e ervas altas, estendiam-se sem relevo até perder de vista. A linha vermelha que separava a paisagem vinha do horizonte até nos encontrar, transformando-se gradualmente na estrada de terra batida por uma onde avançávamos rapidamente. A nossa passagem levantava uma nuvem de … Continue reading FILOSOFIA DE PORCO
FRAGMENTOS DO PLANETA
A improvisada prateleira, uma tábua tosca apoiada em dois tijolos, exibia a preciosa colecção. Recolhidos um pouco por todo o lado, os fragmentos do planeta exibiam cores, tamanhos e texturas variadas, uns eram brilhantes e outros não. As peças mais bonitas, as minhas preferidas, eram estruturas cristalinas, quase puras, algumas tão transparentes que pareciam feitas … Continue reading FRAGMENTOS DO PLANETA
A PONTE ENTRANÇADA
Nunca tal coisa tinha visto, e não mais voltei a ver. A esburacada estrada de terra batida tinha chegado ao rio, e, para o atravessar, lá estava a ponte. Não era uma ponte como as outras que abundavam na região, feitas de troncos e tábuas grossas, ou então de cimento, as melhores. Não, aquela parecia … Continue reading A PONTE ENTRANÇADA
LOENGOS
O muro não era alto, mas a sebe, essa sim. Feita de velhos cedros imbricados e podados com regularidade, escondia o edifício térreo que se estendia ao longo do grande pátio, escudo e pau de bandeira ao meio, por cima da porta. A sebe escondia também outra “construção”, mas no seu miolo. Ao longo dos … Continue reading LOENGOS
MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS
Nestes textos, revelei vários episódios de uma infância vivida em Angola, nos anos já longínquos da década de 60 do século passado. Muitos mais estão ainda por sair da matriz orgânica e passarem a uma sucessão de zeros e uns nos circuitos de um computador. O tempo de escrita vai escasseando e, em mês de … Continue reading MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS
DUAS RODAS
A máquina tinha rodas de 26 polegadas e cheirava a borracha nova. Vinha com o quadro e o garfo pintados de verde, que era já a minha cor favorita, e a marca em letras brancas. A bicicleta, prémio familiar pelo bom desempenho escolar, chegou da cidade mais próxima sem anúncio prévio. “Anda aqui ver uma … Continue reading DUAS RODAS
ATIREI O PAU AO…
Encontrámo-nos a meio do caminho enlameado, como se fosse um duelo. Para me amedrontar, ergueu-se ao máximo, tentando parecer maior do que era na realidade. Dei-lhe com um pau e acabou o combate, tão rapidamente como tinha iniciado. Contada deste modo a memória vale pouco, pelo que, agora, vou repeti-la em câmara lenta como no … Continue reading ATIREI O PAU AO…
O MONSTRO
O primeiro que vi era maior que eu. Muito maior. Se me estendesse na areia da praia a seu lado, seria o dobro de mim. O monstro metia medo, com aquela grande e bizarra cabeça, bocarra aberta e dentes aguçados. Para ser mais rigoroso, deveria dizer quanto eu media, para que a comparação faça mais … Continue reading O MONSTRO
FILA PARA A PISTOLA
A longa fila conduzia o pessoal, rapidamente e sem conversas, a um furgão estacionado na sombra, à frente do qual um homem usava repetidamente uma grande pistola. A situação era assustadora, pelas dimensões e pelo formato estranho da “arma”, que era mesmo especial. Apesar do susto, todos passavam pelo homem e, após breve paragem, continuavam … Continue reading FILA PARA A PISTOLA
A CAIXA DE NATAL
A caixa de madeira chegou com muita antecedência, e foi muito bem recebida. Vinha de longe, oito mil quilómetros mais a norte, e era o modo dos avós europeus estenderem o espírito natalício ao filho, nora e netos, no “verão” africano passado na quente e muito húmida cidade do Lobito. Dentro, vinha coisa boa. Desde … Continue reading A CAIXA DE NATAL
TRINITÁ
Camacupa, anos 70, era eu um adolescente imberbe e de guedelhas azeitadas pelos ombros. Nesse tempo, íamos com frequência ao clube principal da vila, pois o cinema era barato e constituía diversão quase sempre certa. A sala era minimalista, as cadeiras eram feitas de tábuas lisas, de madeira, tal como o chão cá mais para … Continue reading TRINITÁ
