Pacientemente, a família desfilou diante dos meus olhos um conjunto de objectos que fui acumulando ao longo de décadas, e que estavam a monte no sótão, fazendo parte daquilo que comecei a denominar, em tom de brincadeira, o “meu museu”. Não sei de quem partiu a ideia do desfile, mas foi o presente especial que recebi no último Natal.
O nome até poderá soar a vaidade, mas surgiu como normal quando parte daquela tralha, até então espalhada pela casa, foi exposta num alto armário de madeira escura, painéis laterais em palhinha, portas envidraçadas e prateleiras também de vidro, montadas por mim. Destinado a recolher objetos trazidos de lugares distantes e artigos obsoletos ou avariados do arsenal fotográfico, foi também acomodando troféus e as ofertas que recebi nas incontáveis palestras que fiz. À vista de cada item faíscam neurónios e abrem-se janelas. Gratificante. Porém, o mesmo não acontece com todos os objectos. Alguns despertam recordações ténues, sem tempo ou lugar bem definidos. A outros caiu o rótulo, mas o contexto está vivo. A outros ainda, poucos, caiu a memória completa, tornaram-se inúteis.
Não é bem assim quando vejo frasquinhos com areia dourada e letras desvanecidas, mas já não sei qual veio do Saara ou de uma praia da Boavista, de Mission Beach ou de Tibau. A indefinição causa estranheza, alguma pena pela perda, mas conduz à convocação de muitas vivências, e isso é bom.

Volumosa, a minha primeira mochila destaca-se. De lona verde e correias de cabedal, foi uma oferta do Instituto da Juventude, no final dos anos 70. Dentro está o velho cantil que me acompanhou por muitos montes e vales. Está lá também o que sobrou do meu primeiro saco-cama, comprado no supermercado Invictus por mil escudos. Era fraquinho, mas serviu enquanto não tive melhor, e foi abrigo em muitos acampamentos, mesmo de inverno. Arruinado por ácido de uma bateria velha durante uma semana semana em trabalho de campo, foi cortado para fazer uma mantinha.
O museu tem muitos objetos pequenos esculpidos em madeira, ou feitos com outros materiais. A maioria deles representa animais das regiões visitadas: uma mobelha, os “big five1“, um manatim, um papa-léguas, um lémur, um pirarucu, um pinguim, uma rã-de-olhos-vermelhos, uma tartaruga e muitos outros. Há também uma piroga de São João dos Angolares, caixinhas do Vale do Rift, feitas com casca de bananeira, a caixa quebra-cabeças de Hakone, maquetaria de madeiras coloridas imbricadas, a caixa de alabastro pintado, comprada numa tenda nos arredores de Nairobi, e de onde salta uma serpente quando se abre a tampa, um boomerang, os pauzinhos para fazer fogo, feitos pelos Masai… O primeiro objeto da coleção, pertencendo a esta categoria, tem lugar especial. É uma matrioska, agora com as cores já esbatidas, e foi comprada numa feira em Split, ainda no tempo de Tito, quando fizemos interrail. Olhando para a bonequinha, é toda a viagem que regressa2.

Vistosos são os troféus ganhos em provas desportivas. Primeiro os de pesca, nas categorias de “Infantil” e, depois, de “Adulto” (ainda com 14 anos). Vieram de Angola, e chegaram cá um pouco amachucados, alguns com as etiquetas descoladas, e agora já não me lembro onde ou quando foi a pescaria de sucesso. Hoje, e desde há muito tempo a esta parte, não seria capaz de voltar a pescar por prazer. Quanto aos restantes troféus só surgiram mais tarde, quando] mereci as medalhas e o prémio de equipa de xadrez, um desporto com menos consequências ambientais.
Alguns dos itens do museu já foram seres vivos, no sentido biológico do termo. As conchas coloridas, nacaradas ou pardas são disso bom exemplo e foram recolhidas em praias diversas, desde a Culatra a Elafonisi, de Labruge a R’gueiba ou à Praia da Joaquina. Os pedacinhos de coral apanhei-os nas praias perto da Grande Barreira, ou do Ilhéu das Rolas, do Golfo de Aqaba e da Key West, para mencionar apenas algumas. Duas grandes estrelas-do-mar, um hipocampo e uma piranha, secos, fazem companhia às conchas e foram comprados há muito, em bancas de artesanato. Pertenciam, no momento da aquisição, a espécies não ameaçadas. Também nesta categoria, há uma grande cabeça de peixe mumificada por mim. Uma vez que esta adjetivação não é esclarecedora, devo acrescentar que ao enorme ciprinídeo, quando o pesquei, talvez no Rio Cuanza, lhe cabia o meu punho fechado na desdentada boca, e sobrava espaço. Há ainda um crânio de tartaruga, que encontrei semi-enterrado na praia de Chaves, na Ilha da Boavista, e uma alva costela polida pelo vento e pela areia do Saara, e que pertencia a um camelo cujo esqueleto encontrei por acaso numa travessia. Há duas descomunais escamas de pirarucu, vindas do mercado do peixe de Manaus. Com diâmetro de oito cm, sempre causaram incredulidade a quem as mostrei. Pertencente também à categoria dos materiais biológicos, há um otólito de uma corvina quase do meu tamanho, o peixe, não o otólito, claro. Vi-a sair de um barquinho de pesca artesanal em Iwik. Havia também um pedacinho de folha de Welwitschia que recolhi no Namibe, mas desapareceu, tal como o surpreendente crânio de freira que salvei da incineração3. Os fósseis do museu, esses viveram há muito, mesmo muito tempo.


