SEMEADURAS INFANTIS

O tempo passava e eu não escondia a desapontamento por não ver aparecer o que tanto aguardava, pois a expectativa criada pelos progenitores era grande. Tinha escavado a terra do quintal, depositado os grãos nos buracos, cobrindo-os depois e juntado água até encharcar tudo. Depois fui observando o crescimento, ansiando pelos frutos que não surgiam. … Continue reading SEMEADURAS INFANTIS

ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO

Quando fui para a escola, tendo completado sete aninhos,  já sabia ler, escrever e contar, por empenho da minha mãe. Não me lembro disso, mas o assunto foi por ela referido, várias vezes, quando eu era já mais crescido. O seu orgulho indisfarçado tinha fundamento pois o feito estava longe de ser generalizado entre as … Continue reading ADEUS TINTEIRO, ADEUS APARO

SUSTO ESTRONDOSO

Apertei o dedo e, subitamente, o estrondo inundou-me o cérebro ao mesmo tempo que o meu corpo foi sacudido violentamente. Dizer que foi um grande susto é faltar à verdade. Apanhei um cagaço do caraças! Terá sido a maior travessura que cometi na vida, e esta palavra não se aproxima minimamente da gravidade do que … Continue reading SUSTO ESTRONDOSO

DOIS CRIMES NA NOITE

O que sucedeu naquela madrugada foi estranho, no momento em que ocorreu. E foi quase incompreensível para mim, que teria dez ou onze anos, quando soube a razão dos gritos. A explicação só surgiu na manhã seguinte, ao escutar as conversas em tom grave dos adultos.  Nessa noite, ficámos a dormir em casa da família … Continue reading DOIS CRIMES NA NOITE

O RAPAZ DOS GAFANHOTOS

A imagem do rapaz a comer gafanhotos vivos vem à superfície das memórias com alguma frequência, a maioria das vezes quando me surgem cenários com diferenças culturais de monta.  A lembrança vem do início dos anos setenta, quando eu tinha idade semelhante à do protagonista. Nesse dia, ao cair da noite, uma nuvem verde vinda … Continue reading O RAPAZ DOS GAFANHOTOS

FRUTA DO TEMPO PASSADO

O baloiço tosco pendurado pelo pai na goiabeira faz parte das boas imagens que guardo da infância. E foi também nesse pequeno tronco malhado e flexível que aprendi a trepar, habilidade que depois desenvolvi na outra fruteira do quintal, a nespereira. Esta era uma árvore grande, aos olhos da criança que eu ainda era, sobravam … Continue reading FRUTA DO TEMPO PASSADO

PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO

Metida a mão dentro da cabaça e sentindo os grãos, o ladrão encheu a mão e puxou, mas o punho fechado não coube na estreita abertura. Entretanto assomou o guarda e o assustado assaltante puxou com mais força a mão entalada que não saiu, tentou fugir mas não resultou pois a cabaça estava bem amarrada … Continue reading PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO

O CÁGADO CONTORCIONISTA

Zangada e cerrando os dentes, a mãe vinha com o cágado na mão. Quando se aproximou, ouvi-lhe o protesto sem destinatário: “Quem é que ela julga que quer enganar!”  A vizinha tinha chamado a nossa mãe, e ela acercou-se da vedação que separava os quintais, estranhando o contacto por parte de quem quase nunca o … Continue reading O CÁGADO CONTORCIONISTA

O MUSEU DA MEMÓRIA

Pacientemente, a família desfilou diante dos meus olhos um conjunto de objectos que fui acumulando ao longo de décadas, e que estavam a monte no sótão, fazendo parte daquilo que comecei a denominar, em tom de brincadeira, o “meu museu”. Não sei de quem partiu a ideia do desfile, mas foi o presente especial que … Continue reading O MUSEU DA MEMÓRIA

A TIFA

No meio da nuvem branca e malcheirosa, os vultos de farda parda faziam uma estranha coreografia. Uns, desenrolando da traseira do veículo um tubo flexível com um longo espalhador metálico, introduziam fumo nos bueiros e demais orifícios das ruas e passeios. Outros, com uma barulhenta máquina portátil, lançavam fumo nas habitações e casas comerciais. Apareciam … Continue reading A TIFA

A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL

“Onde está a orelha do leitão?” Pergunta retórica, pois todos os olhos se fixaram na face bonacheirona, corada e abanando que não, mas com uma expressão que o desmentia. Alto, que estou a colocar o reco antes do enredo, que é outro modo de dizer que a carroça está à frente dos bois. Haverá ainda … Continue reading A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL

NO LOBITO

No início dos anos setenta fomos viver junto ao mar, no Lobito, por transferência do pai, que era funcionário da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela. Anos felizes para um rapazinho de onze, doze anos. A mudança trouxe novos hábitos, novas caras e excelente peixe fresco, por comparação ao que se comia no interior, … Continue reading NO LOBITO