O ADORMECIDO E O COICE
O N. limpava os óculos repetidamente, mas continuava sem ver bem. A causa do embaciamento não estava nas lentes, mas sim na cerveja. Em dia de festa na vila, ainda havia luz quando o grupo de amigos se reuniu à conversa no bar mais moderno que havia, e a mesa encheu-se gradualmente de copos vazios, … Continue reading O ADORMECIDO E O COICE
SACO DE BARRIGA ABERTA
O raio de luz entrava pela porta e condensava os grãos de fina poeira num feixe oblíquo, quase sólido. A mãe, sentada na sombra com o grande saco de pano às riscas azuis no colo, repetia o gesto uma e outra vez. Mostrava o jeitinho de já ter feito muitas vezes a tarefa. Ao sol, … Continue reading SACO DE BARRIGA ABERTA
OS PÉS DESCALÇOS
Os pés de quem andou descalço toda a vida são diferentes. Vi deles um número suficientemente elevado para não mais me esquecer. Os dos jovens e das crianças ainda não calcorrearam suficientes caminhos para que se note, são mais ou menos perfeitos, como vieram ao mundo. Já os pés dos velhos contam outra história, e … Continue reading OS PÉS DESCALÇOS
CAMA DE BATATAS
O meu pai deu-me a chave de casa aos doze anos. Fiquei inchado de orgulho, pois nenhum dos meus colegas tinha direito a tal privilégio. Era para andar com ela no bolso, para entrar no regresso do liceu, hora a que não havia ninguém para me abrir a porta. Talvez um ano depois, tive autorização … Continue reading CAMA DE BATATAS
CARROÇA DESGOVERNADA
No caminho, envolvida por uma nuvem de poeira, uma carroça de madeira segue rapidamente aos solavancos, puxada por um par de cavalos desgovernados. Ou seriam mulas? A paisagem, uma planície dominada por ervas secas, remete para o Oeste americano. Pergunto-me se já estarão a pensar que isto parece mesmo uma cena de filme. Subitamente, um … Continue reading CARROÇA DESGOVERNADA
VICENTINAS
A música de Verdi ouvia-se ao longe, todos os anos era a mesma coisa. Não descortino qual a razão pela qual o coro dos escravos, mas sobretudo a marcha triunfal de Aída, eram as mais usadas. Sei que assim se chamavam, pois cedo o descobri ao escutar os discos da coleção familiar. Haveria outras músicas, … Continue reading VICENTINAS
CÔCOS E QUITETAS
Atirar pedras a côcos não era a coisa mais divertida para fazer? Claro que sim! E tentar mais uma vez, e outra, e outra, até conseguir derrubar um deles, não era uma vitória para a criançada? Era sim. O mais fácil estava feito mas, para atingir o merecido prémio, faltava o mais trabalhoso. Primeiro, regressar … Continue reading CÔCOS E QUITETAS
SAPATEIRO GULOSO
Só quem entrava se apercebia, e os clientes fungavam: o que é isto? À pergunta mil vezes repetida, ele respondia sempre da mesma maneira: não sinto nada... Cheirava a cola. Daquela antiga, orgânica, que cheirava mesmo mal. Afinal, a origem de tal “aroma” era uma lata velha, escurecida pelo uso continuado, onde se aquecia com … Continue reading SAPATEIRO GULOSO
O VELHOTE DOS BONECOS
Parece que foi ontem. Fecho os olhos e vejo-o a sentar-se no passeio, costas apoiadas numa parede ou numa árvore, pois a idade avançada não ajuda. Do saco encardido, feito de serapilheira gasta, tira cuidadosamente o estranho emaranhado de fio de sisal muito sujo, de onde pendem bonecos toscos feitos de madeira esculpida, arame, pedacinhos … Continue reading O VELHOTE DOS BONECOS
AFINAL NÃO DESCARRILA
Quando somos miúdos fazemos coisas muito estúpidas e sem pensar nas consequências. Sei hoje que a escola primária distava de casa cerca de 800 metros e eu fazia diariamente o caminho, que na altura parecia muito maior, pasta na mão e bata vestida. Primeiro tinha que chegar ao fim do bairro. Depois, atravessava um eucaliptal … Continue reading AFINAL NÃO DESCARRILA
PESCAR LAGARTOS
