O MONSTRO

O primeiro que vi era maior que eu. Muito maior. Se me estendesse na areia da praia a seu lado, seria o dobro de mim. O monstro metia medo, com aquela grande e bizarra cabeça, bocarra aberta e dentes aguçados. Para ser mais rigoroso, deveria dizer quanto eu media, para que a comparação faça mais sentido, mas já não guardo essa informação dos meus doze anos, terão de fazer uso da imaginação.

O grande e medonho tubarão-martelo jazia na praia, já meio seco e de olhos baços. Rodeado de curiosos vindos de toda a cidade do Lobito, era a novidade do dia. Evento raro, a notícia sobre o monstro tinha corrido célere, numa época em que as redes sociais se apoiavam na comunicação boca-a-orelha. A bem da verdade, o telefone fixo, ainda longe de ser ubíquo, também ajudava. Assim, multiplicaram-se as conversas sobre o que tinha sido capturado por pescadores do bairro do Compão, e que estava em exibição na respectiva praia.

Os barquitos a remos daqueles homens do mar, também deitados na praia, quilha virada ao céu, eram pouco maiores do que a presa que um deles tinha capturado, deixando adivinhar a vigorosa batalha que se tinha travado nessa madrugada. E quantas mãos calejadas tinham segurado na linha, juntas ou à vez, suportando a dor sem saber o que estava fisgado no anzol? 

Nas águas temperadas e tropicais do planeta, várias espécies de tubarões martelo ocupam com eficácia a sua posição de grandes predadores dos oceanos. A mais encorpada delas, talvez a que vi naquela praia, pertence ao género Sphyrna, palavra que deriva do grego e significa martelo, como já deverão ter antecipado. Os maiores exemplares aproximam-se da meia tonelada e ultrapassam os seis metros. Apesar da corpulência avantajada, os ataques a humanos são raros, como regista o Arquivo Internacional de Ataque de Tubarões*, e nenhuma resultou em morte. Já o oposto assume proporções avassaladoras, tão grandes que os martelos são dos tubarões mais ameaçados de extinção. Sendo as suas barbatanas mais valorizadas do que as de outras espécies, a grande procura dos mercados asiáticos tem ditado a redução acelerada destes  predadores, preparados para tudo menos para a exploração excessiva. Apesar de estarmos no século 21, a situação continua a agravar-se, e o falhanço das limitações de captura e dos programas de fiscalização nada tem contribuído para a conservação dos tubarões. Triste final para quatrocentos milhões de anos de evolução.

Nota: 

* Os registos de ataques podem ser consultados em 

https://www.floridamuseum.ufl.edu/shark-attacks/”

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