rascunho
Devido ao incêndio de 1974, a porta principal do grande edifício estava encerrada para obras na ala norte. Por esse motivo, quando lá entrei como aluno pela primeira vez, em 1978, a entrada na Faculdade de Ciências fazia-se por duas portas, uma delas virada ao Café Piolho e a outra para o jardim da Cordoaria, ambas sem a dignidade e a arte da principal. E assim continuou a ser por mais alguns anos.
Depois desta introdução de enquadramento devo recentrar o discurso no tema que aqui trago, não a entrada física, as portas, mas franquear a verdadeira porta de entrada na universidade e o que significou para mim e para a família.
Não foi fácil lá chegar. Tive vontade e cabeça para fazer esforço quanto baste. Contudo, o meu empenho não era suficiente para vencer os obstáculos sem ajuda. Pela abertura da sociedade no pós-revolução, tive apoio do Estado durante os dois últimos anos do liceu1, período em que a família atravessou profundas dificuldades, mas sempre a prover o meu sustento. Seguiu-se o Ano Propedêutico2, altura em que as finanças caseiras começaram a melhorar e as despesas com a educação recaíram totalmente sobre os meus progenitores. O final desse ano preparatório para a frequência do ensino superior foi o momento da grande decisão: escolher o percurso para o futuro. Esta foi uma tarefa pessoal, sem interferência dos meus pais. Deram-me todo o apoio para continuar, fosse qual fosse a minha seleção de curso, exactamente o oposto de grande parte dos colegas de liceu, e do que ainda hoje ouço dizer que ocorre em muitas famílias.
O formulário de candidatura ao ensino superior tinha dez opções e, ao contrário de todos com quem estava na fila para o entregar, usei apenas duas delas. Imprudência, como me disseram? Se não fosse colocado nas opções escolhidas ficaria um ano à espera para tentar novamente o acesso. No entanto, eu estava confiante na minha decisão pois os meus resultados no liceu e no propedêutico tinham sido bons. Como seria de esperar, também tinha analisado cuidadosamente as notas de entrada dos vários cursos. É conveniente referir que estava limitado a escolher uma faculdade no Porto porque não seria possível a frequência de um curso noutra cidade. Seria incomportável para a família.
Quando saíram as colocações, confirmei que tinha ficado colocado na primeira opção, tal como tinha previsto: Biologia na Universidade do Porto. A minha escolha estava ancorada no que tinha sido a evolução do meu pensamento, como já expliquei noutra memória, e que me tinha feito abandonar a ideia juvenil de ser veterinário3 por já não viver em África. A entrada no curso foi um acontecimento que inchou de orgulho todo o agregado familiar. A minha mãe comentou o sucesso com muitos, chegados e afastados, com as clientes e, talvez, também na lojinha das hortaliças. Para mim foi o prémio pelo trabalho até então desenvolvido, mas apenas mais uma etapa de um caminho que se tornou mais áspero, mas perfeitamente ao meu alcance, pelo que tinha demonstrado a mim próprio até então. Completar a licenciatura não seria pêra doce, mas era o passo fundamental para obter um emprego para a vida. Naqueles anos da década de 1980, ter o “canudo” na mão era mesmo isso que significava. Mais do que um “seguro de vida” para mim, era o sonho, o projecto dos meus pais.
Alguém mais atenção poderá interrogar-se qual seria a segunda opção que coloquei no boletim de candidatura, apenas por precaução. Foi geologia. Por gostar do tema não foi, mas porque seria outra porta de entrada na faculdade de ciências, mais segura por ter nota de acesso muito baixa e com poucos interessados. Havia ainda outra razão para essa alternativa. No final do primeiro ano poderia tentar mudar para biologia, já com aprovação a algumas disciplinas comuns às duas licenciaturas. Tinha concebido o plano de salvaguarda mas não foi necessário activá-lo pois a minha média de candidatura só ficou atrás de alguns poucos, na sua maioria aqueles que não foram colocados em medicina, que exigia os valores mais elevados do concurso.