Nos anos 60, o nosso quintal tinha lagartos verdes, gordos e muito rápidos, que eu não conseguia agarrar. Um dia, não sei como me ocorreu a ideia, torci um alfinete, prendi-o numa linha de costura, apanhei um gafanhoto e amarrei-o no alfinete, bem vivo e a espernear. Depois, coloquei o instrumento de pesca junto ao … Continue reading PESCAR LAGARTOS
KISSÂNGUA
Quatro galfarros sentados à mesa tosca, coberta de linóleo. Ou seriam cinco? Não importa. Um copo para cada um e, no meio, uma garrafa de litro. Por trás das gotículas condensadas no vidro, um líquido esbranquiçado adivinhava-se dentro dos copos e da garrafa quase vazia.Lá fora, as bicicletas encostadas à parede esperavam para nos levar … Continue reading KISSÂNGUA
O CANTO DO PÁSSARO
No silêncio morno da tarde, o canto longo e melodioso preenchia o espaço. Repetitivo mas não monótono, era mesmo reconfortante e acompanhou-me em muitas tardes de estudo durante uma boa parte da infância. Saía de uma “caixa” e, se fosse hoje, diríamos ser um som de ambiente, fabricado, e não anda longe da verdade. O … Continue reading O CANTO DO PÁSSARO
CINEMA PROIBIDO
No Lobito, por volta de 1970, passou um filme proibido a menores de 21 anos. A notícia correu depressa e alguns miúdos do bairro, catraios de 11 ou 12 anos, combinaram a grande aventura. No dia marcado, quando o filme começou, era já de noite. Como o Cinema Baía era ao ar livre, trepámos ao … Continue reading CINEMA PROIBIDO
DENTES
Quantos dos grãos que sentia debaixo dos pés seriam dentes como o meu? Teria passado mais de uma hora de brincadeira de crianças dentro da improvisada piscina natural, cheia de água bem quente, muito quente mesmo? Certamente! E tinha feito bochechos frequentes, amolecendo a gengiva? Claro que sim. Em resultado, o incisivo de leite, já … Continue reading DENTES
QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS
Na Serra da Leba, na Serra de Valongo, na Serra Amarela e no meio da cidade, quatro Amigos do Homem pregaram-se-me na memória. Tiveram sortes distintas. Melhor dizendo, tiveram sortes de cão, que é uma expressão com sentidos opostos em função do contexto. E aqui também. O primeiro morreu instantaneamente. Nem sei que cor tinha, … Continue reading QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS
O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA
No final da quarta classe a Escola Primária ofereceu um livro ao melhor aluno. O rapaz já o tinha na mão e todos batiam palmas quando uma das professoras disse bem alto que não podia ser. E porquê? Porque ele era repetente. Mandaram-no embora sem o livro. Uma total falta de sensibilidade, uma grosseria para … Continue reading O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA
O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”
No breu da noite africana, ela está iluminada pela luz crua do Petromax(1) e milhentos insectos esvoaçam em seu redor formando um véu brilhante. Cabelos longos cobrindo metade do rosto, a jovem mulher dedilha ritmadamente as cordas. E canta, sentada na beira do alpendre de madeira tosca. Canta com um sorriso malandro, a condizer com … Continue reading O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”
MAÇAROCAS NO MOTOR
Fumegante, parado na beira da estrada, o velho jipe não andava nem mais um metro. Levantado o capô, nuvens brancas saíam do radiador fervente em forte contraste com os nossos rostos e vestuário. Estávamos avermelhados, e muito, do pó levantado do piso pelas poucas viaturas que tinham passado por nós, naquele sábado em que um … Continue reading MAÇAROCAS NO MOTOR
CASSETETE NO LOMBO
Só acordei quando senti o cassetete a morder o lombo. Na verdade não tinha estado a dormir mas, durante algum tempo, talvez uma vintena de segundos, não sabia o que se tinha passado comigo, em que estado alienado tinha vivido. A dor aguda despertou-me mas não se revelou grave, deixou apenas uma grande marca negra … Continue reading CASSETETE NO LOMBO
TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?
