Este texto não se refere a um mal afamado grupo de pistoleiros nem faz eco de turbulências no império amarelo. É mais terra a terra e aborda a última grande aventura familiar com os quatro elementos, a viagem à Antártida. Outras houve depois, mas mais nenhuma com todos.
Contrariamente às anteriores, nesta viagem não escolhemos o itinerário nem o alojamento, e, quanto às datas, só havia uma opção disponível. Foi a primeira vez que confiámos num pacote turístico pré-programado e é compreensível, dadas as especificidades do destino. A expectativa era grande e um casal de amigos de longa data (a M e o S) cativado pelo programa, decidiu juntar-se ao grupo.
Com saída em janeiro, inverno aqui e o oposto lá, fizemos a primeira paragem em Buenos Aires, cidade com muito que ver. E vimos com agrado, estava sol e um calorzinho agradável do verão austral. Uma vez que eu já andava com dificuldade, todos ajudaram para que também eu fosse ver os locais mais interessantes.
A segunda paragem foi em Ushuaia, dois mil quilómetros mais a sul. Marcando bem a diferença para a capital Argentina, um vento gelado e flocos alvos esperavam-nos à saída do aeroporto. A neve caiu todo o dia, prenúncio do que nos esperava dali em diante. Contudo, no dia seguinte o sol iluminou o nosso dia para um passeio pela Patagónia.
O Parque Nacional da Terra do Fogo, onde os Andes se afundam no oceano, apresentou-nos paisagens lindíssimas. Recordo como se tivesse sido ontem o lago Acigami, de água fria e margens verdes, rodeado de cumes nevados. Alguns deles já no Chile, ali tão perto, e tudo debaixo de um céu azul de postal ilustrado. Saindo do Parque, fizemos uma curta e agradável viagem num comboio em forma de brinquedo (Tren del Fin del Mundo) que contrastou com a utilização para que foi feito, o transporte de trabalhadores quase escravos…
O dia seguinte, frio mas bonito, ficou marcado pelo embarque no “Sea Spirit”. Não era grande como tantos outros navios de cruzeiro, alojando pouco mais de uma centena de passageiros. O barco parecia estar atracado perto, ali pouco mais à frente, mas demorei uma eternidade para percorrer o cais, sempre amparado pela Anjos, até chegarmos à escada de acesso ao convés.
Com o início da navegação e o longo anoitecer no Canal Beagle, as paisagens em tons pastel deslizaram suavemente perante o nosso olhar. Ao final da noite começou a difícil travessia da Passagem de Drake, e a grande borrasca confinou metade dos passageiros aos camarotes, precisamente a mesma proporção que afectou a família. Lá fora, o mar alteroso metia respeito e, do lado de dentro, tudo abanava. Só os albatrozes estavam confortáveis, planando vertiginosamente acima das ondas. Com a aproximação às Ilhas Shetland do Sul, dia e meio depois, a tempestade amainou e surgiu uma paisagem diferente. Primeiro esparsos, depois incontáveis, icebergs com formas incríveis, esculturas maravilhosas de água e vento. Surgiram também pardelas, petréis, gaivinas, pinguins a brincar nas ondas, e os vistosos corvos-marinhos-das-shetland, de olhos azuis.
A primeira escala em terras do Polo Sul foi na Ilha Deception1. E a chegada foi um espetáculo pois a ilha anelar é uma cratera vulcânica inundada pelo mar através de uma abertura estreita de altos rochedos negros. A lagoa interior, ao proporcionar abrigo seguro aos navios, foi usada como atarefado porto de Baleeiros. Fomos a terra em botes de borracha, depois de desinfectadas as botas de todos, rotina que precedeu todas as saídas. Só consegui estar no bote (nesse e nos passeios seguintes) com ajuda dos filhos, da Anjos e dos amigos, segurando-me à vez, um de cada lado. Mas valeu a pena. Já em terra, sentado numa cadeira que me desdobraram na praia de areia e calhaus de basalto, cedo me vi rodeado de pinguins. Não mostraram receio e continuaram as desconchavadas caminhadas no solo coberto de neve. Ali ao lado, semi-ocultos pelo nevoeiro, jaziam os vestígios ferrugentos de uma estação baleeira, testemunhos dos tempos de matanças passadas. Aquela praia foi também testemunha do baptismo antárquico de um grupo de bravos banhistas, entre os quais o nosso primogénito, que se atreveram a dar um mergulho na água quase congelada com o vento cortando a pele descoberta. A caçula, divertida, fotografou a cena toda.
Mais um dia e fizemos novo desembarque, desta vez em Mikelsen Harbour, na ilha Trinity. É outro local ligado à baleação, e as velhas ossadas de baleias e restos de uma barcaça de madeira são vestígios ainda presentes. As focas-de-weddell faziam companhia aos pinguins-gentoo e, mais afastados, vimos também pinguins-de-adélia e pinguins-de-barbicha.
No dia seguinte chegámos à baía de Cierva Cove, local espetacular rodeado por montanhas e glaciares de onde se soltam inúmeros icebergs. Foi memorável o passeio de bote no labirinto de blocos de gelo com tons de um azul improvável. Cavernas de gelo, superfícies onduladas, cachos de pingentes e outras formas incríveis excitaram a imaginação e maravilharam todos.
