Metida a mão dentro da cabaça e sentindo os grãos, o ladrão encheu a mão e puxou, mas o punho fechado não coube na estreita abertura. Entretanto assomou o guarda e o assustado assaltante puxou com mais força a mão entalada que não saiu, tentou fugir mas não resultou pois a cabaça estava bem amarrada com um arame e, finalmente, o destino chegou violento. “Burro!” disse o carrasco.
O estranho parágrafo inicial, porventura ininteligível, necessita clarificação, e esta vem de uma antiga memória de menino. Conto a história como me lembro de a ouvir, e impressionou-me tanto que permaneceu até hoje.
Um amigo do pai tinha uma propriedade agrícola a distância considerável da cidade, mais a norte, e só lá fomos uma vez. Ficava entre uma colina densamente arborizada virada a poente e um ribeiro que escorria lentamente no fundo do vale pouco pronunciado. Lembro-me bem de andar com a minha irmã, descalços na água límpida, capturando peixinhos, caracóis e carochas por entre as folhas e caules de um mar de agriões. Presos num frasco grande, gostava de ver ao sol aberto o interior de uns, quase transparentes, os reflexos metálicos de outros e a conchinha espiralada dos mais lentos. Mais divertido e interessante seria difícil.
A quintinha produzia essencialmente frutos e hortaliças, fonte de rendimento dos proprietários. Contudo, havia um senão: era a razia que a macacada fazia na fruta pronta a colher. Espantalhos não eram eficazes e era impossível guardar toda a propriedade pois os macacos eram espertos e contornavam a vigilância. Consultando os velhotes da aldeia mais próxima, uma solução minimizadora foi por eles apresentada e, se bem que levantasse muitas dúvidas, foi colocada em prática. Foram preparar uma cabaça com milho no interior e tendo apenas uma abertura onde cabia a custo o braço da pretendida vítima. Colocada em local estratégico e sob vigilância, rapidamente atraiu a macacada, sabedora que os humanos guardam alimentos naqueles recipientes. O mais afoito meteu a mão na cabaça e já sabem o que lhe sucedeu. O que para nós é evidência não o foi para ele, e, incapaz de largar o milho e abrir a mão para caber na abertura, foi abatido no local. A aflição do animal, propagando-se à sua família, era dada como eficaz para deixar a fruta sem problemas por uns tempos.
Quando usamos noutros contextos uma adjetivação reservada aos humanos estamos a esquecer a natureza intrínseca dos destinatários. Afinal, dizer que o macaco é burro pode revelar, mais do que um insulto, um certo desapontamento face à reconhecida esperteza dos nossos primos primatas.