A viatura saltou numa cova, inclinou-se perigosamente para a direita, e imobilizou-se com duas rodas fora do estreito caminho rural, rodando livres sobre a encosta de declive acentuado que só terminava na água, uns cinquenta metros mais abaixo. Um pouco menos de sorte e teria rebolado tudo para dentro da albufeira, o carro, as pessoas e as pedras que seguravam o caminho. Quando o silêncio se fez sentir, estávamos todos acumulados no lado esquerdo do furgão. Exagerado, o prof G estava no colo do motorista. Depois de estarmos mais calmos, pois a viatura não oscilava, e parecia estar assente nos dois eixos, discutiu-se brevemente a única maneira de nos pormos a salvo. Saímos pela porta esquerda da frente, devagarinho, cada um ou uma na sua vez. Chamados os bombeiros, a recuperação do veículo demorou toda a manhã, com a ajuda de guinchos, macacos, e força bruta. E, contra as expectativas, sem outros danos que não as arranhadelas deixadas pelas cintas que o mantiveram amarrado a um gordo eucalipto, até estar novamente com todas as rodas no trilho.
A albufeira da Caniçada, no rio Cávado e à porta do Parque Nacional, foi o palco para este e vários outros episódios da vida académica. Merece, portanto, que aqui exponha mais algumas dessas memórias.
Começo por fazer referência a um trabalho de ecologia aquática que lá fizemos, durante o 4º ano da licenciatura. A orientadora NV e o nosso grupo, constituído pela A, pelo JA e por mim, fomos fazer colheitas para análise de plâncton, e relacioná-lo com alguns parâmetros físico-químicos da água. Talvez no inverno e na primavera, já não me recordo bem, lá fomos na decrépita 504, com partida bem cedo do Porto, passagem pelo martírio da estrada nacional para Braga, e paragem em Amares, no largo do mosteiro em ruínas, para o segundo pequeno almoço. O trabalho no local foi entusiasmante, por colocar a aprendizagem em prática, e também foi agradável pela paisagem, pelos passeios no barco a remos, e também pela conversa, mas a avaliação revelou-se problemática, como já referido anteriormente (ler EXAMES COMPLICADOS).
Durante o 5º ano, perdi a conta a quantas vezes lá fomos. Tivemos aulas práticas sobre reprodução artificial de salmonídeos, bem como sobre as técnicas de criação de larvas e juvenis. Foram aulas muito boas, e tivemos oportunidade de sujar as mãos nas várias tarefas da estação experimental de aquacultura da universidade, quando o tema era novidade no país. O meu trabalho de licenciatura também passou por lá, entre outros locais (Paredes de Coura, Inha) pois a investigação sobre parâmetros hematológicos necessitou várias sessões de recolha de sangue de trutas.
Já docente, logo no primeiro ano em função, o que foi constrangedor pois os alunos tinham a minha idade, e alguns deles eram mesmo meus amigos, fiquei encarregado das aulas práticas de aquacultura, disciplina do 5º ano, e tivemos a cargo a monitorização do crescimento de truta-arco-íris, primeiro na estação experimental da universidade, e, depois, na albufeira de Vilarinho da Furna (ler TRUTAS BOAS).
Mais tarde, regressei à Caniçada por motivo da minha participação no estudo sobre a ictiofauna da bacia hidrográfica do Cávado, e pescar com redes não só trutas autóctones, barbos, bogas e escalos, mas também algumas das trutas-arco-íris que tinham escapado das gaiolas flutuantes experimentais, quando estas foram assaltadas e rasgadas por bandidagem local. Por esta ação ignorante, e ainda por descuidos em várias truticulturas, esta espécie americana é hoje considerada invasora em muitos dos nossos rios. Voltemos à pesca e às trutas capturadas nas redes. Algumas, com mais de meio metro de comprimento, eram mesmo apetecíveis. Levámos os maiores exemplares ao restaurante local e tivemos um jantar de categoria.