Aprendi a conduzir aos 13 anos num velho jipe da segunda guerra mundial. Dito desta forma pomposa parece importante, fora do comum, uma raridade mesmo. O facto é que não tenho a certeza se o pequeno Willys verde teria mesmo andando na guerra. Seria uma das muitas unidades usadas oferecidas pelo Canadá ou pelos Estados … Continue reading WILLYS
ARQUIVO
EUROPA
Já não tínhamos uma refeição de jeito há 3 semanas. Basicamente tínhamos andado todo o tempo a comer sandes de queijo ou mortadela, iogurtes, leite e pouco mais. Era difícil quanto baste andar pela Europa fora com bolsa de português. Em 1983, ainda a moeda era o escudo, perdia-se muito na conversão, mas era no … Continue reading EUROPA
O ASSALTO
Gente aos gritos e muito fumo por todo lado. Há quem consiga deitar a mão a grandes caixotes a arder e os desfaça rapidamente, tentando salvar o conteúdo e atirando-o para fora. Caixas caem no chão, e também rolos de pano e outras coisas que não vi bem. As chamas crepitam cada vez mais, está … Continue reading O ASSALTO
O MATADOR
O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira. Depois de duas frenéticas voltas … Continue reading O MATADOR
BAFORADAS
O Né tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou, mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano. Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, … Continue reading BAFORADAS
DESPORTO RARO
No final dos 70 e início dos anos 80 era frequentador assíduo do 5º andar do nº 37, na Rua do Bolhão, com mais meia dúzia de maduros e outros tantos imaturos. Depois das aulas ou depois do jantar, aqui se testavam a personalidade, a resiliência psicológica, a memória e capacidades intelectuais, se melhorava a … Continue reading DESPORTO RARO
PELA ESTRADA FORA
O que é que tem de comum um polícia espanhol à paisana, um turista israelita, um carro funerário ou um cacho de uvas moscatel? Aparentemente nada. Contudo, fazem parte de pequenas memórias de quando fiz milhares e milhares de quilómetros de boleia, a solo ou não. O melhor é contar algumas delas, mais ridículas ou … Continue reading PELA ESTRADA FORA
TABAIBOS NAS CUECAS
O Zé partiu o braço três vezes, e das três vezes levei-o à mãe. Não me lembro de mais nada dele. Já o Manel, vamos chamá-lo assim, também o levei à mãe, só uma vez, mas foi por uma razão completamente diferente... Naquele tempo, dizemos assim quando queremos significar que algo se passou há algumas … Continue reading TABAIBOS NAS CUECAS
CORES DO FIM DO MUNDO
Quase tudo é branco. Mas o branco não é todo igual. Há brancos brilhantes em volta, e brancos acinzentados, como o céu, carregado de nuvens baixas. Vão caindo flocos de neve e o vento gelado assobia forte nas orelhas, protegidas por um gorro e ainda pelo carapuço. De onde em onde aparece a segunda cor. … Continue reading CORES DO FIM DO MUNDO
VELHA COM GALINHA AO COLO
Sim, velha com galinha ao colo. Parece o título de um quadro antigo, talvez uma pintura flamenga. Mas não é um quadro, está viva ao meu lado. É mesmo uma velha, e bem velha. Enrugada, vestida toda de preto, lenço a cobrir a cabeça e tudo. Sentada muito direita, tem uma gaiola de verga pousada … Continue reading VELHA COM GALINHA AO COLO
PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS
Já tinha visto muitas cores em outras ocasiões, mas não tantas, tão brilhantes e vivas como aqui. O sol reflecte-se em múltiplas superfícies e os raios de luz cruzam-se em arco-íris imbricados. Estar assim perto desta maravilha da natureza não estava nos meus planos mais realistas, mas tinha finalmente acontecido. A água tépida dá uma … Continue reading PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS
PRIMEIRA TUMBOA
Agosto de 1975. Finalmente vergados, iniciamos a fuga da guerra. Percorremos mil quilómetros de estradas perigosas, bandidos e barreiras militares múltiplas, até que as circunstâncias nos fizeram chegar a Moçâmedes. A seguir, foram semanas à espera de transporte seguro para sair do país. O barco para Luanda só chegaria em outubro, um pequeno cargueiro que … Continue reading PRIMEIRA TUMBOA
PIROGA NO CUNENE
Aprender a controlar uma canoa, melhor dizendo, uma piroga, num rio com de jacarés foi uma aventura. Se fosse hoje, diria imprudência. Mesmo! Mas afinal nunca ocorreu qualquer percalço. No rio Cunene, como em muitos rios e lagos de todo o planeta, a piroga é feita de um tronco de árvore escavado. A tecnologia da … Continue reading PIROGA NO CUNENE
MARMELADA PARA TODOS
Marmelada para todos, menos para mim. Já não suporto o cheiro! O que antes era bom, agora enjoa. Como pode ser possível? Simples. Experimentem passar uma semana voluntários na cozinha, em que a tarefa de várias horas é cortar porções de marmelada para distribuir aos restantes pendurados. Talvez “pendurados” não seja o termo mais adequado, … Continue reading MARMELADA PARA TODOS
PEDRAS PRETAS
