A senhoria só deixava usar o chuveiro com o esquentador ligado três vezes por semana. Era um contratempo desagradável, a juntar ao bafio, à cama rangente e ao colchão velho. Por mais conveniente que a localização fosse, no número dois da rua do Almada, a escassos cinco minutos da faculdade, não fiquei naquele quarto mais do que um par de meses. É certo que estava dispensado de usar os transportes públicos apinhados, e ainda, e isto é sobrevalorizado quando somos novos, podia despertar mais tarde. Mas fartei-me depressa, e não descansei até encontrar melhores condições. Foi então que mudei para um quarto luminoso e com bom ar, na rua do Farol. Claro que era mais caro, mas, como já trabalhava, podia pagar.
Como as memórias convocam outras, com as mesmas personagens ou de tema semelhante, lembro-me de mais histórias sobre banhos proibidos. Esta que se segue, merece mais detalhes. Quando fugimos da guerra civil em Angola, já sabíamos que a vida seria complicada. Sem emprego nem bens para onde ir morar, fomos generosamente acolhidos em casa de familiares na Invicta, e lá vivemos seis meses até o pai ter um emprego não oficial, em meados de 1976. Foi então que fomos viver para as águas-furtadas de uma habitação velha e fria, cuja dona era espelho da casa. Ou seria ao contrário? A verba do aluguer fazia-lhe muito jeito e, por essa razão, passou a viver com uma família de estranhos debaixo do mesmo tecto. A alteração nas nossas vidas foi radical. Para mencionar apenas duas, lembro o banho semanal e os serões a tentar ver televisão.
Não havia chuveiro, mas podíamos usar a banheira, situada num cubículo por baixo das escadas de madeira que subiam para o sótão, desde que não fosse mais do que uma vez por semana. E a justificação da senhoria tinha lógica: “para poupar na água e na energia”. Ela aquecia uma panelinha com água no seu fogão e lavava-se à gato. “Chega muito bem”, dizia. Habituados a outros padrões de higiene, para a nossa família não era uma boa solução. Contudo, o nosso pequeno fogão estava lá acima, no sótão, e nem era bom pensar em descer as íngremes escadas a transportar a água quente para cada banho. O pai resolveu o problema com uma grande serpentina de aquecimento industrial, mas só ao sábado podia ser usada. Difícil de aceitar. Para mim, contudo, como podia usar o chuveiro no liceu depois das aulas de ginástica, nem era grande contrariedade.
A convivência na casa não era fácil, mas foi o começo para um futuro melhor. O sótão, ou águas-furtadas como a senhoria lhe chamava, tinha três pequenas divisões com tectos inclinados. A maior era a sala, e incluía a minha cama, e também a cozinha, separado por uma cortina pendurada num esticador. Tinha duas janelinhas viradas para as traseiras, e delas via-se o quintal sombrio, as hortinhas dos vizinhos, e muitos telhados. Nas outras divisões mal cabiam as camas, um quartinho de dormir para os pais e outro para a irmã.
Ao serão, descíamos para ver televisão. Na sala da velhota, víamos o único canal que o vetusto aparelho transmitia, a preto-e-branco, evidentemente. A imagem era péssima, o som também, e as interferências eram frequentes. Muitas vezes nada se via, pois a antena estava na sala. Uma no telhado seria dispendiosa, e chamaria a atenção dos fiscais para a existência de um receptor numa morada sem licença atribuída. Naquele tempo eram essas as regras, e fugia quem podia. Mas voltemos ao programa interrompido. O pai tentava recuperar as imagens reposicionando a antena, tantas vezes sem sucesso. O problema tinha solução, mas a explicação da senhoria era sempre a mesma: ”é de lá!”. Com esta frase queria dizer que a falha era da estação emissora, não da recepção. Estaria convencida disso, ou seria só uma justificação para nada fazer?
Querendo ficar também nesta história, outras memórias com banheiras e chuveiros chegam sucessivamente, envolvendo percevejos, ou um mal-entendido quando troquei a palavra “douche” por “bain” em casa de gente com pergaminhos, mas terão de ficar à espera de outra oportunidade.