NO LOBITO

No início dos anos setenta fomos viver junto ao mar, no Lobito, por transferência do pai, que era funcionário da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela. Anos felizes para um rapazinho de onze, doze anos. A mudança trouxe novos hábitos, novas caras e excelente peixe fresco, por comparação ao que se comia no interior, desinteressante e a saber a fénico. Aos sábados, ia com o pai comprar peixe- espada, pargos, barbudos ou outros igualmente saborosos. Os pescadores artesanais expunham o resultado do seu trabalho nocturno na areia das praias, e vendiam barato. De regresso a casa, o ingrediente chegava muito a tempo de ser preparado para o almoço. Em dias especiais havia “caranguejo do alto”, cozido pela mãe. Grande e suculento, era uma delícia acessível.

Aos domingos havia muitas praias para explorar, as da restinga e do Compão, e, lá para os lados de Benguela, a Caota, a Caotinha, a Baía Azul, a Baía Farta. Passear, nadar, pescar, e fazia-se pic-nic. Só tínhamos de ter cuidado com o excesso de sol, com as alforrecas, e com umas flores da areia que, quando secas, se espetavam dolorosamente nos pés.

Havia novos vizinhos com quem jogar, às cartas ou ao monopólio, ou brincar no pátio, por vezes às escondidas no local mais insólito que vos poderia ocorrer: no armazém da agência funerária que havia no rés do chão, cheio de escuros caixotes de madeira, muito compridos e com rendas brancas. 

Os amigos do pai proporcionaram-me aventuras sem fim.  Claro que muito se passava em volta de patuscadas, designação antiga para os eventos de gastronomia entre amigos. Lembro-me bem de duas ocasiões distintas. Aquela caldeirada de peixe, enjoativa quanto baste, e que tive de  comer até ao fim, pois era assim que se fazia lá em casa, deixou marca difusa. Já a segunda é bem nítida. Fizeram uma fogueira e colocaram-lhe por cima uma grande e grossa chapa ferrugenta, apoiada em improvisados suportes de tijolos sobrepostos. Entretanto, chegou uma encomenda de dois enormes sacos de serapilheira, bem cheios com uma surpresa. Mãos sabedoras explicaram como fazer. Tirar do saco uma peça de cada vez, colocá-la em cima da chapa quente, e esperar três ou quatro minutos até abrir, com um silvo de vapor e soltando um pouco de água que fervia imediatamente, deixando uma mancha de salitre. Depois, era só tirar a iguaria escalfada para o prato, comer e repetir o procedimento. Foi essa a primeira vez que comi ostras. Esses convívios eram bons,  mas eu gostava era de ir pescar com eles, na praia ou no barquinho Zé Tó, um fora de bordo pintado de branco. Quando me levaram, os adultos começaram a pescar à cana e deram-me uma bobina de nylon. “Desenrasca-te!” Na ponta fixei uma chumbada e, um pouco mais acima, três ou quatro anzóis médios. Isquei-os e deixei afundar, devagar. Devia estar um cardume por baixo do barquito, pois a linha estremeceu vigorosamente. Puxei-a a custo e, em cada anzol, vinha uma ferreira. Repeti a proeza mais duas vezes e, então, tudo acalmou. Ganhei. Numa outra ocasião, fomos pescar numa falésia do lado norte da baía. Não era alta e tinha bom acesso, mas fiquei só a ver. E presenciei de palanque um encontro que não mais tornei a ver. De repente, naquela água cristalina, mesmo ali por baixo, surgiram dois grandes atuns em veloz perseguição a algumas tainhas. Estas fugiam pela vida, mas não vi se o lograram. Também com um grupo de amigos dos pais, fez-se uma caminhada até à Catumbela. Passeio agradável pelo fresco da manhã, vendo primeiro as salinas, e, mais adiante, as extensas plantações de cana. Mais adiante, passámos pela refinaria de açúcar, que se anunciava à distância com um aroma adocicado a melaço.  

Já não sei em que circunstâncias fui ao aeródromo, e fiquei fascinado com os pequenos modelos de aviões. Os mais simples, feitos de madeira de balsa e elástico torcido, voavam sem controle. Os motorizados, controlados por dois fios metálicos presos num punho,  voavam em movimento circular com o operador no centro. Os mais avançados voavam livremente, fazendo acrobacias só limitadas pela destreza do dono com o comando de rádio. Fui várias vezes ajudar os aeromodelistas a lançar e a recolher as máquinas voadoras, ou a reabastecer o depósito com combustível malcheiroso.

Nem tudo são boas memórias. Os omnipresentes mosquitos infernizavam a vida aos de “sangue doce” como eu, e só as osgas, que os caçavam nos tectos, ficavam felizes e gorduchas. Volta e meia vinha a “Tifa”, com as máquinas de fumigação, lançar nuvens brancas de inseticidas, que hoje são mais que  proibidos. A chuva era pouca, mas, no tempo dela, a humidade e o calor peganhento agarravam-se a tudo, fazendo pessoas e animais peões de um jogo indolente, e até os relógios aparentavam andar mais devagar. Também nesta categoria de memórias, devo sublinhar os odores desagradáveis, orgânicos, que emanavam dos canais durante a maré baixa, e que se espalhavam pela cidade.  Particularmente desagradável foi aquela noite em que fiquei cheio de picos, por ocasião da comemoração de uma data qualquer. Fomos ver o fogo de artifício e ficámos na berma terrosa da estrada, como todos os outros. Estava escuro, não vi onde punha os pés e escorreguei no talude, enfiado-me nos cactos que bordejavam a via. De regresso a casa foi a mãe com a sua enorme paciência que os removeu. A juntar aos episódios menos apreciados, falta ainda mencionar que ocorreu,  lá para o final  da passagem pelo Lobito, um certo aperto no cinto. Já tinha maturidade para o constatar. Foram esses os anos do arroz trinca com sardinhas de conserva, e outros menus igualmente pobres, mas nunca me importei muito com isso.

Foram apenas dois anos a viver no litoral de Angola, mas plenos de aventuras e descobertas. Já escrevi muito sobre este período, e lembrei os bandos de flamingos, os tubarões, vacinas estranhas, caranguejos gigantes, cinema e cinemas, o caminho para a escola, e vários outros momentos marcantes, como a escolha dos livros na biblioteca. Ainda não tive oportunidade para escrever sobre os outros que, quando menos espero, assomam ao consciente, respondendo a estímulos diversos como cheiros, imagens, sons, conversas…

NOTAS 

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