O ambiente académico mudou radicalmente a minha vida. Não foi só pelas dificuldades nas matérias a saber e pela avaliação mais exigente, o que implicou estudo a condizer. Foi também pelos professores, não pelos competentes, antes pelos arrogantes e discricionários4. Destaco como altamente positivo os novos amigos que ganhei nessa altura, uma comunidade que se foi cimentando com o tempo e a confiança. Vindo do liceu onde as amizades não tiveram seguimento por interrupção do contacto, e privado há vários anos dos amigos antigos que se dispersaram com a guerra em Angola e a fuga para a Europa, dei muito valor ao círculo que se formou desde o primeiro ano e que me fez sentir pertença, a integração que me faltava. E alguns deles, os melhores, duram até hoje.
Juntamente com os amigos vieram novas aventuras, como a primeira vindima5 em terras de França, em Cahors, organizadas por um familiar de um colega de turma, e que deu origem a uma escapada a Andorra, onde comprei a minha primeira máquina fotográfica a sério. Também as múltiplas explorações no Parque Nacional da Peneda-Gerês6 com um grupo restrito colegas constituiu uma oportunidade para desenvolver competências interpessoais e científicas. Isto enquanto desfrutávamos memoráveis aventuras na floresta, caminhadas pela montanha, banhos gelados no rio, acampamentos selvagens longe de tudo e observação de flora e fauna de bem perto, muita da qual nunca tínhamos visto antes.
Logo no primeiro ano, convencido pelo presidente da associação de estudantes (não sei o que viu em mim) integrei um grupo de colegas para assumir o que se chamava a comissão de ano, com tarefas simples mas importantes, tais como a negociação das datas dos exames7. Continuei a pertencer à comissão no segundo e no terceiro ano da licenciatura, e tive papel relevante na organização de visitas de estudo a Laboratórios onde a investigação teórica e aplicada eram de excelência, como a Estação Agronómica Nacional e o Instituto Gulbenkian de Ciência, ambos em Oeiras. Outro ponto alto da nossa actividade foi a viagem a Doñana, uma Área Protegida das mais importantes em Espanha. Também a nível associativo, no meu primeiro ano, fiz parte da lista vencedora para a direção da associação de estudantes. A minha contribuição, nos tempos livres, foi na reprografia, fazendo milhares de fotocópias de apontamentos, de sebentas e de livros, numa época em que faltavam fontes de informação para estudar.
O percurso numa licenciatura de cinco anos (era assim naquele tempo) não foi um passeio no parque, como já tive oportunidade de dizer, mas fui devidamente compensado. Não só pela aprendizagem, mas pela maturidade acrescida e pelas vivências que acumulei, tantas peripécias por contar para além das que já revelei8, e ainda pelos alicerces de uma carreira, de um emprego estável e bem remunerado.
Este não me foi dado de mão beijada. Claro que tive de prestar mais provas após terminar o curso com a melhor média e ser escolhido para ingressar na carreira docente9. Foram 17 anos até obter a nomeação definitiva (em 2000): primeiro o mestrado (ainda com a designação pomposa de provas de aptidão pedagógica e capacidade científica), depois o doutoramento e, finalmente, o período probatório. No entanto, sabia desde o início que poderia ter lugar certo como professor no ensino secundário. Não foi necessário recorrer a tal saída e cumpri quatro décadas ao serviço da Universidade do Porto numa carreira desafiante, nada monótona, compensadora. E devo acrescentar que foi compensadora porque me deu tempo para a família, porque me permitiu viajar bastante, e porque pude usar o que aprendi para intervir na sociedade, de muitos modos, mas isso são outras memórias, muitas delas já partilhadas nestes textos que vos deixo10.
NOTAS:
1- Ler O NOBRE
2- Ler O ANO PRO O QUÊ?
3- Ler O VETERINÁRIO GARBOSO
4- Ler EXAMES COMPLICADOS
5- Ler PRIMEIRA VINDIMA
6- Ler VULTOS NA FLORESTA
7- Ler ASSUMIR O CONTROLO
8- Ler também O 76, DON’T DO IT AGAIN, PREPARAÇÃO CLANDESTINA, OS LOBINHOS, SÃO SÓ OSSOS…
9- Ler A PRESSÃO PARA SER O MELHOR
10- Ler, por exemplo, MUDAR O MUNDO