Troar, ribombar, retumbar? Não sei que palavra usar para descrever o som poderoso que nos faz vibrar o peito, qual caixa de ressonância de um instrumento emudecido, sem palavras. Sem falar, pelas emoções no máximo. Perfeitamente compreensível, já que estava na beira de um fenómeno da natureza impressionante. Pelo som, sim, mas também pelas dimensões, … Continue reading TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?
MUNIÇÕES FORA DO PRAZO
No lixo do quartel abandonado pelas tropas portuguesas havia muito material queimado, sem utilidade. O que nos atraiu a atenção foi um amontoado de balas de aspecto antigo, cápsulas oxidadas, muitas já com verdete. Levámos uma mão cheia delas. Não imaginávamos o perigo que viria de tal infantilidade em período de escaramuças entre os guerrilheiros … Continue reading MUNIÇÕES FORA DO PRAZO
GIRINOS EM CASA
Quantos cordões de ovos levei do ribeiro para casa? Quantos sapinhos vi desaparecer no quintal? Observar a maravilha das metamorfoses, repetidamente, não cansava os nossos olhos de crianças. Ao regressar da escola primária, parava muitas vezes no fim da mata que rodeava o bairro onde morávamos. Junto ao pequeno ribeiro que aí corria lentamente, eu … Continue reading GIRINOS EM CASA
TREINO MILITAR
Deram um par de botas verdes de lona e uma farda a cada um. Uma semana depois devolvi a farda e fiquei com as botas. Sim, o meu treino militar teve a duração de uma semana, e mais não quis. No ano de 1974, as forças armadas de cada um dos movimentos de libertação de … Continue reading TREINO MILITAR
STÊNCIL QUEIMADO
As palavras estavam do avesso e como que arrepiadas. Decifrar o texto na superfície ondulada do novelo de cinzas foi um desafio. Feitos detectives, entusiasmados na ânsia da descoberta, a rapaziada dissecou lentamente o stêncil queimado que se desfazia a cada toque. As frases ainda legíveis foram verbalizadas lentamente, palavra a palavra, para que todos … Continue reading STÊNCIL QUEIMADO
HOTEL AEROPORTO
No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO
O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME
Não tinha ainda percorrido duzentos metros e já eu caía do carro. Pulso e joelhos esfolados, e também uma grande amassadela na autoestima. Era o preço de uma decisão menos ponderada, de uma má avaliação e, convenhamos, algum azar. De visita a familiares, calhou passar o leiteiro no seu veículo adaptado com uma plataforma na … Continue reading O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME
CHEIRA A MAR!
Depois de algumas horas de viagem, a estrada abandona as rectas intermináveis e começa a curvar-se, primeiro suavemente, depois de forma mais pronunciada, adaptando-se à orografia da paisagem. Um de nós exclama subitamente: Já cheira a mar! É o segundo sinal de aproximação do fim da viagem, depois das curvas da via terem avisado. Faltam … Continue reading CHEIRA A MAR!
