PENSÃO COM VISTA PARA O MAR

Dormir no chão de pedra nua, com o vento a circular livremente no cubículo, janelas sem molduras, há muito carcomidas pelo mar, um bruaá continuado das ondas a espremer-se nas reentrâncias das rochas em volta, era a melhor definição de desconforto. No entanto, constituiu uma experiência única. Pior dormida só na noite passada debaixo da ponte romana de Mérida (ver PELA  ESTRADA FORA), onde a laje aos altos me deixou covas doridas nas costas durante alguns dias.

O forte da Berlenga, assim era chamada a ruína, não era o melhor local para descansar, decididamente, mas foi o que se arranjou na pequena ilha. Organizámos um grupo de entusiastas para mergulhar nas suas águas transparentes, e foi tudo feito com orçamento curto. Fomos a uma sexta-feira num minibus alugado, jantámos em Peniche, e aí passámos a noite no dormitório de uma agremiação, gentileza conseguida através dos conhecimentos do AM.

Na manhã seguinte tomámos o transporte para a ilha. Era um velho barquito de passageiros que oscilava tanto com as ondas que, invariavelmente, um ou mais ocupantes, daqueles pouco ou nada habituados às lides marítimas, acabava por virar do avesso o estômago revoltado. 

Chegado à Berlenga grande, pude constatar a pobreza das casotas dos pescadores, alugadas a veraneantes fartos de praias abarrotadas. E a falta de um cais seguro, e o aspecto desleixado em tudo, quer nas casinhas quer nas esplanadas, e lixo por todos o lado… Enfim, o pequeno arquipélago era já uma área protegida, com número limitado de visitantes e uma série de outras limitações, mas não se tinha livrado de séculos de abandono, de atavismo municipal, e do sentimento tão comum de “fazemos como queremos no que é nosso!” Adiante, que as vistas eram espectaculares, o mar muito azul nas pequenas enseadas, tantas aves marinhas, escarpas esculpidas, o farol, e ao longe os ilhéus. 

Era tempo de preparação para o nosso objetivo, e tínhamos de verificar o equipamento: máscaras, botijas, manómetros, reguladores, barbatanas, fatos, cintos com pesos… De tarde fizemos o primeiro mergulho, e dele pouco me lembro, tirando a grande abundância de peixes que nadavam por perto, isolados ou em cardumes. 

Ao final da tarde comemos besugos grelhados na brasa, numa das exíguas esplanadas. Peixe mais fresco não seria possível, pois tinha sido pescado por perto um par de horas antes. Saborosíssimos. Comemos com prazer, mas rodeados por  gaivotas atrevidas, sempre à espreita para roubar alguma coisa menos vigiada.

Depois fomos para a pensão com vista para o mar, aquela que descrevi no início desta memória. O caminho serpenteava escarpa abaixo. No final, degraus de pedra gasta e lajes conectando as rochas semi submersas permitiam o acesso ao fortim. Foi uma noite diferente.

Na manhã seguinte fizemos o segundo mergulho. Deste sim, guardo boas imagens e sensação de aventura, incluindo uma situação de risco imprevisto. Mas cada coisa a seu tempo. O barquito levou-nos até ao ponto combinado e regressou ao cais. O plano consistia em acompanhar a falésia, e quando o ar das botijas se aproximasse do termo, já estaríamos a entrar na enseada do cais, pouco profunda, aproveitando o declive suave para fazer a necessária descompressão enquanto nos acercaríamos da praia. Bom plano. E descemos para uma profundidade moderada.

O sol aberto fazia brilhar as cores de tudo. Das rochas, das muitas algas nelas fixadas, dos caranguejos e caramujos, das esponjas e das anémonas, dos percebes, dos peixes… Aquela zona era rica em vida marinha, uma visão bonita no contexto ibérico.  

Algum tempo depois, a falésia fez uma curva acentuada e o guia julgou tratar-se do acesso à enseada onde terminaria o mergulho, Engano, não tinha saída. Deu ordem para emergir, pois era necessário avaliar a situação. E então é  que foram elas… Por alguma conjugação do vento e da direcção das ondas, havia forte agitação à superfície e estávamos a ser violentamente atirados contra as rochas. Rapidamente, o AM deu ordem de mergulhar imediatamente, usando o polegar virado para baixo e sublinhando o sinal com verbalização estridente.

Debaixo de água, bastou descer dois metros para a agitação acalmar. Tínhamo-nos livrado do perigo. E a entrada para a enseada era pouco adiante. Terminámos a aventura sem mais problemas. Algumas escoriações, mãos e joelhos doridos, ficaram também de recordação. O principal, contudo, foi o mergulho numa das melhores zonas de Portugal continental.

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