No meio da nuvem branca e malcheirosa, os vultos de farda parda faziam uma estranha coreografia. Uns, desenrolando da traseira do veículo um tubo flexível com um longo espalhador metálico, introduziam fumo nos bueiros e demais orifícios das ruas e passeios. Outros, com uma barulhenta máquina portátil, lançavam fumo nas habitações e casas comerciais.
Apareciam sempre mirones. Uns fugiam. Outros não se intimidavam e deixavam-se envolver pela nuvem, que alastrava e dissipava em seguida, lentamente. As mães soltavam um “Anda práqui!” desconfiado, e a miudagem recolhia. E tinham razão para suspeita, pois a nuvem branca continha um poderoso e eficaz insecticida. “Não faz mal nenhum”, dizia-se. A verdade é que, desmentindo a opinião corrente na época, o DDT foi proibido alguns anos depois.
Os mosquitos estavam em todo o lado, e eram eles a razão de tal aparato. A sua abundância era potenciada pelo clima, associado às características dos terrenos de vastas regiões de Angola. A grande humidade, o calor, a abundância de águas paradas, todos em conjugação, proporcionam condições óptimas para a reprodução daqueles picantes insectos. E assim continua a suceder nas regiões tropicais e subtropicais do planeta.
Ao longo dos tempos, esses factores têm provocado, em muitas dessas regiões, graves problemas de saúde pública, sobretudo em África, e as zonas mais quentes e húmidas de Angola não eram excepção. As principais doenças transmitidas pelos incómodos insectos eram, na época, a febre amarela e o paludismo ou malária. Em conjunto, as duas eram responsáveis pela morte de milhares de pessoas, anualmente, e também contribuíam para a desnutrição e a pobreza das populações.
Volta e meia vinha a Tifa, com máquinas que espalham nuvens de veneno. Curiosamente, durante muito tempo, pensei que aquele nome, Tifa, seria o de uma instituição oficial para o controle dos mosquitos. Só quando a dúvida se tornou incómoda fui estudar, e descobri que não. As máquinas TIFA (Todd Insecticidal Fog Applicator), invenção do senhor Todd, são utilizadas desde os anos 50 para a fumigação em muitos casos de combate a insetos. Havia, e ainda há, aparelhos maiores, transportados por veículos, e os mais pequenos, portáteis. Agora, sei que funcionam por termonebulização de inseticidas variados, e que são mais eficazes do que os aspersores que eram usados até então.
Tanto tempo depois, aquelas doenças e outras que se revelaram mais tarde, como zika e dengue, ainda não têm resposta na medicina preventiva, e continuam a causar problemas graves nas regiões onde ocorrem. Com as mudanças climáticas em curso, as áreas afectadas estão mesmo em expansão.
Uma fracção das verbas despendidas para mandar “sucatas” a Marte seria suficiente para fazer avançar o conhecimento e para descobrir métodos eficazes de combate a essas doenças. Assim, e contra o que seria expectável, continuamos dependentes da aplicação de quantidades enormes de venenos muito nocivos para as restantes espécies, incluindo a nossa, em muitas regiões do globo.