Estou na água. Em redor, a paisagem é esmagadora. Em cada margem levantam-se escarpas a pique com mais de 200 metros de altura. O quase silêncio é intenso, transcendental, apenas o marulhar, um suave pio, a respiração compassada. Lá em cima, bem alto no céu, os abutres a voar. Na água esverdeada uma carpa salta … Continue reading PAREDES AO ALTO
Mês: Fevereiro 2019
DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!
“Professor! Don't do it again, please!” Esta foi a frase que quebrou a tensão e originou uma gargalhada geral. Quem a proferiu foi o professor Andrzej Łysak, na altura no Porto a convite do professor João Machado Cruz. Durante alguns meses, em 1982-3, contribuíu para a formação dos doze finalistas da licenciatura em Biologia, ramo … Continue reading DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!
VER A ENCICLOPÉDIA
Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA
COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO
Pouco depois de entrar no país pela fronteira de Vilar Formoso, era hora de almoço. Restaurante de beira de estrada, escolher mesa, mandar vir prato do dia, costeletas de porco. E para beber? Venha uma garrafa de Porto! Vinha de França à boleia num camião TIR. Terminadas as vindimas de 1981 na zona de Bordéus, … Continue reading COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO
ALUGAM-SE GALOCHAS
Corria o ano de 1992. Já era maio mas batíamos os dentes de frio. O vento soprava forte, gelado e a neve cobria tudo de branco. Tudo não, quase tudo. De onde estamos vemos a cor vermelha viva lá em baixo. Por razões de segurança não era permitido aproximar mais para ver melhor. Alheio ao … Continue reading ALUGAM-SE GALOCHAS
TORNOZELOS SOFRIDOS
O terno vai batendo nos tornozelos a cada passo, o sofrimento é maior à medida que a distância percorrida aumenta e as forças me vão faltando. O tal terno não era uma carta de jogar nem peça de dominó, não era um fato com 3 peças de vestuário, nem sequer um conjunto de sofás… Era … Continue reading TORNOZELOS SOFRIDOS
O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO
“Andei todos estes anos a ensinar mal aos meus alunos”. Esta expressão, ou melhor, confissão pública bem sentida, ouvi-a da boca de uma professora do ensino básico já com meio século de vida, e foi feita na discussão que se seguiu a propósito de uma palestra sobre a conservação de répteis e anfíbios. O orador, … Continue reading O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO
AVENTURA IBÉRICA
No fim da aventura, seria mesmo no penúltimo dia, senti uma bota nas costelas e acordei, os cães a ladrar, dentes arreganhados como os seus donos: toca a sair daqui! Get up! Estava eu a dormir tão bem… Eram 3h da madrugada na praia de Albufeira quando chegou a GNR. Acordei eu e mais uns … Continue reading AVENTURA IBÉRICA
WILLYS
Aprendi a conduzir aos 13 anos num velho jipe da segunda guerra mundial. Dito desta forma pomposa parece importante, fora do comum, uma raridade mesmo. O facto é que não tenho a certeza se o pequeno Willys verde teria mesmo andando na guerra. Seria uma das muitas unidades usadas oferecidas pelo Canadá ou pelos Estados … Continue reading WILLYS
EUROPA
Já não tínhamos uma refeição de jeito há 3 semanas. Basicamente tínhamos andado todo o tempo a comer sandes de queijo ou mortadela, iogurtes, leite e pouco mais. Era difícil quanto baste andar pela Europa fora com bolsa de português. Em 1983, ainda a moeda era o escudo, perdia-se muito na conversão, mas era no … Continue reading EUROPA
O ASSALTO
Gente aos gritos e muito fumo por todo lado. Há quem consiga deitar a mão a grandes caixotes a arder e os desfaça rapidamente, tentando salvar o conteúdo e atirando-o para fora. Caixas caem no chão, e também rolos de pano e outras coisas que não vi bem. As chamas crepitam cada vez mais, está … Continue reading O ASSALTO
O MATADOR
O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira. Depois de duas frenéticas voltas … Continue reading O MATADOR
BAFORADAS
O Né tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou, mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano. Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, … Continue reading BAFORADAS
DESPORTO RARO
