Os dois adultos afastaram-se receosos e pudémos aproximar-nos do seu covil, devo confessar que não de modo totalmente confiante. Era um abrigo tosco com 2 lobinhos, bolinhas de pêlo fofo, olhos cinzentos e patas robustas. “Podem pegar neles, se quiserem.“ Quisémos. Ganiam levemente e cheiravam mal, mas mesmo muito mal, a carne em decomposição. Nunca … Continue reading OS LOBINHOS
Categoria: Memórias Características
NA TENDA
A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual. A ave levantou-se e … Continue reading NA TENDA
ERVAMOIRA
Era perfeita, nunca tinha visto igual. As almofadas oblongas bem marcadas e os traços deixados pelas longas unhas não deixavam lugar para dúvidas. Na margem do rio Côa, ainda o sol se levantava e uma neblina suave pairava sobre a água, dei com ela em cama de areia fina, ainda húmida da noite. No meio … Continue reading ERVAMOIRA
A FISGA
Poc! O passarinho caiu ao solo mesmo em frente aos meus pés. Imediatamente senti pena do bichinho frágil, muito mais intensa do que a satisfação infantil de ter pela primeira vez ter acertado num alvo. Naquele tempo quase todos os miúdos tinham fisga, feita de um pau bifurcado, duas tiras de borracha aproveitada de uma … Continue reading A FISGA
REMA, REMA!
O bicharoco não estava assustado, podia desaparecer quando quisesse. Parecia, isso sim, que se divertia à nossa custa, afundando aqui e emergindo mais além. De máquina fotográfica na mão, eu olhava em volta e pedia ansioso: está ali, rema, rema, Zé! E o Zé, fazendo-me a vontade, remava. Acabei por fazer dois ou três “slides”(1) … Continue reading REMA, REMA!
A CAIXA DE CARTÃO
O homem atrás do balcão pegou na caixa que o outro homem trazia, espreitou por uma frincha e acenou afirmativamente com a cabeça. Em seguida, pousou-a no chão e deu-lhe dois tiros. Assim mesmo. O à-vontade com que o fez, mesmo com pessoas na loja, a arma de pressão-de-ar pronta e o código de comunicação … Continue reading A CAIXA DE CARTÃO
A COMISSÃO E O RIO SABOR
Levantei-me e disse alto e bom som, irritado: “Nesta sala não há mais ninguém além de mim que saiba interpretar toda a informação do documento! Não sou um ecologista qualquer sempre do contra. Estou a debater o assunto baseado em conhecimento e com argumentos técnicos. Por isso, exijo respeito!” Assim mesmo, mais vírgula menos vírgula. … Continue reading A COMISSÃO E O RIO SABOR
EMBARAÇO INFORMÁTICO
A minha cara ferve, rubor intenso. Carrego repetidamente na tecla ESC, sem resultado, e o rato não dá para fechar as imagens que rápida e sucessivamente vão povoando o monitor, sempre mais, cobrindo as anteriores. As duas professoras sentadas a meu lado, já entradotas, incomodadas, desviam o olhar daquelas fotografias dignas das mais populares “revistas … Continue reading EMBARAÇO INFORMÁTICO
QUEREM UM LABORATÓRIO?
Não foi bem com as palavras que dão título a esta memória, foi mais ou menos dissimulado, qualquer coisa como: “Nós fazemos aqui um laboratório para estudar a dinâmica do rio e fica a funcionar durante alguns anos, pagamos as despesas e os senhores professores gerem à vossa maneira…” Foi assim que tentaram subornar-nos para … Continue reading QUEREM UM LABORATÓRIO?
MÚSICA
O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do Budokan … Continue reading MÚSICA
CLIENTE ASSÍDUO
Um dia descobri a sua existência e não mais a larguei. Vinha ao bairro uma vez por semana, em dia certo, esperava os clientes assíduos, e apelava aos transeuntes tentando ampliar a clientela. Fazia-se transportar num enorme furgão branco de formato inconfundível e era conhecida por todos. Era a biblioteca Itinerante e fazia parte da … Continue reading CLIENTE ASSÍDUO
UMA AULA ESPECIAL
Terminei a aula dizendo: Estes são os factos e agora terão de decidir se só querem fazer parte do problema ou também parte da solução. Não sou o autor desta frase, que tenho usado em vários contextos e com formulações ligeiramente diferentes, mas considero-a bastante mobilizadora. A aula correu muito bem e, posteriormente, fui sabendo … Continue reading UMA AULA ESPECIAL
FAÇA O FAVOR DE SE SENTAR
Eu tinha meio século de existência e, mal subi para o autocarro e avancei pelo corredor, ouvi: Faça o favor de se sentar. Assim me disse uma jovem que não aparentava ter mais de 15 anos. Surpreendido, aceitei e agradeci com um sorriso, talvez amarelo, mas sincero, apesar de não ter necessidade real de me … Continue reading FAÇA O FAVOR DE SE SENTAR
PALESTRA NO MUSEU
No final bateram palmas, mas fiquei com a sensação desagradável de não ter correspondido ao que a audiência estava à espera. Talvez tivesse enxertado biologia a mais e história a menos, mas então qual a razão de terem contactado um biólogo? A sala estava cheia de gente especial. Não conhecia ninguém, mas não admira pois … Continue reading PALESTRA NO MUSEU
SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE
Não era a pior comida do mundo, e nunca me incomodou muito tê-la frequentemente. Mas é melhor explicar. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, vivíamos nós no Lobito, em Angola, muitas refeições eram bastante desinteressantes, o mínimo que se poderia dizer. Na verdade, era frequente termos vários dias consecutivos em que, … Continue reading SOPA COM CARNE E ARROZ DE PEIXE
AVES
Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta. Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos … Continue reading AVES
O 76
Acordei com a alegre cavaqueira que se desenvolvia no banco ao lado. Tinha dormitado por alguns minutos, mas as vozes eram mais pesadas que o meu cansaço. No ar pairava um forte cheiro que vinha, tal como a conversa, das peixeiras que regressavam a casa após o encerramento do mercado. Até aos anos 80 … Continue reading O 76
NEANDERTAIS
Desde que ouvi falar deles eu dizia muitas vezes: eles andam aí no meio de nós. À medida que fui lendo as descobertas da genética moderna, que revelam a presença de genes dos Neandertais nas populações humanas actuais, fui confirmando o que sentia e afirmava por brincadeira. O dicionário diz: ne·an·der·tal |niãdèrtál| (Neandertal, topónimo [região … Continue reading NEANDERTAIS
TEMPESTADE
Quatro resistentes à mesa, uma mão com o garfo e outra a segurar o prato, para este não fugir mesa fora. O copo a tombar e rolar. O barulho ensurdecedor que chegou da cozinha assinalou a queda de uma pilha de louça, tudo a esmigalhar-se no chão sobrepôs-se momentaneamente ao forte ruído que chega do … Continue reading TEMPESTADE
TRUTAS BOAS
No primeiro ano em que comecei a trabalhar como assistente estagiário na Faculdade de Ciências do Porto, o chefe deu-me uma responsabilidade grande, uma maneira de ele se ver livre de uma carga de trabalhos. Assim, fiquei com as aulas da disciplina de “Aquacultura” do quinto e último ano da licenciatura em biologia (sim, em … Continue reading TRUTAS BOAS
SUFOCO
A 15 m de profundidade sufocar não é bom. É mesmo muito mau, mas foi o que me aconteceu. Estava prestes a afogar-me. Foi em trabalho nos Açores, na Ilha de São Jorge, e decidimos fazer mais um mergulho com botijas. O objectivo era avaliar a biodiversidade submarina numa zona pouco conhecida, perto da Ponta … Continue reading SUFOCO
PAREDES AO ALTO
Estou na água. Em redor, a paisagem é esmagadora. Em cada margem levantam-se escarpas a pique com mais de 200 metros de altura. O quase silêncio é intenso, transcendental, apenas o marulhar, um suave pio, a respiração compassada. Lá em cima, bem alto no céu, os abutres a voar. Na água esverdeada uma carpa salta … Continue reading PAREDES AO ALTO
DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!
“Professor! Don't do it again, please!” Esta foi a frase que quebrou a tensão e originou uma gargalhada geral. Quem a proferiu foi o professor Andrzej Łysak, na altura no Porto a convite do professor João Machado Cruz. Durante alguns meses, em 1982-3, contribuíu para a formação dos doze finalistas da licenciatura em Biologia, ramo … Continue reading DON’T DO IT AGAIN, PLEASE!
VER A ENCICLOPÉDIA
Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta … Continue reading VER A ENCICLOPÉDIA
COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO
Pouco depois de entrar no país pela fronteira de Vilar Formoso, era hora de almoço. Restaurante de beira de estrada, escolher mesa, mandar vir prato do dia, costeletas de porco. E para beber? Venha uma garrafa de Porto! Vinha de França à boleia num camião TIR. Terminadas as vindimas de 1981 na zona de Bordéus, … Continue reading COSTELETAS DE PORCO COM VINHO DO PORTO
TORNOZELOS SOFRIDOS
O terno vai batendo nos tornozelos a cada passo, o sofrimento é maior à medida que a distância percorrida aumenta e as forças me vão faltando. O tal terno não era uma carta de jogar nem peça de dominó, não era um fato com 3 peças de vestuário, nem sequer um conjunto de sofás… Era … Continue reading TORNOZELOS SOFRIDOS
O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO
“Andei todos estes anos a ensinar mal aos meus alunos”. Esta expressão, ou melhor, confissão pública bem sentida, ouvi-a da boca de uma professora do ensino básico já com meio século de vida, e foi feita na discussão que se seguiu a propósito de uma palestra sobre a conservação de répteis e anfíbios. O orador, … Continue reading O COXO DO SAPO E O EUCALIPTO
AVENTURA IBÉRICA
No fim da aventura, seria mesmo no penúltimo dia, senti uma bota nas costelas e acordei, os cães a ladrar, dentes arreganhados como os seus donos: toca a sair daqui! Get up! Estava eu a dormir tão bem… Eram 3h da madrugada na praia de Albufeira quando chegou a GNR. Acordei eu e mais uns … Continue reading AVENTURA IBÉRICA
WILLYS
Aprendi a conduzir aos 13 anos num velho jipe da segunda guerra mundial. Dito desta forma pomposa parece importante, fora do comum, uma raridade mesmo. O facto é que não tenho a certeza se o pequeno Willys verde teria mesmo andando na guerra. Seria uma das muitas unidades usadas oferecidas pelo Canadá ou pelos Estados … Continue reading WILLYS
O MATADOR
O corpo salta e corre desajeitadamente sem saber que já morreu. O sangue espalha-se pelo chão em pinturas esguichadas. O homem, machado avermelhado na mão, com todos a ver, calados mas desaprovadores, sente-se derrotado e desvia o olhar enjoado. A cabeça decepada, olhos fechados, ficou pousada na tábua de madeira. Depois de duas frenéticas voltas … Continue reading O MATADOR
BAFORADAS
O Né tinha oito anos e roubava charutos. Não sei bem quando começou, quantas vezes se repetiu, nem quando terminou, mas era mesmo assim. O miúdo, forte pronúncia do Porto, trazia-os de casa, ufano. Naquele tempo passávamos grande parte do dia fora de casa, que servia basicamente para dormir e comer. Não havia televisão, computador, … Continue reading BAFORADAS
DESPORTO RARO
No final dos 70 e início dos anos 80 era frequentador assíduo do 5º andar do nº 37, na Rua do Bolhão, com mais meia dúzia de maduros e outros tantos imaturos. Depois das aulas ou depois do jantar, aqui se testavam a personalidade, a resiliência psicológica, a memória e capacidades intelectuais, se melhorava a … Continue reading DESPORTO RARO
ELA
Ela mudou a vida da família e influenciou os meus amigos. Por ela alterei o modo de trabalhar. Até as férias mudaram, tal como o modo de passar os tempos livres ou as actividades de lazer. Por causa dela quase abandonei a fotografia, hobbie que cultivei durante muitos anos e que me dava tanto prazer. … Continue reading ELA
COMENTÁRIOS INCÓMODOS
Depois da minha intervenção, durante muitos anos, não mais me convidaram para lá ir. Era um debate na televisão com o então Secretário de Estado do Ambiente, Ricardo Magalhães, sobre a utilização de verbas do ministério do ambiente no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Discordei da gestão e afirmei que se pagava … Continue reading COMENTÁRIOS INCÓMODOS
É MUITA ATRACÇÃO!
O braço está grosso como uma perna! Está também às manchas escuras que derivam da hemólise extensa, e é melhor nem falar das fortíssimas dores causadas pelo edema, que se estende desde o dedo até ao ombro. Tudo em resultado de um encontro mal resolvido com uma víbora acossada. A história é meio parva mas … Continue reading É MUITA ATRACÇÃO!