VETERINÁRIO GARBOSO

O homem apareceu, primeiro a cavalo, com farda clara, binóculos ao peito, carabina a tiracolo, e depois a conduzir o Land Rover pela “picada” arenosa no meio do mato, passando por árvores baixas e ervas altas amareladas pela poeira. Uma voz profissional, descrevendo as tarefas do garboso figurão, quase declamando, dava o necessário contexto às … Continue reading VETERINÁRIO GARBOSO

O BÚFALO

O “Búfalo” era o fotógrafo da vila, e a alcunha tinha algum fundamento. De pescoço curto e grosso, cabelo oleoso e desalinhado, caminhava sempre com a cabeça para a frente, como se fosse investir. Óculos de aros pesados, pretos e de lentes espessas faziam a personagem ainda menos simpática. Quando comecei a brincar com um … Continue reading O BÚFALO

MAIOR QUE A MINHA MÃO

Há ocasiões em que somos surpreendidos pela real dimensão de algo que recordamos da nossa infância, quando tudo nos parecia grande. Assim, foi uma sensação estranha quando vi fotografias recentes das casas do bairro onde cresci até aos dez anos. Afinal, não eram assim tão altas. Talvez seja esse efeito a corromper a lembrança que … Continue reading MAIOR QUE A MINHA MÃO

FILOSOFIA DE PORCO

O planalto parecia rigorosamente dividido ao meio. As metades, ambas com árvores pequenas e ervas altas, estendiam-se sem relevo até perder de vista. A linha vermelha que separava a paisagem vinha do horizonte até nos encontrar, transformando-se gradualmente na estrada de terra batida por uma onde avançávamos rapidamente. A nossa passagem levantava uma nuvem de … Continue reading FILOSOFIA DE PORCO

FRAGMENTOS DO PLANETA

A improvisada prateleira, uma tábua tosca apoiada em dois tijolos, exibia a preciosa colecção. Recolhidos um pouco por todo o lado, os fragmentos do planeta exibiam cores, tamanhos e texturas  variadas, uns eram brilhantes e outros não. As peças mais bonitas, as minhas preferidas, eram estruturas cristalinas, quase puras, algumas tão transparentes que pareciam feitas … Continue reading FRAGMENTOS DO PLANETA

MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS

Nestes textos, revelei vários episódios de uma infância vivida em Angola, nos anos já longínquos da década de 60 do século passado. Muitos mais estão ainda por sair da matriz orgânica e passarem a uma sucessão de zeros e uns nos circuitos de um computador. O tempo de escrita vai escasseando e, em mês de … Continue reading MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS

ATIREI O PAU AO…

Encontrámo-nos a meio do caminho enlameado, como se fosse um duelo. Para me amedrontar, ergueu-se ao máximo, tentando parecer maior do que era na realidade. Dei-lhe com um pau e acabou o combate, tão rapidamente como tinha iniciado.  Contada deste modo a memória vale pouco, pelo que, agora, vou repeti-la em câmara lenta como no … Continue reading ATIREI O PAU AO…

FILA PARA A PISTOLA

A longa fila conduzia o pessoal, rapidamente e sem conversas, a um furgão estacionado na sombra, à frente do qual um homem usava repetidamente uma grande pistola. A situação era assustadora, pelas dimensões e pelo formato estranho da “arma”, que era mesmo especial. Apesar do susto, todos passavam pelo homem e, após breve paragem, continuavam … Continue reading FILA PARA A PISTOLA

A CAIXA DE NATAL

A caixa de madeira chegou com muita antecedência, e foi muito bem recebida. Vinha de longe, oito mil quilómetros mais a norte, e era o modo dos avós europeus estenderem o espírito natalício ao filho, nora e netos, no “verão” africano passado na quente e muito húmida cidade do Lobito. Dentro, vinha coisa boa. Desde … Continue reading A CAIXA DE NATAL

OS PÉS DESCALÇOS

Os pés de quem andou descalço toda a vida são diferentes. Vi deles um número suficientemente elevado para não mais me esquecer. Os dos jovens e das crianças ainda não calcorrearam suficientes caminhos para que se note, são mais ou menos perfeitos, como vieram ao mundo. Já os pés dos velhos contam outra história, e … Continue reading OS PÉS DESCALÇOS

CARROÇA DESGOVERNADA

No caminho, envolvida por uma nuvem de poeira, uma carroça de madeira segue rapidamente aos solavancos, puxada por um par de cavalos desgovernados. Ou seriam mulas? A paisagem, uma planície dominada por ervas secas, remete para o Oeste americano. Pergunto-me se já estarão a pensar que isto parece mesmo uma cena de filme. Subitamente, um … Continue reading CARROÇA DESGOVERNADA

