
O conforto da casinha de montanha aguardava-nos. Escondida na paisagem ventosa e coberta de grossa camada de neve, a pequena construção estava junto ao tosco cercado de pedra que circundava o pasto.
Transposta a cancela de tábuas aparelhadas, vimos uma fiada de orifícios na neve fofa. Analisando de perto, o veredito chegou rapidamente: pegadas de raposa. O trilho vinha de cima, e descia o terreno em direcção ao alpendre. Descemos também e, junto à porta, estava a prova do furto. Afinal, o que tinha atraído o quadrúpede ladrão era uma caixa de cartão com aroma. Estava parcialmente despedaçada, mas tinha ainda o rótulo legível: lombos de bacalhau congelado. E, do fiel amigo, restava apenas o cheiro.
“Lá se foi o jantar!” Se não foram estas as palavras, foi uma expressão equivalente. Não me lembro de quem a pronunciou, mas, certamente, não foi o mesmo que sugerira deixar a caixa a descongelar no alpendre virado a nascente, aquecido pelo sol da manhã. Revelou-se uma má ideia.

A raposa teve um presente inesperado e a neve, tal como a página de um livro, contava o resto da história. Havia três rastos entre a caixa e o bosque, uma vintena de metros mais abaixo. Dois deles a descerem e um a subir. Eu explico. Com a primeira posta na boca, a raposa desceu até se sentir protegida na ramagem, e comeu-a enquanto o diabo esfrega um olho. Depois, tentada pelo petisco não vigiado, subiu a encosta e, já com a segunda posta entre os dentes, voltou a refugiar-se no meio das árvores. Se a ingeriu ou se a armazenou, já não posso afiançar, pois meio quilo de bacalhau é equivalente a uma quinzena de ratinhos gordos, alimento mais próprio da sua natureza, mas que dão muito mais trabalho para obter.
Se a raposa jantou opíparamente, também devo dizer, a bem da verdade, que nós não ficámos mal servidos. Presunto, pão, azeitonas, ventresca de atum em azeite, sardinhas picantes em molho de tomate e uma garrafa de pomada da boa iam sempre conosco para o monte.

Muitas vezes pernoitei naquela casinha de pedra, em fins de semana invernais, com os amigos ZP e AV, o dono. Nessa e também noutra casinha, também isolada, feita de madeira e propriedade do amigo PV, as duas separadas pelo vale glaciar do Rio Vez. E ainda, posteriormente, numa casa maior e mais confortável que o PV fez ali perto, e onde nos recebeu amiúde. Em todas essas ocasiões houve momentos para recordar. A começar pela contemplação da paisagem agreste, sempre diferente, e não faltaram dificuldades a superar, momentos de distensão e de convívio, conspirações a favor da Natureza, e muitas outras.
Numa dessas aventuras, tivemos que fugir de um incêndio. Daqueles que resultam das queimadas que os pastores fazem na serra para renovar pastagens e que, tantas vezes, se descontrolam e causam destruição massiva nos ecossistemas. Lembro também uma ocasião de bloqueio do jipe em neve profunda. Foi necessário escavar, colocar correntes nos pneus e atapetar o trilho com ramos para sair dali, já a noite tinha chegado.
Num trilho à beira do Vez, o encontro com retorcidos azevinhos centenários, ornados de líquenes8 barbudos, foi mágico. Saber que eram velhos, muito velhos, e que só tinham sobrevivido a múltiplos incêndios por se encontrarem em terrenos encharcados da margem do rio, acrescentou emoção à ocasião.
Quantas vezes atravessámos prados coloridos por milhares de flores? Muitas. E em tantas ocasiões me deliciei com o canto das petinhas e lavercas, ao caminhar em silêncio por pastos semeados com o que sobra da passagem de gado. Não raras vezes, o fossado dos javalis marcava também a sua presença naquelas encostas.
De outra vez, lembro-me de dois corços correndo mais que os cães de uma batida, e escapando aos caçadores. Vimos o desenvolvimento do drama a distância conveniente, da encosta oposta, torcendo pelos elementos mais fracos da refrega.
A libertação de um garrano preso no que restava de uma construção abandonada na Branda do Real foi outro momento especial. Talvez tenha entrado para comer a erva tenra, a crescer abrigada pelas paredes ainda ao alto. Estorvada pelas traves do telhado abatido, a égua não lograva sair. Retirada da entrada a padieira apodrecida, o assustado animal fugiu, levando a garupa ensanguentada pelas farpas das traves caídas, e juntou-se à cria aflita que aguardava do lado de fora.
Várias vezes, nas caminhadas pela serra, deparámo-nos com pegadas de lobos, com os seus excrementos, e com restos de garranos abatidos por esses raros predadores. A sua presença no território era contínua, não só nos vestígios mas também nas conversas com os aldeões e na arquitetura dos cercados. No bosque de vidoeiros onde fomos algumas vezes recolher ramos secos para combustível da salamandra, não faltavam ossadas brancas, os restos de batalhas entre a alcateia do Vez e azarados equinos e bovinos. Esse bosque, mais interessante nas curtas tardes ensolaradas de inverno, mostrava o forte contraste entre os troncos alvos e o solo, coberto de folhas secas e musgos escuros. A arroxeada ramagem das copas recortadas no azul do céu, destacava-se pelo tom morno na paisagem de cores frias. Caminhar por entre as árvores libertava cheiros fúngicos, cuja origem era anunciada por cogumelos esparsos. Imersos no bosque silencioso, por vezes éramos surpreendidos pelo martelar e pela gargalhada estridente do peto-verde, ou por um bando de chapins.
Fizemos passeios nocturnos por caminhos difíceis, mesmo para os jipes, com chuva, nevoeiro cerrado, a nevar, ou com o chão repleto de gelo escorregadio, tentando observar a fauna mais esquiva, ou, simplesmente, para visitar outros amigos por perto. Coelhitos, javalis, genetas e raposas deixaram que os víssemos na estrada.
Nos dias de chuva intensa, caminhar não era apelativo. Virávamo-nos então para culinárias mais elaboradas. As patuscadas, simples ou não, sempre trouxeram conversas bem dispostas e camaradagem saudável.
Gostei das andanças pelo vale, das subidas ao cume ventoso do Pedrinho e à cabeceira do Vez, com as suas gastas poldras, da caminhada ao topo da Penameda, que incluiu molhar as mãos na água fria da lagoa que está junto a este maciço granítico, dos calmos passeios pela Branda da Aveleira, à anta do batateiro, à ruína da torre de observação dos serviços florestais, e a tantos outros pontos interessantes. Foi sempre compensador, ficando na memória e registado em fotografias.
Fizemos também passeios motorizados um pouco mais longe, como ao Planalto de Castro Laboreiro, com a sua turfeira e as mamoas, com neve ou chuva, de dia e de noite. Fomos a Brandas mais ou menos decrépitas, e a povoações mais vivas para abastecimento de víveres. Lembro também a difícil travessia TT entre a Branda de Santo António e a Portela de Alvite, pelo caminho medieval, sendo ainda visível o desgaste das lajes graníticas pelo rodado dos carros de bois.
Esta memória tem título e as primeiras linhas como se fosse uma fábula. No entanto, nem os animais falam nem se condena a falta de virtude. De forma muito simples, falo da Amizade, da Natureza e da Vida. Por mais que agradeça tudo isso, nunca será o suficiente.