De repente, os céus despejaram um aguaceiro frio na desabrigada praia, obrigando os foliões a amontoarem-se como pinguins debaixo do toldo empoleirado em paus e pagaias. De prato quente pousado nos joelhos, protegidos pela toalha, colher numa mão e caneca de esmalte na outra, terminei a refeição. Os pés não cabiam debaixo do abrigo e ficaram de fora, molhados. Desagradável.
A manhã tinha sido atarefada e divertida. Primeiro, o toque de alvorada, seguido do pequeno almoço reforçado. Depois foi a logística habitual de carregar os materiais para o almoço: comidas, bebidas, condimentos, panelas, fogões de campismo, talheres, pratos, copos… Em seguida, a deslocação até ao local de início de mais uma etapa da descida do rio em canoas. Era mais um episódio da aventura anual de celebração da amizade de uma dezena de marinheiros de água doce. Nesse ano foi a vez do Lima. Descarregado todo o equipamento necessário, coletes, lonas e sacos impermeáveis com roupas secas, telefones e documentos, seguiu-se a tarefa dos motoristas irem deixar os carros no ponto previsto para a chegada, o que permitiria a viagem para o campismo sem mais demoras, uma vez finda a etapa. Deixados os carros, regressaram à casa de partida, todos numa viatura. Quando lá chegaram, já os restantes elementos tinham acondicionado tudo nas canoas, e besuntavam-se com factor 50. Quando começou a remação, já o sol ia bem alto.
O cenário, o exercício, a galhofa e a conversa séria, a pausa para misturar amendoins com cerveja, uma garça ou alguns patos a voar pertinho, mas também o silêncio no meio do rio, quebrado apenas pela pagaias a entrar na água, tudo eram elementos enriquecedores da aventura rejuvenescedora.
A meio da etapa, era já hora de fazer o almoço e, escolhido o local, não sem a tradicional discussão de prós e contras, aconteceu o desembarque geral. Depois de se tirar das canoas todo o material necessário, os engenheiros de serviço montaram o toldo. Dava gosto ver a solução adoptada a cada dia, resultado das condições do local e dos palpites desencontrados dos “especialistas”. O facto é que, no final, havia sempre sombra para a cozinha improvisada, e para os comilões. O almoço não era uma coisa qualquer. Sempre foi considerada importante a preparação cuidadosa dos petiscos, não só para agradar às bocas mais exigentes, mas também como um exercício criativo da arte culinária por parte dos cozinheiros. E, enquanto se aprontava o prato principal, desbastavam-se os aperitivos. Mas estou a relatar muito depressa, é melhor voltar um pouco atrás. Enquanto os mais acalorados davam mergulhos no rio, os mestres-cuca do costume, com a ajuda de mais alguns, começaram a preparar o almoço. Foi então que deram por falta de um ingrediente indispensável. Verificados todos os sacos e vistoriadas as canoas e os caiaques, a evidência chegou: as cebolas tinham ficado no acampamento. Destacaram-se voluntários para visitar as quintas em redor. Alguma delas poderia resolver o grave problema culinário. E assim foi. Com elas na mão, a expedição retornou triunfante, e os chefs prepararam o repasto, delicioso como sempre. Contudo, daquela vez, não foi apreciado como merecia, devido à chuva inesperada.
Hoje, adicionada mais de uma década e perdidos para sempre incontáveis neurónios, o que pode explicar muito, alguma coisa me diz que a culpa foi das cebolas. Esquecidas no acampamento, preteridas, contorceram-se tanto que até fizeram as nuvens chorar.