No final dos 70 e início dos anos 80 era frequentador assíduo do 5º andar do nº 37, na Rua do Bolhão, com mais meia dúzia de maduros e outros tantos imaturos. Depois das aulas ou depois do jantar, aqui se testavam a personalidade, a resiliência psicológica, a memória e capacidades intelectuais, se melhorava a … Continue reading DESPORTO RARO
PELA ESTRADA FORA
O que é que tem de comum um polícia espanhol à paisana, um turista israelita, um carro funerário ou um cacho de uvas moscatel? Aparentemente nada. Contudo, fazem parte de pequenas memórias de quando fiz milhares e milhares de quilómetros de boleia, a solo ou não. O melhor é contar algumas delas, mais ridículas ou … Continue reading PELA ESTRADA FORA
TABAIBOS NAS CUECAS
O Zé partiu o braço três vezes, e das três vezes levei-o à mãe. Não me lembro de mais nada dele. Já o Manel, vamos chamá-lo assim, também o levei à mãe, só uma vez, mas foi por uma razão completamente diferente... Naquele tempo, dizemos assim quando queremos significar que algo se passou há algumas … Continue reading TABAIBOS NAS CUECAS
CORES DO FIM DO MUNDO
Quase tudo é branco. Mas o branco não é todo igual. Há brancos brilhantes em volta, e brancos acinzentados, como o céu, carregado de nuvens baixas. Vão caindo flocos de neve e o vento gelado assobia forte nas orelhas, protegidas por um gorro e ainda pelo carapuço. De onde em onde aparece a segunda cor. … Continue reading CORES DO FIM DO MUNDO
VELHA COM GALINHA AO COLO
Sim, velha com galinha ao colo. Parece o título de um quadro antigo, talvez uma pintura flamenga. Mas não é um quadro, está viva ao meu lado. É mesmo uma velha, e bem velha. Enrugada, vestida toda de preto, lenço a cobrir a cabeça e tudo. Sentada muito direita, tem uma gaiola de verga pousada … Continue reading VELHA COM GALINHA AO COLO
PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS
Já tinha visto muitas cores em outras ocasiões, mas não tantas, tão brilhantes e vivas como aqui. O sol reflecte-se em múltiplas superfícies e os raios de luz cruzam-se em arco-íris imbricados. Estar assim perto desta maravilha da natureza não estava nos meus planos mais realistas, mas tinha finalmente acontecido. A água tépida dá uma … Continue reading PALHAÇOS, CIRURGIÕES, PAPAGAIOS E ANJOS
PRIMEIRA TUMBOA
Agosto de 1975. Finalmente vergados, iniciamos a fuga da guerra. Percorremos mil quilómetros de estradas perigosas, bandidos e barreiras militares múltiplas, até que as circunstâncias nos fizeram chegar a Moçâmedes. A seguir, foram semanas à espera de transporte seguro para sair do país. O barco para Luanda só chegaria em outubro, um pequeno cargueiro que … Continue reading PRIMEIRA TUMBOA
PIROGA NO CUNENE
Aprender a controlar uma canoa, melhor dizendo, uma piroga, num rio com de jacarés foi uma aventura. Se fosse hoje, diria imprudência. Mesmo! Mas afinal nunca ocorreu qualquer percalço. No rio Cunene, como em muitos rios e lagos de todo o planeta, a piroga é feita de um tronco de árvore escavado. A tecnologia da … Continue reading PIROGA NO CUNENE
MARMELADA PARA TODOS
Marmelada para todos, menos para mim. Já não suporto o cheiro! O que antes era bom, agora enjoa. Como pode ser possível? Simples. Experimentem passar uma semana voluntários na cozinha, em que a tarefa de várias horas é cortar porções de marmelada para distribuir aos restantes pendurados. Talvez “pendurados” não seja o termo mais adequado, … Continue reading MARMELADA PARA TODOS
PEDRAS PRETAS
O homem de turbante preto pega numa pequena saca de pano, desenrola-a, e tira lá de dentro duas pedras pretas. Esfrega-as uma na outra e recolhe os pequenos fragmentos na palma da mão enquanto semicerra os olhos, protegendo-os do sol. Ou será do fumo? Levanta a tampa, abre a mão e espalha o pó dentro … Continue reading PEDRAS PRETAS
NOTAS DE MÃO
Ninguém se conhece. No entanto, as notas passam de umas mãos para outras com uma sensação estranha, e sem qualquer registo. Passei 100 ou 150 francos a um barbudo com aspecto pouco confiável sem pensar muito, o que não faria em mais nenhuma circunstância. No primeiro dos anos 80 do século 20 essa quantia era … Continue reading NOTAS DE MÃO
SEGUNDA VINDIMA
Estava dentro da antiga cavalariça. Lá fora, o céu iluminava-se repetidamente com os relâmpagos da maior trovoada que alguma vez tinha presenciado. Regressei ao beliche da cavalariça (nesta já não havia cavalos) para uma noite bem dormida. Estava na aldeia de Castillon-la-Battaille, assim pomposamente chamada em homenagem a uma batalha que, no século 15, pôs … Continue reading SEGUNDA VINDIMA