Como quem faz uma emboscada, os três rapazolas aguardam atrás de um eucalipto. Do outro lado da rua chegam indicações de que a cerimónia está para breve, e fazemos a confirmação nos nossos relógios de pulso. À hora certa, o corneteiro inicia o toque de hastear a bandeira e dois dos nossos sacam das gaitas artesanais e fazem eco ao toque militar, produzindo um som alto, roufenho e risível. O terceiro elemento, numa inspiração momentânea, agarra uma comprida tira de casca pendente da grande árvore e descola-a lentamente do tronco, imitando o içar do estandarte. Terminada a breve cerimónia, e temendo represálias, fugimos em passo de corrida sem ver a reação à nossa bravata.
Para que a memória fique explicada, devo abordar dois assuntos e não tenho a certeza de qual falar primeiro. Talvez seja melhor começar pelo que é mais ligeiro, a gaita. Tal como outros objetos que tínhamos naquele tempo, as gaitas eram feitas à mão por cada um de nós. Com apenas três componentes, são fáceis de fazer. O primeiro é um tubo de palmo, ou de palmo e meio de comprido, dependendo do dono da mão. Geralmente, era de origem vegetal, um caniço ou o pecíolo de uma folha de mamoeiro, cortado na medida certa com o canivete que todos usávamos. Pode também usar-se um tubo de plástico. Alisadas as extremidades, faz-se um orifício circular, mais ou menos a um quarto do comprimento do tubo. O segundo componente é a membrana, e o melhor material é um pedaço de celofane, fino e estaladiço. Se não houver, qualquer plástico serve como vibrador. O terceiro componente não pode ser mais humilde, uma simples borrachinha, um elástico de escritório para segurar a membrana de modo a tapar o extremo do tubo mais próximo do orifício. Aprontada a estrutura, segue-se a afinação do instrumento. A tarefa é simples e começa com o “músico” a soprar pelo orifício alguns sons, ao mesmo tempo que ajusta a tensão da membrana, nem muito apertada nem solta. E já está! Depois, é só trautear uma música e o som sai ampliado e distorcido, muito cómico.
Trago agora o assunto mais sério, o quartel. Instalado numa vila do interior, pouco intrusivo, era um armazém de tropas em descanso ou em trânsito para outros quartéis. Viam-se poucos soldados, no bar, nas festas da terra, ou quando saiam em coluna motorizada. O capitão visitava as famílias influentes, e alguns subalternos vendiam, por baixo da porta, garrafas de whisky que compravam no quartel a metade do preço. A região de Camacupa estava muito afastada das zonas de conflito armado e as tropas não corriam perigo em combate. Contudo, não estavam a salvo. Morriam de tédio, ou em acidentes de viação, e afogavam-se em álcool…
Regressemos agora ao início. Gosto de pensar que a nossa provocação inocente não se limitou a uma brincadeira que deixou apenas indiferença. Imagino alguns sobrolhos contraídos, em irritação pela falta de respeito. E também sorrisos condescendentes, agradados com a quebra na monotonia diária daqueles soldados.