PERDIDO
Sabem dizer-me como se vai para a agência funerária Santa Cruz? Foi assim que perguntei na mesa do tasco, a primeira a seguir à porta. Sorrisos divertidos nas faces dos homens, rodeados de finos e pratinhos com ginguba. Antes que qualquer deles falasse, ouvi: “Paulinho! O que fazes aqui?” Aquela voz cantada era conhecida. Virei-me … Continue reading PERDIDO
NA TENDA
A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual. A ave levantou-se e … Continue reading NA TENDA
A FISGA
Poc! O passarinho caiu ao solo mesmo em frente aos meus pés. Imediatamente senti pena do bichinho frágil, muito mais intensa do que a satisfação infantil de ter pela primeira vez ter acertado num alvo. Naquele tempo quase todos os miúdos tinham fisga, feita de um pau bifurcado, duas tiras de borracha aproveitada de uma … Continue reading A FISGA
ESPADAS NA PRAIA
À medida que nos aproximamos, aumenta o reflexo do sol. Brilha em dezenas de espadas, perfeitamente alinhadas umas ao lado das outras. Não, não são espadas metálicas, embora o prateado intenso assim o sugira. Nem são armas, ainda não passaram muitas horas desde que ainda estavam vivos. Sábado ao início da manhã. Os abundantes peixes-espada, … Continue reading ESPADAS NA PRAIA
FATEIXA
No meio da ponte, o homem olha lá para o fundo resignado, indiferente a quem vai passando sem o ver. Tinha tentado de outras formas mas sem sucesso, e acabara por chegar à conclusão, tinha que ser mesmo ali. Lá em baixo, adivinha-se pelos movimentos frenéticos a futura refeição da sua família pobre. Então, deixa … Continue reading FATEIXA
MÚSICA
O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do Budokan … Continue reading MÚSICA
CLIENTE ASSÍDUO
Um dia descobri a sua existência e não mais a larguei. Vinha ao bairro uma vez por semana, em dia certo, esperava os clientes assíduos, e apelava aos transeuntes tentando ampliar a clientela. Fazia-se transportar num enorme furgão branco de formato inconfundível e era conhecida por todos. Era a biblioteca Itinerante e fazia parte da … Continue reading CLIENTE ASSÍDUO
A BATALHA
Foi memorável a batalha! Tínhamos conseguido atingir-nos uns aos outros com projécteis vermelhos e peganhentos, tudo numa grande algazarra de adolescentes, corria o ano de 1972. O pouco simpático professor de matemática tinha faltado e a malta correu para o pomar que ficava nas traseiras da escola, a extensão de Camacupa do Liceu Silva Cunha, … Continue reading A BATALHA
SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE
Não era a pior comida do mundo, e nunca me incomodou muito tê-la frequentemente. Mas é melhor explicar. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, vivíamos nós no Lobito, em Angola, muitas refeições eram bastante desinteressantes, o mínimo que se poderia dizer. Na verdade, era frequente termos vários dias consecutivos em que, … Continue reading SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE
AVES
Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta. Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos … Continue reading AVES
VER A ENCICLOPÉDIA
Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA
TORNOZELOS SOFRIDOS
O terno vai batendo nos tornozelos a cada passo, o sofrimento é maior à medida que a distância percorrida aumenta e as forças me vão faltando. O tal terno não era uma carta de jogar nem peça de dominó, não era um fato com 3 peças de vestuário, nem sequer um conjunto de sofás… Era … Continue reading TORNOZELOS SOFRIDOS
WILLYS
Aprendi a conduzir aos 13 anos num velho jipe da segunda guerra mundial. Dito desta forma pomposa parece importante, fora do comum, uma raridade mesmo. O facto é que não tenho a certeza se o pequeno Willys verde teria mesmo andando na guerra. Seria uma das muitas unidades usadas oferecidas pelo Canadá ou pelos Estados … Continue reading WILLYS
O ASSALTO
