Nunca gostei de borrachos. Nem dos de penas nem dos outros que nos fazem ver estrelas quando acertam num olho. Também não gosto daqueles que alguém disse que têm um grão na asa, uma arroba de grãos, digo eu. Só ficam de fora deste desprazer os outros borrachos, aqueles que eram mencionados nas nossas conversas de adolescentes com o buço a despontar e a testosterona a controlar, cada um com mais caroço que os demais a falar das miúdas mais giras do liceu.
Adiante, vamos ao tema central desta memória, as refeições feitas com pombos juvenis tirados do ninho, mortos com rápida torção do pescoço, depenados em água fervente, eviscerados e estufados. Escritas assim, estas palavras revestem-se de alguma deselegância mas, em socorro da verdade, devo acrescentar que o episódio aconteceu repetidamente no tempo das vacas ainda um pouco magras, sendo compreensível que tenha sucedido. Acresce que o consumo de borrachos é uma tradição em alguns povos mediterrânicos. Mesmo assim, esta história merece um enquadramento adequado, o que faço em seguida.
Lentamente, a economia familiar começava a melhorar e, lá por 1974, deixámos a casinha1 que nos tinha servido e mudámos para outra, localizada a escassos duzentos metros da loja que os pais geriam. Era uma casa maior e de espessas paredes, o que a fazia mais fresca, melhor adaptada ao calor africano. Como tinha mais divisões, finalmente consegui um quarto só para mim, e até tive direito a um colchão de espuma, novinho, em substituição do velho saco recheado de fibras vegetais2.
O pátio interior tinha um canteiro com três ou quatro metros quadrados onde altas canas verdes escuras ostentavam folhas largas e grandes flores, as rosas de porcelana que a nossa mãe tanto apreciava. Daí viam-se as portas dos anexos onde se guardava de tudo, e ainda o acesso ao pombal. Este, feito de traves de madeira antiga, rede metálica e muitas teias de aranha, albergava um bando de pombas e pombos que tinham sido do dono da casa. Suspeito que terá sido ele quem deu a idéia de os usar na alimentação.
Assim, de vez em quando, os pais decidiam que seria conveniente fazer um almoço com borrachos, obviamente dos de penas, não dos outros. Eu, que sempre fui boa boca, comia o “petisco” sem entusiasmo, mas não recebia bem a refeição, não tanto pelo sofrível sabor “a pombo” mas porque era chamado a colaborar na desagradável tarefa do depenanço. A minha irmã, por seu lado, franzia o nariz e pouco engolia. Enfim, era carne muito barata e cumpria o objectivo de poupança, mas não satisfazia ninguém.
Décadas mais tarde, reencontrei-me com os borrachos pela mão da Dona Balbina, afamada cozinheira mirandesa. Fosse pela esmerada preparação de véspera ou pela companhia de um grupos de amigos, ou ainda por não ser uma inevitabilidade familiar, o certo é que me reconciliei com os desengraçados bicharocos. Gastronomicamente falando, é claro.
NOTAS
1- Ler CAMA DE BATATAS
2- Ler SACO DE BARRIGA ABERTA
One thought on “BORRACHOS”