Quando fui para a escola, tendo completado sete aninhos, já sabia ler, escrever e contar, por empenho da minha mãe. Não me lembro disso, mas o assunto foi por ela referido, várias vezes, quando eu era já mais crescido. O seu orgulho indisfarçado tinha fundamento pois o feito estava longe de ser generalizado entre as “donas de casa” que conhecia. O que não foi muito falado, apesar de ter sucedido, foi o modo de contrariar a minha tendência para escrever à canhoto.
Se nada recordo da aprendizagem caseira, o mesmo não se aplica aos primeiros anos de escola. Tenuamente, lembro-me da pequena lousa onde escrevia durante a primeira classe, usando um estilete frio e quebradiço, mas as letras não se viam bem. Havia também cadernos lisos e de linhas, onde desenhava com lápis de cores e escrevia com o pauzinho de aparo metálico na ponta e que se molhava no tinteiro a cada linha. O instrumento seria bom para monges copistas ou para amanuenses mas não o era para crianças. E havia o odiado caderno de caligrafia, o qual não me ajudou nada, nem ele nem os puxões de orelhas nem as palmatoadas. A minha escrita foi sempre irregular, feia, e nenhum método foi eficaz para a melhorar. Mas dava poucos erros de ortografia e acertava nas contas, na prova real e no “noves fora”. Estas faziam-se com o lápis propriamente dito, também chamado lápis de carvão, e com a companhia da borracha e do afia.
Se eu não tinha queda para fazer letras bonitas (talvez por ser um esquerdino transformado em destro) também não tinha jeito para o desenho nem para a pintura. As cores que o pincel misturava raramente se comportavam do modo previsto, e as formas que saíam do lápis não me deixavam satisfeito. Não me lembro do meu desempenho com o alfinete e com a tesoura, picotando e recortando o papel de lustro com cores vibrantes para fazer colagens, mas tenho as minhas suspeitas de que eu não teria tanto brilho como o papel. Cedo me conformei com estas falhas e segui adiante.
Outro motivo para castigos na escola era a tinta azul do aparo, que teimava em manchar-me os dedos e a salpicar-me a bata e as folhas do caderno, obrigando ao uso contínuo do papel mata-borrão. O Universo salvou-me e o desaparecimento dos tinteiros encaixados nas mesas e dos aparos foi repentino, de um ano para o seguinte, (tal como o das lousas) mas a substituição do instrumento de escrita por canetas com depósito, ditas de tinta permanente, não eliminou totalmente os dedos tingidos. Adeus tinteiro, adeus aparo. Na época (estaria ainda na segunda ou já na terceira classe) não festejei o fim da escrita por meio da tecnologia do século dezoito. Deveria tê-lo feito pois a mudança foi boa e reduziu os borrões (só mais tarde, já no Ciclo Preparatório, apareceram as esferográficas, muito mais práticas e que não se babavam).
Os primeiros anos de escola foram de muitas descobertas. Umas foram boas, outras nem por isso, e já revisitei esses tempos em vários textos. A caminhada desde casa até à escola primária, atravessando o ribeirinho cheio de vida1, a desafiante linha do combóio2 que cheirava a óleo queimado, e o perfumado eucaliptal, só comecei a fazê-la a partir do momento em que os progenitores acharam conveniente, e, como é óbvio, talvez tenha sido na terceira ou na quarta classe.
Nas aulas aprendi muito, e conheci professores bons, maus, interessantes e sádicos. O Dantas era bruto, usando a régua com gestos de malabarista antes de nos pôr as mãos a arder. Também passou pela escola uma senhoreca amarga que passava por professora. Punha sal no chão e obrigava-nos a ajoelhar nos acelerados grãos, um castigo excessivo para erros no ditado ou nas contas.
Também descobri novos sabores, nos lanches partilhados e na distribuição periódica de óleo de fígado de bacalhau, recomendado para suprir carências vitamínicas na alimentação. Devo mencionar que o raquitismo não era raro, mesmo entre quem não seria de prever.
O recreio era aguardado com ansiedade, e as gargalhadas e a chinfrineira tomavam conta do espaço, o qual nos parecia enorme mas que não teria mais de quatro ou cinco dezenas de metros de comprido. Jogávamos às escondidas, ao eixo ou às batalhas de espadas e escudos improvisados. E faziam-se pistas para as competições de tampas de garrafa, desenhadas no chão com gis subtraído da sala de aula, ou fazíamos rodas em volta dos ases dos jogos de lerpar cromos, que os viravam no chão por vácuo, com gestos rápidos de mão curvada em concha. Havia também as travessuras3 e as aventuras saídas da imaginação colectiva.
O regresso a casa era pelo mesmo caminho da ida, e havia sempre motivos de interesse que atraíam a minha atenção. Uma pedra colorida, uma pena caída, um cajado improvisado, uma carocha do ribeiro, flores de eucalipto, muitas coisas levava para casa e lá ficavam até a mãe os fazer desaparecer, com excepção das carochas, as quais fugiam logo na primeira noite. A viagem era muitas vezes agradável, dia após dia. Só não o era quando tinha os calções descosidos, merecendo castigo à chegada, e também não foi boa naquele curto período em que tive de carregar para casa o pesado terno de marmitas com o almoço, momentos que eram uma tortura por si só4.
O ensino primário terminou com o temido exame da quarta classe, no qual me saí bem e até tive direito a prémio5, distinção essa que não pude recusar e que me soube mal, tanto que fiquei embatucado.
Chegados ao final deste texto, falta revelar o motivo que desencadeou este rosário de memórias. Ao abrir uma pasta com documentos antigos, deparei com a cópia digital do diploma que atesta a superação desse exame da quarta classe, a 3 de julho de 1970, um mês antes de completar a primeira década de vida.

NOTAS
1 – Ler GIRINOS EM CASA
2 – Ler AFINAL NÃO DESCARRILA
3 – Ler LOENGOS
4 – Ler TORNOZELOS SOFRIDOS
5 – Ler O PRÉMIO QUE NÃO QUERIA