Nas margens do Côa, ele colhia espargos silvestres. Acedendo ao nosso pedido, o velhote baixo e seco, enrugado e queimado do sol, abriu a bolsa de pano sujo e mostrou uma mão cheia de talos, fininhos como lápis de desenho, de um verde-escuro baço. Uma deliciosa iguaria que, segundo ele, poucos conheciam, rara que era. Eu, que só tinha visto espargos de conserva, fiquei curioso. Perguntei a quem iria vender a safra do dia, pois deveria ganhar bom dinheiro com tal preciosidade. A ninguém, afirmou assertivo. Eram para consumo lá de casa. “Tão tenrinhos que até crus se comem!”, afirmou para a plateia que o rodeava, e fez a demonstração. Naquela tarde solarenga de primavera, fomos encontrá-lo por acaso num velho olival, a sul das vinhas de Ervamoira, e perguntámos o que ali fazia. Adivinhando audiência receptiva, pousou a arma, tirou a boina encardida, desatou a língua e contou-nos uma mão cheia das suas vivências.
Guarda-rios reformado, conhecia aquela zona como ninguém, anos e anos a patrulhar as margens do rio, multando pescadores sem licença, ou os que usavam métodos ilegais, a quem fazia esperas nos melhores fundões.
As suas funções iam mais além de fiscal da pesca. A estrutura regional do ministério da agricultura, da qual era funcionário, exigia-lhe o cumprimento de outras tarefas, e uma delas tinha mesmo um incentivo. Fiquei surpreendido quando ele disse ter recebido, ao longo dos anos, pagamento pela morte de muitas raposas, desde que entregasse as respectivas caudas. Por cada uma recebia 50 escudos, e a conversão directa dá 25 cêntimos. No entanto, o valor real, actualizado pela inflação, é de 15 euros. Sim, o estado incentivava o extermínio dos animais de espécies consideradas daninhas pelas populações rurais, e as leis da caça mantiveram essa adjectivação até ao século 21, apesar das evidências em sinal contrário…
A juntar a esse aspecto menos positivo, o homem confessou sem problemas que andava sempre acompanhado da sua velha escopeta, e que fazia tiro-ao-alvo nos barbos do rio, por divertimento. Por vezes, atirava também a outros animais aquáticos. E acrescentou rapidamente que isso tinha ocorrido quando ele era novo. Já não o fazia, disse, “pois agora há poucos.” Quisemos saber que animais eram. Lontras, cágados e mais alguns. Agora, lontras ele quase não as via, e também não sabia que o cágado-de-carapaça-estriada se tinha tornado uma das espécies aquáticas ameaçadas no país. Felizmente, o Cágado-mediterrânico, também habitante do Côa, é mais comum e não está ameaçado.
Um balanço objectivo entre acções positivas e negativas do Guarda-rios, bem como do conjunto dos seus colegas de profissão, será difícil ou impossível de fazer, por falta de registos. Vendo bem as coisas, não é correcto omitir esta dualidade nas revisões desta atividade, e que vão aparecendo ao longo dos anos.
Voltando aos espargos silvestres, tive de esperar vários anos até lhes ferrar o dente. Por ocasião de uma visita a Alcochete, para observação de aves no estuário, resolvemos explorar uma estrada que não conhecíamos. E foi aí, perto da Barragem Vale do Cobrão, Samora Correia, que comprámos um molho deles, a uma senhora que os vendia numa banca improvisada na berma da dita estrada. Deliciosos!