SAPATEIRO GULOSO

Só quem entrava se apercebia, e os clientes fungavam: o que é isto? À pergunta mil vezes repetida, ele respondia sempre da mesma maneira: não sinto nada... Cheirava a cola. Daquela antiga, orgânica, que cheirava mesmo mal. Afinal, a origem de tal “aroma” era uma lata velha, escurecida pelo uso continuado, onde se aquecia com … Continue reading SAPATEIRO GULOSO

O VELHOTE DOS BONECOS

Parece que foi ontem. Fecho os olhos e vejo-o a sentar-se no passeio, costas apoiadas numa parede ou numa árvore, pois a idade avançada não ajuda. Do saco encardido, feito de serapilheira gasta, tira cuidadosamente o estranho emaranhado de fio de sisal muito sujo, de onde pendem bonecos toscos feitos de madeira esculpida, arame, pedacinhos … Continue reading O VELHOTE DOS BONECOS

O CANTO DO PÁSSARO

No silêncio morno da tarde, o canto longo e melodioso preenchia o espaço. Repetitivo mas não monótono, era mesmo reconfortante e acompanhou-me em muitas tardes de estudo durante uma boa parte da infância. Saía de uma “caixa” e, se fosse hoje, diríamos ser um som de ambiente, fabricado, e não anda longe da verdade.  O … Continue reading O CANTO DO PÁSSARO

DENTES

Quantos dos grãos que sentia debaixo dos pés seriam dentes como o meu? Teria passado mais de uma hora de brincadeira de crianças dentro da improvisada piscina natural, cheia de água bem quente, muito quente mesmo? Certamente! E tinha feito bochechos frequentes, amolecendo a gengiva? Claro que sim. Em resultado, o incisivo de leite, já … Continue reading DENTES

QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS

Na Serra da Leba, na Serra de Valongo, na Serra Amarela e no meio da cidade, quatro Amigos do Homem pregaram-se-me na memória. Tiveram sortes distintas. Melhor dizendo, tiveram sortes de cão, que é uma expressão com sentidos opostos em função do contexto. E aqui também. O primeiro morreu instantaneamente. Nem sei que cor tinha, … Continue reading QUATRO CÃES, O MOLIÈRE E OS OUTROS

O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA

No final da quarta classe a Escola Primária ofereceu um livro ao melhor aluno. O rapaz já o tinha na mão e todos batiam palmas quando uma das professoras disse bem alto que não podia ser. E porquê? Porque ele era repetente. Mandaram-no embora sem o livro. Uma total falta de sensibilidade, uma grosseria para … Continue reading O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA

O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”

No breu da noite africana, ela está iluminada pela luz crua do Petromax(1) e milhentos insectos esvoaçam em seu redor formando um véu brilhante. Cabelos longos cobrindo metade do rosto, a jovem mulher dedilha ritmadamente as cordas. E canta, sentada na beira do alpendre de madeira tosca. Canta com um sorriso malandro, a condizer com … Continue reading O HOMEM BARRIGUDO E OS “ÃES”

CASSETETE NO LOMBO

Só acordei quando senti o cassetete a morder o lombo. Na verdade não tinha estado a dormir mas, durante algum tempo, talvez uma vintena de segundos, não sabia o que se tinha passado comigo, em que estado alienado tinha vivido. A dor aguda despertou-me mas não se revelou grave, deixou apenas uma grande marca negra … Continue reading CASSETETE NO LOMBO

TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?

Troar, ribombar, retumbar? Não sei que palavra usar para descrever o som poderoso que nos faz vibrar o peito, qual caixa de ressonância de um instrumento emudecido, sem palavras. Sem falar, pelas emoções no máximo. Perfeitamente compreensível, já que estava na beira de um fenómeno da natureza impressionante. Pelo som, sim, mas também pelas dimensões, … Continue reading TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?

MUNIÇÕES FORA DO PRAZO

No lixo do quartel abandonado pelas tropas portuguesas havia muito material queimado, sem utilidade. O que nos atraiu a atenção foi um amontoado de balas de aspecto antigo, cápsulas oxidadas, muitas  já com verdete. Levámos uma mão cheia delas. Não imaginávamos o perigo que viria de tal infantilidade em período de escaramuças entre os guerrilheiros … Continue reading MUNIÇÕES FORA DO PRAZO

GIRINOS EM CASA

Quantos cordões de ovos levei do ribeiro para casa? Quantos sapinhos vi desaparecer no quintal? Observar a maravilha das metamorfoses, repetidamente, não cansava os nossos olhos de crianças.  Ao regressar da escola primária, parava muitas vezes no fim da mata que rodeava o bairro onde morávamos. Junto ao pequeno ribeiro que aí corria lentamente, eu … Continue reading GIRINOS EM CASA

