Não era um gigante, mas pouco lhe faltava. De ombros largos como um urso, trajando de modo distintamente rural, o homem grande e bonacheirão, nariz generoso e vermelho a condizer, parecia fora da sua zona de conforto. Uma nuvem de flocos brancos pairava no ar enquanto o silêncio se pousou na casa, imitando os flocos que tombavam em câmara-lenta para o soalho carcomido. Como uma criança apanhada em falta, exibia ar encabulado, e não era para menos pois tinha acabado de rebentar o edredão, explodindo o recheio e enchendo o ar de pequenas plumas. Surpreendido pelo acidente involuntário, tal como todos nós, ficou congelado até alguém soltar uma gargalhada, logo seguido por todos, quebrando a tensão.
A cena cómica passou-se numa velha quinta situada na margem esquerda do rio Lot, na saída poente de Cahors, e faz falta explicar como lá chegámos, uma vez que o motivo está esclarecido no título desta memória.
Nas férias de verão de 1980 saímos da estação de Campanhã em direção a Toulouse, onde trocámos o comboio repleto de emigrantes pelo calmo autocarro destinado a Cahors, mais a norte, onde o nosso grupo era esperado na data combinada para iniciar a vindima. A minha primeira aventura em terras de França tinha começado, e aconteceu quase por acaso. Nos tempos livres, no intervalo das aulas na faculdade, discutimos sobre o que faríamos nas férias que se aproximavam. Alguém disse que um familiar seu já tinha ido colher laranjas na Flórida e que talvez fosse com ele nesse verão. Era trabalho escravo, mas pagavam bem. Outro disse que os primos estavam a organizar um grupo para ir fazer a vindima em França, no mesmo local onde tinham estado no ano anterior. Fiquei logo interessado e, após afinações nos detalhes, inscrevi-me na pandilha.
Foi assim que lá cheguei, sem experiência e sem conhecimento da tarefa que ia fazer e, para além disso, nem sequer gostava de vinho. E não fiquei a gostar com essa experiência pois o produto elaborado na quinta, servido todos os dias ao almoço e ao jantar, tinha sabor terroso. Esse refinamento do paladar só o adquiri um ano depois, na segunda vindima, já na região de Bordéus, em presença de grandes pomadas e guiado por bons mestres1.
Essa primeira aventura foi excelente e deixou boas recordações. O trabalho não foi árduo, apenas um pouco exigente para os costados e ombros quando me cabia transportar a cesta abarrotada de cachos, desde as linhas de videiras até ao veículo que levava as uvas ao lagar. A camaradagem no grupo, que incluía os lusos, o pessoal da quinta, e familiares dos donos, esteve em nível elevado e os veteranos ensinaram aos novatos as posturas adequadas nas pernas e no tronco e a melhor maneira de evitar ferimentos nas mãos.
A alimentação fornecida era monótona mas suficiente, com grandes e rechonchudas salsichas, batatas, costeletas, rancho de lentilhas com toucinho e ainda outros pratos da mesma natureza. O alojamento que nos deram foi adequado à nossa função, uma velha casa rural convenientemente afastada da construção principal onde viviam os gestores (não sei se eram os proprietários). Tinha várias divisões com beliches e camas para os forasteiros, cozinha, sala e sanitários, tudo com aspecto de século XIX.
No fim de semana que lá passei dei um pulinho à cidade. Era pequena, com o rio em suaves meandros no meio do casario, com bonitas edificações medievais e lojinhas de estética superior, desde a padaria ao mercado. Também percorri um trilho na margem do rio, nas imediações da “nossa” vinha. Aí, a paisagem bucólica já anunciava o outono nas folhas escarlates e amarelas da galeria ripícola, compondo uma pintura de calendário.
Um dos dias, a meio da semana, houve uma pausa na colheita das uvas, não me lembro do motivo para tal. No entanto, não ficámos sem trabalhar. Fomos recolher as nozes que tinham tombado da nogueira com o vento forte da noite anterior. Parece tarefa fácil, mas os costados ficaram doridos de tantas dobras. E aprendi que a polpa verde e branca que envolve o fruto tem efeito estranho na pele. Passado algum tempo, as mãos ficaram tingidas de vermelho desmaiado. E, mais estranho ainda, ao usar sabão, o vermelho passou a negro. Quando tiver oportunidade vou pesquisar quais são as reações químicas que explicam o fenómeno.
Quando a vindima terminou pagaram-nos em notas bem merecidas. Por sugestão de alguém que já tinha feito a viagem, decidimos ir em breve visita a Andorra, que dali distava cerca de trezentos quilómetros. Autocarro até Toulouse e depois fomos para a estrada pedir boleia, como era comum naquela época. Chegamos lá em poucas horas e percorremos as ruas do centro, cada um procurando as lojas que eram do seu interesse. Devo confessar que não tinha planeado gastar o dinheiro imediatamente, mas não perdi a oportunidade. Comprei a minha primeira máquina fotográfica a sério, uma Canon AT-1, modelo totalmente manual de meados da década anterior que me serviu bem até sofrer um acidente fatal. Comecei a usá-la no caminho de retorno, fotografando com emoção a paisagem à beira da estrada que tinha manchas de neve, a primeira vez que a vi na minha vida.
Falta apenas explicar como sucedeu o acidente cómico que abre esta memória. No fim da vindima houve a tradicional festa com todos os trabalhadores reunidos naquela que tinha sido a nossa casa. Música, cantoria, panquecas feitas no momento, espumante, muita animação, teatro e dança. Foi no meio da festa que o “Montagne”, era essa a sua alcunha por razões óbvias, enrolado no edredão, o apertou mais do que as velhas costuras aconselhavam. A asneira foi prontamente resolvida com a ajuda de todos. Recolhidas as peninhas, recosidas as costuras e aspirada a casa para eliminar os vestígios sobrantes, a festa continuou, mas por pouco tempo. O entusiasmo tinha ficado frio.
NOTAS
1- Ler SEGUNDA VINDIMA