VICENTINAS

A música de Verdi ouvia-se ao longe, todos os anos era a mesma coisa. Não descortino qual a razão pela qual o coro dos escravos, mas sobretudo a marcha triunfal de Aída, eram as mais usadas. Sei que assim se chamavam, pois cedo o descobri ao escutar os discos da coleção familiar. Haveria outras músicas, certamente, mas dissolveram-se na memória, talvez por a elas não ter associado qualquer referência nos anos que se seguiram. O carro escuro, com um grande altifalante cónico instalado na corcunda, percorria lentamente as ruas do bairro, acompanhado de mais uma ou duas viaturas e algumas pessoas a pé, e o cortejo ia parando quando alguém fazia sinal com o braço levantado.

Ao ouvir a música ainda longe, as “Donas de casa” iam buscar ao armário o que tinham préviamente separado e, quando o carro passava à sua porta, iam entregar o embrulho feito com papel pardo e cordão de sisal. Algumas ficavam à porta, enquanto o ou a criada, nome que se dava à empregada doméstica, ia levar a embalagem até ao cortejo. As senhoras que caminhavam como se fossem em procissão, recebiam os volumes e acumulavam-nos dentro das viaturas. Mantenho difusa uma imagem de homens de fato escuro, mas bem viva a de várias mulheres, e duas ou três delas destacavam-se no grupo, volumosas, com vestidos ricos, pulseiras e colares vistosos, teimam em persistir no que recordo da cena. Talvez seja exagero de miúdo antes de completar a primeira década, mas aparentavam estar a fazer um grande esforço, contrariadas, enojadas até. Pelo menos esta era a interpretação que eu fazia dos seus rostos altivos, narizes empinados e arrepanhados.  Ou estavam simplesmente cansadas do esforço. Ou então ambas as interpretações correspondem à mesma realidade.

Nas datas aprazadas, andavam pelos bairros da cidade com a nobre missão de  recolher roupa para “os pobrezinhos”. Roupas usadas, claro, mas lavadas e passadas a ferro por quem doava. A campanha era publicitada com  antecedência, não sei de que modo, pois essa questão saía da minha compreensão sobre o funcionamento  do mundo dos adultos. 

Toda a operação era organizada e feita por pessoas influentes na cidade. As Vicentinas, como eram conhecidas aquelas senhoras, eram leigas que estavam ligadas a uma instituição religiosa, e que desenvolviam acções de caridade nas suas zonas de influência. Nada de concreto tinha sobre o motivo que lhes dava essa designação. Ao descrever esta memória, senti curiosidade e procurei uma explicação. Como seria óbvio para alguém mais relacionado com temas religiosos, o nome vem de uma congregação religiosa, masculina e católica, fundada no século 17 por São Vicente de Paulo, e cujos membros são também conhecidos por Lazaristas ou Padres e Irmãos Vicentinos. Fica tudo explicado.

Deixe um comentário