ESCRITA DUPLAMENTE PESADA

Os últimos seis anos foram bons para a escrita. Pouco a pouco, fui abrindo janela e deixei voar episódios antigos, pensamentos, factos estranhos ou curiosos, críticas e juízos de valor. Todos os meses viram o surgimento de novos textos, memórias de uma, duas ou de seis décadas, umas mais poeirentas umas que outras. Fui abrindo o baú e escrevi textos económicos, pois a mão e o olhar não permitem grande desenvolvimento, e ultrapassei já a marca das duas centenas, um feito que me surpreende. Não o julgava possível quando encetei esta empresa.  

Os motivos para esta abertura do arquivo neuronal já foram expostos em devido tempo, razão suficiente para não os repetir. Coisa distinta são objetivos. Na verdade, mais subentendidos que estabelecidos, permaneceram sempre no limbo, pois nunca pensei muito nisso. Ainda assim, importa realizar um balanço, uma pesagem destes anos de escrita. Se alguns artigos tiveram dezenas de visitas, a verdade é que outros textos tiveram apenas uma ou duas leituras, ou nunca foram lidos, nem pelos elementos da família, afinal os principais destinatários das memórias.  Não atribuam importância a este queixume de velho rabugento, pois ele corresponde apenas ao que a todos sucede, se bem que em distinta frequência, uns aguardando e outros solicitando-o insistentemente: por vezes, sentimos a falta de uma pitada de reconhecimento. Continuemos. Sim, sei que alguns títulos são vulgares, não antecipam nada de especial. Mas, não serão apelativas, misteriosas, histórias com nomes tão estranhos como “O RAPAZ DOS GAFANHOTOS”, “FILA PARA A PISTOLA”, “AS PEDRAS DE SÃO BARTOLOMEU” ou “FILOSOFIA DE PORCO”? Por isso, não posso deixar de sentir alguma decepção, injustificada, é certo, pois nada garantia que sucedesse de outro modo. Sempre pensei que ler memórias curtas (a maioria delas não excede os cinco minutos) fosse pouco trabalhoso. Engano meu, a apetência não virá da duração. Na verdade, a vida de cada um, ou uma, é recheada com outros assuntos e eventos mais apelativos, e  ler estes textos vai ficando para trás. Adiante. 

Ao longo dos anos tenho recebido críticas positivas e negativas sobre as memórias. Das primeiras não interessa falar, e, das últimas, duas merecem destaque. Logo no início, uma voz não gostou da exposição de cenas familiares. Por essa razão, tive mais cuidado com o que fui desvendando. Recentemente, uma leitora disse-me que eu escrevo sem espiritualidade. E tem razão. Contudo, não poderia ser de outro modo, pois a minha escrita reflecte a minha pessoa. Nunca senti necessidade de buscar uma razão para a vida, nem de religião, nem procurei ligações com o sobrenatural ou com o divino, sabendo que não vou encontrar respostas satisfatórias. Sempre pensei que, mais importante do que saber porque estamos aqui, é viver com respeito pelos outros e pela Natureza. E não é nada fácil, pois errar frequentemente é próprio da nossa formatação, e o livre arbítrio uma quimera, uma ilusão. Difícil é fazer bem, e reconhecer o erro ou dele ter consciência, é-o ainda mais.
Em jeito de fecho deste balanço, algumas curiosidades.  Se a contagem automática for fiável, a memória mais vista, quase duzentas vezes até ao final de 2024, foi “CINEMA PROIBIDO”. E tal sucesso é resultado de uma indexação do Google, atraindo visitantes que devem ficar descontentes ao constatarem  ser apenas uma historieta de um rapaz curioso que trepou a uma varanda alheia para espreitar para onde não devia. A segunda curiosidade vem da China. Por razões que me parecem óbvias, a página de entrada, intitulada “ARMAZÉM”, recebe muitas visitas desse país. Esboço um sorriso ao imaginar as interjeições que fazem quando descobrem o conteúdo dos baús, cheios de pensamentos. A terceira curiosidade é uma surpresa para mim, e não é uma memória. O texto mais visto, mais de duzentas e cinquenta vezes até ao final de 2024, é o  “DICIONÁRIO DE UM DESVANECENTE“. Está noutro baú, e resulta de uma ideia que me ocorreu em 2019. Saiu bem.

Este texto já vai longo, e vou terminá-lo. Escrever é cada vez mais pesado, mais doloroso, não por razões emocionais, mas pela posição que estira os músculos do pescoço e do dorso, reduzindo a concentração e o tempo útil de trabalho. A morosidade do processo, por sua vez, não me deixa muito tempo para fazer tudo o que quero no computador, e a escrita ressente-se de mais essa limitação. Assim, não por falta de assunto mas devido à limitação física, a minha escrita vai passar a ser irregular, talvez esporádica ou intermitente. Voltarei aqui sempre que tiver vontade de o fazer, se puder.

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