Gente aos gritos e muito fumo por todo lado. Há quem consiga deitar a mão a grandes caixotes a arder e os desfaça rapidamente, tentando salvar o conteúdo e atirando-o para fora. Caixas caem no chão, e também rolos de pano e outras coisas que não vi bem. As chamas crepitam cada vez mais, está … Continue reading O ASSALTO
O MATADOR
O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira. Depois de duas frenéticas voltas … Continue reading O MATADOR
BAFORADAS
O Né tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou, mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano. Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, … Continue reading BAFORADAS
TABAIBOS NAS CUECAS
O Zé partiu o braço três vezes, e das três vezes levei-o à mãe. Não me lembro de mais nada dele. Já o Manel, vamos chamá-lo assim, também o levei à mãe, só uma vez, mas foi por uma razão completamente diferente... Naquele tempo, dizemos assim quando queremos significar que algo se passou há algumas … Continue reading TABAIBOS NAS CUECAS
PRIMEIRA TUMBOA
Agosto de 1975. Finalmente vergados, iniciamos a fuga da guerra. Percorremos mil quilómetros de estradas perigosas, bandidos e barreiras militares múltiplas, até que as circunstâncias nos fizeram chegar a Moçâmedes. A seguir, foram semanas à espera de transporte seguro para sair do país. O barco para Luanda só chegaria em outubro, um pequeno cargueiro que … Continue reading PRIMEIRA TUMBOA
PIROGA NO CUNENE
Aprender a controlar uma canoa, melhor dizendo, uma piroga, num rio com de jacarés foi uma aventura. Se fosse hoje, diria imprudência. Mesmo! Mas afinal nunca ocorreu qualquer percalço. No rio Cunene, como em muitos rios e lagos de todo o planeta, a piroga é feita de um tronco de árvore escavado. A tecnologia da … Continue reading PIROGA NO CUNENE
MARMELADA PARA TODOS
Marmelada para todos, menos para mim. Já não suporto o cheiro! O que antes era bom, agora enjoa. Como pode ser possível? Simples. Experimentem passar uma semana voluntários na cozinha, em que a tarefa de várias horas é cortar porções de marmelada para distribuir aos restantes pendurados. Talvez “pendurados” não seja o termo mais adequado, … Continue reading MARMELADA PARA TODOS
PEIXE FRESCO, MUITO FRESCO
Em frente passa continuamente uma “sopa” de peixe ainda meio vivo. Vai carregado por forte corrente de água bombeada do mar para o estreito canal de madeira. Tiro uma dúzia de carapaus para um balde, que o fogareiro já espera com o carvão em brasa. A cada um é só colocar os dedos nas guelras … Continue reading PEIXE FRESCO, MUITO FRESCO
VAMPIROS NO QUARTEL
Soldados a cantar, soldados a chorar, e eu a olhar. Nunca tinha ouvido os versos que diziam: “No céu cinzento/Sob o astro mudo/Batendo as asas/Pela noite calada…” E, marcado por tal cenário, não mais esqueci. Antes da revolução de 1974, não se falava abertamente da validade da guerra colonial, nem se cantava "Eles comem tudo, … Continue reading VAMPIROS NO QUARTEL
OS FLAMINGOS CHOCAM
Os flamingos chocam. Uma afirmação que pode causar alguma estranheza pois os flamingos, como todos sabem, são aves e põem ovos no ninho. Para se desenvolverem, os embriões precisam de temperatura elevada durante algum tempo, o que se designa por choco. Chocam, portanto. Mas não é este período de 30 dias da vida dos flamingos … Continue reading OS FLAMINGOS CHOCAM
O TIGRE QUE FOI COMIDO PELA TRAÇA
O tigre foi mesmo comido pela traça, ou melhor, pelas traças, muitas, e foi a sua perdição. O tigre não era um tigre mesmo, era um peixe-tigre, mas é melhor começar do início. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado (outubro de 1974) fomos a um concurso de pesca no rio Cubango, … Continue reading O TIGRE QUE FOI COMIDO PELA TRAÇA
ANTES DO TEMPO
O ombro esquerdo queima. Aguenta mais um pouco. Queima mesmo! Está escuro e caminhamos em fila indiana ao longo da anhara húmida. Mudo o peso para o ombro direito. Também queima. Aguenta mais um pouco. No céu, a via láctea ilumina fracamente o caminho, mas os olhos há muito que se adaptaram. Na verdade, não … Continue reading ANTES DO TEMPO