Imagino a gravidade e persistência da minha maleita para que o meu pai, um positivista avesso a ciências obscuras e a crenças populares, tenha concordado com o tratamento de resultado incerto, obviamente por pressão da minha mãe, mais crédula. O facto é que em miúdo, várias vezes, fui tratado com mezinhas para a tosse. O termo mezinha refere-se a um remédio caseiro, muitas vezes feito com ervas ditas medicinais, sendo também associado à sabedoria popular ou ainda a preparados de duvidosa eficácia.
Quando era ainda criança, padeci várias vezes de tosse prolongada. Além dos medicamentos para o efeito, tomei xaropes de plantas várias com mel ou açúcar, e também infusões de raízes e folhas do mato que alguém recomendou. Há sempre alguém que conhece outros que sabem de alguém que melhorou com um produto milagroso. Fosse pelas mezinhas ou pelo efeito da medicina convencional, ou ainda pela conjugação de todos os factores, a tosse foi debelada.
Uma dessas infusões tinha sabor forte e tão característico que, anos mais tarde, reconheci-o no xarope Ipesandrine que tomei já em sub-adulto, receitado por um médico. Este xarope tinha extratos de várias plantas, entre as quais a Ipecacuanha, pequena árvore sul-americana do género Psychotria, o qual tem uma distribuição mundial em florestas tropicais. Se os nativos do novo mundo tinham associado propriedades curativas a essa planta é provável que os africanos o tenham feito também, e terá sido por essa razão que o produto chegou a nossa casa.
Lembro também que a minha mãe fez para mim xarope de piteira, com receita passada de boca em boca. Primeiro era necessário obter uma tenra “folha”, como é designada popularmente a porção achatada do caule daquela planta suculenta. A preparação começava com a limpeza dos espinhos acelerados com uma serapilheira. Depois era o corte, como se fosse a abertura de um pão para fazer uma sanduíche. Uma vez feito o difícil golpe, ela levantava uma das “valvas” e espalhava açúcar na polpa gelatinosa e verde. A parte final consistia em juntar novamente as abas, amarrar com fio grosso de sisal, e pendurar o resultado. O xarope começava a pingar para uma tigela, pouco tempo depois. Era delicioso e um alívio para a garganta.
A história repetiu-se, décadas mais tarde. Perante a demora da cura pelos remédios prescritos pelo pediatra, também eu concordei em tratar o nosso filho com xarope de piteira com açúcar, aguardente e não sei que mais, feito por um padre curandeiro minhoto. E a cura acabou por aparecer, tal como em mim. Não sei se a mezinha terá contribuído ou se terá tido um efeito placebo, juntamente com as rezas da mãe e os defumadouros da avó.
Como resumo final, sabemos que muita da farmacopeia actual deriva do isolamento de substâncias presentes em mezinhas consagradas no uso tradicional, dando enorme relevância ao estudo científico da etnobotânica. E o lado ético da questão deve ser respeitado, pois foi já colocado em normas obrigatórias pela ONU, nomeadamente sob a forma de compensações aos povos que descobriram os efeitos das plantas e animais.