O homem de turbante preto pega numa pequena saca de pano, desenrola-a, e tira lá de dentro duas pedras pretas. Esfrega-as uma na outra e recolhe os pequenos fragmentos na palma da mão enquanto semicerra os olhos, protegendo-os do sol. Ou será do fumo? Levanta a tampa, abre a mão e espalha o pó dentro … Continue reading PEDRAS PRETAS
NOTAS DE MÃO
Ninguém se conhece. No entanto, as notas passam de umas mãos para outras com uma sensação estranha, e sem qualquer registo. Passei 100 ou 150 francos a um barbudo com aspecto pouco confiável sem pensar muito, o que não faria em mais nenhuma circunstância. No primeiro dos anos 80 do século 20 essa quantia era … Continue reading NOTAS DE MÃO
SEGUNDA VINDIMA
Estava dentro da antiga cavalariça. Lá fora, o céu iluminava-se repetidamente com os relâmpagos da maior trovoada que alguma vez tinha presenciado. Regressei ao beliche da cavalariça (nesta já não havia cavalos) para uma noite bem dormida. Estava na aldeia de Castillon-la-Battaille, assim pomposamente chamada em homenagem a uma batalha que, no século 15, pôs … Continue reading SEGUNDA VINDIMA
PEIXE FRESCO, MUITO FRESCO
Em frente passa continuamente uma “sopa” de peixe ainda meio vivo. Vai carregado por forte corrente de água bombeada do mar para o estreito canal de madeira. Tiro uma dúzia de carapaus para um balde, que o fogareiro já espera com o carvão em brasa. A cada um é só colocar os dedos nas guelras … Continue reading PEIXE FRESCO, MUITO FRESCO
VAMPIROS NO QUARTEL
Soldados a cantar, soldados a chorar, e eu a olhar. Nunca tinha ouvido os versos que diziam: “No céu cinzento/Sob o astro mudo/Batendo as asas/Pela noite calada…” E, marcado por tal cenário, não mais esqueci. Antes da revolução de 1974, não se falava abertamente da validade da guerra colonial, nem se cantava "Eles comem tudo, … Continue reading VAMPIROS NO QUARTEL
ELA
Ela mudou a vida da família e influenciou os meus amigos. Por ela alterei o modo de trabalhar. Até as férias mudaram, tal como o modo de passar os tempos livres ou as actividades de lazer. Por causa dela quase abandonei a fotografia, hobbie que cultivei durante muitos anos e que me dava tanto prazer. … Continue reading ELA
OS FLAMINGOS CHOCAM
Os flamingos chocam. Uma afirmação que pode causar alguma estranheza pois os flamingos, como todos sabem, são aves e põem ovos no ninho. Para se desenvolverem, os embriões precisam de temperatura elevada durante algum tempo, o que se designa por choco. Chocam, portanto. Mas não é este período de 30 dias da vida dos flamingos … Continue reading OS FLAMINGOS CHOCAM
COMENTÁRIOS INCÓMODOS
Depois da minha intervenção, durante muitos anos, não mais me convidaram para lá ir. Era um debate na televisão com o então Secretário de Estado do Ambiente, Ricardo Magalhães, sobre a utilização de verbas do ministério do ambiente no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Discordei da gestão e afirmei que se pagava … Continue reading COMENTÁRIOS INCÓMODOS
TRAMPA DE ALTITUDE
A cinco mil metros de altitude muita coisa tem de ser encarada com alguma relativização. Por esta razão, alguns factos acabam por se tornar cómicos, quando lembrados com suficiente distanciamento. Vem isto a propósito do mau cheiro e da trampa espalhada pelo chão, uma visão pouco agradável, é verdade, sobretudo porque não há fuga possível … Continue reading TRAMPA DE ALTITUDE
O TIGRE QUE FOI COMIDO PELA TRAÇA
O tigre foi mesmo comido pela traça, ou melhor, pelas traças, muitas, e foi a sua perdição. O tigre não era um tigre mesmo, era um peixe-tigre, mas é melhor começar do início. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado (outubro de 1974) fomos a um concurso de pesca no rio Cubango, … Continue reading O TIGRE QUE FOI COMIDO PELA TRAÇA
É MUITA ATRACÇÃO!
O braço está grosso como uma perna! Está também às manchas escuras que derivam da hemólise extensa, e é melhor nem falar das fortíssimas dores causadas pelo edema, que se estende desde o dedo até ao ombro. Tudo em resultado de um encontro mal resolvido com uma víbora acossada. A história é meio parva mas … Continue reading É MUITA ATRACÇÃO!
SOZINHO NUMA ILHA
Difícil andar com tanto, tanto vento. Impossível prosseguir sem ajuda das mãos e com as costas bem curvadas,expondo a menor superfície possível. O chão, muito irregular dos buracos e dos tufos de erva, também não ajuda. A vinte metros, bicos coloridos espreitando por entre o verde intenso que cobre o solo. São papagaios-do-mar e olham-me … Continue reading SOZINHO NUMA ILHA
ANTES DO TEMPO
O ombro esquerdo queima. Aguenta mais um pouco. Queima mesmo! Está escuro e caminhamos em fila indiana ao longo da anhara húmida. Mudo o peso para o ombro direito. Também queima. Aguenta mais um pouco. No céu, a via láctea ilumina fracamente o caminho, mas os olhos há muito que se adaptaram. Na verdade, não … Continue reading ANTES DO TEMPO