O material fotográfico compreende diversas máquinas avariadas, incluindo o corpo quebrado da AT-14 e a coçada A-1, as primeiras digitais, a subaquática, objectivas velhas, filtros, um fole, um flash, um tripé muito antigo, dois ou três rolos ainda por expor, e outros acessórios que me acompanharam e prestaram bom serviço em muitas aventuras, ou em trabalho de campo. A colecção inclui também algumas máquinas completamente manuais que comprei por nostalgia em lojas de velharias. E digo nostalgia porque comprei uma velha Rolleiflex, icónica, semelhante à que o meu pai teve, uma Canon de um modelo antigo, a confiável FTb, uma outra máquina notável, a ZEISS IKON de objectiva retrátil com fole, parecida com a Agfa da minha avó, e uma caixa fotográfica de plástico, quase igual à minha primeira, e que não sei explicar como e quando desapareceu, logo após me terem dado um caixotinho de plástico melhor, uma Bencini Unimatic 404.
Mencionei acima as muitas palestras que fiz em escolas, câmaras municipais, agremiações culturais e associações ambientalistas. Em algumas delas, no final, ofereceram-me flores. De outras vezes, medalhas e objetos diversos, como peças em cerâmica, vidro ou estanho. Dei alguns destes, por serem de gosto duvidoso ou por não nos serem úteis, mas ainda sobraram muitos, sobretudo as medalhas, que ocupam pouco espaço.
O material avariado ao longo dos anos, e do qual não me desfiz, ocupa também algum espaço. São telemóveis, telefones de fio, relógios de pulso, bússolas, o ZX Spectrum… Lembram-me vários episódios da vida e tal não aconteceria se me tivesse desembaraçado deles. Confesso, no entanto, que a maioria destes aparelhos já não evoca nada, e só os mantive por teimosia.

A primeira camisola de lã que a Anjos me fez, em tons de azul e bonitos padrões a lembrar terras do Norte, saiu do museu antes do Natal. Foi por um bom motivo: para oferecer a quem pode dar-lhe bom uso.
Outras ofertas vieram dos amigos, como é o caso da adaga ornamental magrebina, e a faca escandinava com cabo feito de haste de rena. Fazem companhia à faca de mato que eu trouxe de Angola e que tanto uso teve no Gerês5.
Um objecto curioso da colecção é uma caixa de madeira envernizada. Parece um estojo de arrumação de peças de jogos de tabuleiro, mas não é. Foi feita pelo meu sogro e foi-me ofertada num aniversário. Quando tirei a tampa de deslizar, saltou de dentro uma garrafa de Porto, impulsionada por um engenhoso sistema com elásticos.
Alguns objectos simbolizam prémios que recebi, e que mencionei em texto anterior6. É o caso da “medalha de mérito profissional” que me foi dada pela Câmara Municipal de Gaia, e de vários globos de vidro que recebi pela colaboração com a “Casa das Ciências”.
Vários frasquinhos de rolos fotográficos têm moedas. São do tempo em que viajar para outros países era difícil, e sentia uma pulsão para trazer lembretes baratos para ver mais tarde. Os postais ilustrados que seguiam por correio para casa e os cêntimos e equivalentes sobrantes eram escolha óbvia.
Uma rocha negra, brilhante e de arestas cortantes, veio da última erupção do vulcão do Fogo, lava rubra fumegante tornada basalto frio. Outra, em tudo semelhante mas baça, trouxe-a do Kilauea, e outra ainda, avermelhada, do Pico.
Muito mais poderia escrever sobre o conteúdo do museu, mas é chegado o momento de fazer um balanço, um fecho. A descrição que vos deixo é suficiente para que a minha estima por ele fique explicada. Sei que só o entenderá quem pensa de forma semelhante em relação à utilidade das coisas como marcadores de memórias. Claro que me refiro às boas, pois não guardei apontadores para as más recordações. Ele foi útil enquanto pude vê-lo. Depois, subir as escadas tornou-se impossível e eu fiquei cá por baixo e ele lá em cima, literalmente e metaforicamente. Tornou-se inútil, mas eu não me apercebi do facto. Entretanto, houve obras em casa, o móvel do museu foi oferecido e o conteúdo transitou para as prateleiras dos livros alienados. Por fim, o museu foi encerrado, em 2023, e os seus objetos arrumados em caixas de cartão. Não todos, pois começámos a dispersar algumas peças por familiares e amigos. O museu das memórias passou a ser, ele próprio, mais uma memória. Não me habituei ainda a esta realidade, pelo que escrevi este texto como se ele ainda estivesse montado.
Com o passar do tempo, todos aqueles objectos vão perder a referência que lhes dá significado e, nessa altura, serão apenas objectos. A seu tempo, o próprio museu deixará de ser uma memória e será apenas algo que existiu.
NOTAS
1- Ler UMA VIAGEM DE SONHO
2- Ler EUROPA
3- Ler SÃO SÓ OSSOS
4- Ler PELA ESTRADA FORA
5- Ler VULTOS NA FLORESTA
6- Ler O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA