ATENÇÃO: GALEOTAS E CAVILHAS!

Algo correu mal. Não sei dizer como, mas fiquei com o ferro aguçado e coberto de ferrugem espetado na carne. Descanso já os leitores, afirmando a minha culpa no acidente. Foi  autoinfligido. O ferimento sangrou bastante quando arranquei o objeto perfurante, deixando a minha mãe aflita quando fui mostrar o ferimento.

A marca do ferro nunca mais desapareceu. É verdade que raramente a via, e agora ainda menos, mas ela está lá, a fazer lembrar que os acidentes acontecem. Chegados aqui, será adequado revelar os detalhes da cicatriz, pois é essa a marca, como a fiz, onde estava e quando a provoquei.

O período de tempo em que o episódio ocorreu é relativamente difuso, mas posso garantir que ainda não tinha completado uma década quando tudo aconteceu. Por essa razão esta memória é pueril, quase desprovida de interêsse, e só a trago aqui devido a uma momentânea falta de inspiração para abordar outras histórias mais consequentes. Apetece dizer que esta historieta só tem algum valor por descrever um pouco do que era a infância nos anos sessenta do século passado.

Naquele tempo, vivia com a família em Nova Lisboa, actual Huambo, e era comum brincarmos na rua, por vezes em actividades sem vigilância. Correr atrás do arco, conduzido com um pau ou pela gancheta, fazer tiro ao alvo com fisgas ou com a arma de pressão de ar que poucos tinham, competir em corridas de carrinhos (em miniaturas que só alguns tinham ou com emulações de tampinhas de garrafas), trepar às árvores, jogar às escondidas, saltar ao eixo… Quando havia meninas, jogávamos à macaca, a passar o lencinho ou o anel, à mãezinha dá licença  (quantos passos?) e outros que não me surgem agora na memória, ou que não deixaram recordações.

Um dos passatempos dos tempos livres era o tradicional jogo do prego. Joga-se com uma galeota ou com uma cavilha (pregos gigantes, de oito a vinte centímetros de comprimento) e o objetivo é atirar o prego sucessivamente a um conjunto de pontos ou figuras desenhadas previamente no chão. Perde quem não acertar nos alvos ou quem deixar tombar o instrumento por não se espetar bem no solo. Para quem arqueie as sobrancelhas, duvidando da dificuldade do exercício, devo atestar que o jogo é fácil quando feito na areia húmida ou em solo barrento não muito seco. Em areia seca o prego tomba com frequência e em solo duro é necessário aplicar mais energia no lançamento para que o projétil fique em pé. Como saberão das aulas de física, mais força significa menor precisão. E está lançada a explicação para o ferro ter ficado em pé, no meu pé.

Acertei mesmo na ponta, entre o hálux (o dedão) e o segundo dedo, atravessando o tecido mole na base deles, sem atingir os ossos dos dois, ou do tarso. Estaria com sapatos ou descalço? Não sei, e também não sei se faria qualquer diferença pois espetou de um lado ao outro.

Podemos afirmar, com razão, que foi um descuido estúpido. Na verdade, havia muitas brincadeiras descuidadas com paus, pedras e latas de rebarbas cortantes, e a minha mãe avisava com frequência para eu ser cuidadoso, para eu não usar paus em jogos de espadachim, e mostrava exemplos de meninos com olhos vazados, pois havia muitos naquele tempo. Ela dizia serem o resultado do entusiasmo descuidado.

Não me lembro de avisos contra o jogo do prego, talvez por ser considerado inócuo. Para mim não foi. A boa notícia é que não foi grave, e nem me tocou o tétano, maleita que provocava mortalidade não negligenciável. Felizmente, estava vacinado.

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