STÊNCIL QUEIMADO

As palavras estavam do avesso e como que arrepiadas. Decifrar o texto na superfície ondulada do novelo de cinzas foi um desafio. Feitos detectives, entusiasmados na ânsia da descoberta, a rapaziada dissecou lentamente o stêncil queimado que se desfazia a cada toque. As frases ainda legíveis foram verbalizadas lentamente, palavra a palavra, para que todos … Continue reading STÊNCIL QUEIMADO

HOTEL AEROPORTO

No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no … Continue reading HOTEL AEROPORTO

O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME

Não tinha ainda percorrido duzentos metros e já eu caía do carro. Pulso e joelhos esfolados, e também uma grande amassadela na autoestima. Era o preço de uma decisão menos ponderada, de uma má avaliação e, convenhamos, algum azar.  De visita a familiares, calhou passar o leiteiro no seu veículo adaptado com uma plataforma na … Continue reading O LEITEIRO E A INÉRCIA TRAMARAM-ME

NA TENDA

A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual. A ave levantou-se e … Continue reading NA TENDA

ESPADAS NA PRAIA

À medida que nos aproximamos, aumenta o reflexo do sol. Brilha em dezenas de espadas, perfeitamente alinhadas umas ao lado das  outras. Não, não são espadas metálicas, embora o prateado intenso assim o sugira. Nem são armas, ainda não passaram muitas horas desde que ainda estavam vivos.  Sábado ao início da manhã. Os abundantes peixes-espada, … Continue reading ESPADAS NA PRAIA

MÚSICA

O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do  Budokan … Continue reading MÚSICA

CLIENTE ASSÍDUO

Um dia descobri a sua existência e não mais a larguei. Vinha ao bairro uma vez por semana, em dia certo, esperava os clientes assíduos, e apelava aos transeuntes tentando ampliar a clientela. Fazia-se transportar num enorme furgão branco de formato inconfundível e era conhecida por todos. Era a biblioteca Itinerante e fazia parte da … Continue reading CLIENTE ASSÍDUO

A BATALHA

Foi memorável a batalha! Tínhamos conseguido atingir-nos uns aos outros com projécteis vermelhos e peganhentos, tudo  numa grande algazarra de adolescentes, corria o ano de 1972. O pouco simpático professor de matemática tinha faltado e a malta correu para o pomar que ficava nas traseiras da escola, a extensão de Camacupa do Liceu Silva Cunha, … Continue reading A BATALHA

SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE

Não era a pior comida do mundo, e nunca me incomodou muito tê-la frequentemente. Mas é melhor explicar. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, vivíamos nós no Lobito, em Angola, muitas refeições eram bastante desinteressantes, o mínimo que se poderia dizer. Na verdade, era frequente termos vários dias consecutivos em que, … Continue reading SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE

AVES

Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta. Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos … Continue reading AVES

VER A ENCICLOPÉDIA

Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção  chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA

O MATADOR

O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira. Depois de duas frenéticas voltas … Continue reading O MATADOR

BAFORADAS

O Né  tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou,  mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano. Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, … Continue reading BAFORADAS

PRIMEIRA TUMBOA

Agosto de 1975. Finalmente vergados, iniciamos a fuga da guerra. Percorremos  mil quilómetros de estradas perigosas, bandidos e barreiras militares múltiplas, até que as circunstâncias nos fizeram chegar a Moçâmedes. A seguir, foram semanas à espera de transporte seguro para sair do país. O barco para Luanda só chegaria em outubro, um pequeno cargueiro que … Continue reading PRIMEIRA TUMBOA

MARMELADA PARA TODOS

Marmelada para todos, menos para mim. Já não suporto o cheiro! O que antes era bom, agora enjoa. Como pode ser possível? Simples. Experimentem passar uma semana voluntários na cozinha, em que a tarefa de várias horas é cortar porções de marmelada para distribuir aos restantes pendurados. Talvez “pendurados” não seja o termo mais adequado, … Continue reading MARMELADA PARA TODOS

OS FLAMINGOS CHOCAM

Os flamingos chocam. Uma afirmação que pode causar alguma estranheza pois os flamingos, como todos sabem, são aves e põem ovos no ninho. Para se desenvolverem, os embriões precisam de temperatura elevada durante algum tempo, o que se designa por choco. Chocam, portanto. Mas não é este período de 30 dias da vida dos flamingos … Continue reading OS FLAMINGOS CHOCAM

O TIGRE QUE FOI COMIDO PELA TRAÇA

O tigre foi mesmo comido pela traça, ou melhor, pelas traças, muitas, e foi a sua perdição. O tigre não era um tigre mesmo, era um peixe-tigre, mas é melhor começar do início. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado (outubro de 1974) fomos a um concurso de pesca no rio Cubango, … Continue reading O TIGRE QUE FOI COMIDO PELA TRAÇA