Depois de uma noite bem dormida, chegou o dia em que demos os primeiros passos no continente gelado. Ao desembarcamos na Antártida encontrámos a base argentina “Primavera”, apenas vários barracos e muito lixo. Estava vazia de gente, mas apinhada de pinguins-gentoo. Muitos deles nos ninhos de pedrinhas empilhadas, defendendo os seus pintos dos agressivos moleiros. Na praia, lobos-marinhos dormiam a sesta e, mais afastados, alguns pinguins-de-adélia e pinguins-de-barbicha.
Nos dias que se seguiram, a navegação rumou ainda mais para sul. Ao percorrer o Canal Lemaire, tivemos muitas oportunidades de pousarmos o olhar em paisagens únicas, desembarcarmos em vários locais e observarmos a vida selvagem de muito perto. Flutuando à boleia de blocos de gelo, vimos focas-leopardo de grandes dentes adequados à captura de pinguins, vimos focas-de Weddell, mais pequenas, e focas-caranguejeiras, com dentição serrilhada, boa para comer presas pequeninas. Mais afastadas, baleias-de-bossas aos saltos atraíram a nossa atenção duas ou três vezes, e até as baleias-anãs apareceram em pequenos grupos. Numa praia, uma família de elefantes-marinhos repousava a sua paquidermice. A visita à base chilena “Gonzales Videla” foi importante para vermos como é difícil viver naquelas paragens inóspitas. Nas imediações, perante milhares de ninhos de pinguins-gentoo, foi possível observar pormenores do seu comportamento como uns a roubarem pedrinhas aos outros, pais a alimentarem os filhotes, adultos a mergulharem no mar… Vimos as pombas-antárticas a reciclarem os excrementos dos pinguins, ingerindo as fezes carotenizadas e, contra-intuitivamente, mantendo as penas incrivelmente alvas. Passei largas horas no convés superior, bem agasalhado, enquanto o navio percorria o Canal Lemaire, desfilando montanhas nevadas a bombordo e a estibordo, como se estivéssemos num descomunal fiorde. Por vezes à conversa com a família e com os amigos, ou apenas escutando os sons das aves e dos pedaços de gelo flutuante a percutir o casco, senti uma paz comigo e com o mundo como poucas vezes na vida.
A certa altura, a superfície do mar apresentou-se completamente coberta de gelo, inviabilizando a navegação mais para sul. Ficámos a escassas milhas da estação Ucraniana Akademik Vernadsky, onde estava prevista uma escala, e o navio voltou para trás, iniciando o regresso.
Quase tudo ficou registado em fotografias feitas pela família, naquela que foi a primeira viagem não pude ser eu a fazê-lo. Ainda assim, muitas das fotos foram teleguiadas, isto é, foram encomendas minhas: olha ali aquele ninho com dois pintos; mais zoom; atenção ao horizonte; mais céu; tenta apanhar o moleiro a comer o cadáver; coloca o objecto em fundo neutro; fotografia esse mas ajoelha-te…
A aventura foi tão recompensadora que exigiria outro talento para a descrever e ficam muitos episódios por contar. Ainda assim, não resisto a mencionar alguns. Em Cierva Cove recolheram do oceano um pedaço de iceberg, colocaram-no no bar, e partiram-lhe fragmentos para refrescar bebidas. Todos provámos daquele gelo comprimido originado em neve que caiu antes do império romano. O mesmo bar onde alguns convidados da base chilena animaram um serão musical muito agradável. Por falar em festa, houve um almoço ao ar livre e muito frio, com churrasco. Foi divertido e diferente, mas a comida perdia interêsse, esfriando rapidamente nos pratos. Outra cena que merece ser evocada é a da limpeza do vestuário. Em cumprimento das normas internacionais, fomos todos obrigados a passar um poderoso aspirador nas nossas roupas de exterior com o objectivo de evitar que algumas sementes alojadas nas dobras ou nos bolsos pudessem cair e germinar naquelas terras. Também tenho de falar sobre o elevador ou, melhor dizendo, sobre a sua ausência. Durante as duas travessias da Passagem de Drake teve de ser desligado por razões de segurança. Tal foi a oscilação do navio que o equilíbrio era difícil, mesmo para quem não tinha dificuldades no andar. Assim, foi à força de braços dos filhos, mais dele que dela (o enjoo não perdoou) que pude galgar os degraus de acesso ao refeitório e ao salão. De outra forma,, teria ficado confinado ao camarote e não teria aproveitado os dias de travessia para conviver, ouvir o pianista e ter visão alargada do oceano zangado. Quase no fim da cruzeiro houve um concurso de fotografia, organizado pela equipa de coordenação da viagem. Foi muito variado, com obras para todos os preferências, e os filhos marcaram presença. A imagem de um pinguim no ninho, com o mar em fundo e coberto de reflexos estrelados, mereceu uma menção do júri para o nosso mais velho.
A memória ficaria incompleta se me esquecesse de mais um detalhe. O jornalista e escritor de sucesso que o operador luso convidou para acompanhar o grupo de portugueses deveria partilhar o seu conhecimento sobre a região. No entanto, foi displicente e banal. Nas conversas que tive com ele, mostrou aversão às novas tecnologias e revelou espírito bafiento e enviesado. Parecia estar ali apenas para gozar das vantagens e para autografar o seu livro, aquele que tem na capa a ilustração de um iceberg num equilíbrio que não obedece às leis da física…
A última viagem do bando dos quatro foi inexcedível. Ainda que tenha obrigado a opções financeiras dolorosas e exigido sacrifícios físicos consideráveis, o balanço é tão positivo que transforma as dificuldades então sentidas em meros vestígios na memória.
NOTAS
1-Ler CORES DO FIM DO MUNDO
