CRUZ VERMELHA

Sempre que passo naquela rua, ao ver o edifício da Cruz Vermelha, a memória vem à superfície. O casacão, dois números acima do meu tamanho, não dava bom aspecto e, acima do restante, não ajudava mesmo nada a passar despercebido, um dos meus propósitos nessa altura. Para um “retornado”, era assim que nos chamavam, dar nas vistas era atrair a animosidade de alguns, felizmente em minoria. 

Para se entender esta memória, torna-se necessário explicar como obtive tal indumentária. Para os meus pais, ir à Cruz Vermelha buscar roupas para toda a família foi um passo necessário, mas deve ter doído, e constituíu  uma humilhação. Certamente que o foi, atendendo ao “ar enfiado” do pai, e à expressão de constrangimento da mãe. Para mim, só foi embaraçoso. E a roupa fazia mesmo falta, naquele primeiro inverno no desterro europeu, apos a fuga da guerra em Angola. Deram-nos cobertores, e também variadas peças de calçar e de vestir. A mim, entregaram um sobretudo quentinho e mais algumas coisas, mas não me lembro delas. Foram muito úteis no frio e húmido clima do Porto, lugar para onde nenhum de nós antecipara vir viver, mas os imponderáveis controlam a nossa vida, mais do que imaginamos. 

O casaco, o único que tinha, passou a ser indispensável, e vestia-o muitas vezes. Tantas foram elas que protagonizou um episódio desagradável. E assim são as memórias, pega-se numa e logo saltam outras. A cena, escusadamente, foi originada num mal-entendido, ao querer explicar quem era uma colega no liceu. Quando me perguntaram se, naquele dia, tinha visto a Maria, chamemos-lhe assim, e como havia muitas, caí no erro de escolher mal as palavras e disse “… se for aquela que anda sempre com um casaco comprido verde, vi sim.” A reacção da minha interlocutora foi imediata e cáustica. Julgando tratar-se de uma crítica frívola à amiga, devolveu-me a adjetivação que imaginou estar subentendida na minha resposta, exclamando:  “Olha para ti, também andas sempre com esse casaco!”. Ainda lhe vejo a desaprovação vincada na face, imediatamente antes de se afastar e sem ouvir a explicação lógica.

Voltemos ao sobretudo, o verdadeiro protagonista deste escrito. A mãe ajustou a posição dos botões, mas de pouco adiantou. Aos meus olhos, continuava a parecer um grande saco vazio, mesmo comigo lá dentro. Mas era tão quentinho!

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