O MATADOR

O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira. Depois de duas frenéticas voltas … Continue reading O MATADOR

BAFORADAS

O Né  tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou,  mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano. Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, … Continue reading BAFORADAS

PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS

Já tinha visto muitas cores em outras ocasiões, mas não tantas, tão brilhantes e vivas como aqui. O sol reflecte-se em múltiplas superfícies e os raios de luz cruzam-se em arco-íris imbricados. Estar assim perto desta maravilha da natureza não estava nos meus planos mais realistas, mas tinha finalmente acontecido. A água tépida dá uma … Continue reading PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS

PRIMEIRA TUMBOA

Agosto de 1975. Finalmente vergados, iniciamos a fuga da guerra. Percorremos  mil quilómetros de estradas perigosas, bandidos e barreiras militares múltiplas, até que as circunstâncias nos fizeram chegar a Moçâmedes. A seguir, foram semanas à espera de transporte seguro para sair do país. O barco para Luanda só chegaria em outubro, um pequeno cargueiro que … Continue reading PRIMEIRA TUMBOA

MARMELADA PARA TODOS

Marmelada para todos, menos para mim. Já não suporto o cheiro! O que antes era bom, agora enjoa. Como pode ser possível? Simples. Experimentem passar uma semana voluntários na cozinha, em que a tarefa de várias horas é cortar porções de marmelada para distribuir aos restantes pendurados. Talvez “pendurados” não seja o termo mais adequado, … Continue reading MARMELADA PARA TODOS

SEGUNDA VINDIMA

Estava dentro da antiga cavalariça. Lá fora, o céu iluminava-se repetidamente com os relâmpagos da maior trovoada que alguma vez tinha presenciado. Regressei ao beliche da cavalariça (nesta já não havia cavalos) para uma noite bem dormida. Estava na aldeia de Castillon-la-Battaille, assim pomposamente chamada em homenagem a uma batalha que, no século 15, pôs … Continue reading SEGUNDA VINDIMA

COMENTÁRIOS INCÓMODOS

Depois da minha intervenção, durante muitos anos, não mais me convidaram para lá ir.  Era um debate na televisão com o então Secretário de Estado do Ambiente, Ricardo Magalhães, sobre a utilização de verbas do ministério do ambiente no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Discordei da gestão e afirmei que se pagava … Continue reading COMENTÁRIOS INCÓMODOS

TRAMPA DE ALTITUDE

A cinco mil metros de altitude muita coisa tem de ser encarada com alguma relativização.  Por esta razão, alguns factos acabam por se tornar cómicos, quando lembrados com suficiente distanciamento. Vem isto a propósito do mau cheiro e da trampa espalhada pelo chão, uma visão pouco agradável,  é verdade, sobretudo porque não há fuga possível … Continue reading TRAMPA DE ALTITUDE